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César Chávez, rosto do movimento pelos direitos civis latinos nos EUA, acusado de abusar de raparigas menores

Muitas mulheres mantiveram-se em silêncio durante décadas, tanto por vergonha como por medo de manchar a imagem de um homem que se tornou um herói para os latinos. Para pessoas próximas delas não poderia haver pior altura do que agora, quando muitos membros da sua comunidade estão a ser detidos e deportados em massa.

Um dos rostos do movimento pelos direitos civis latinos nos EUA e uma das mais marcantes figuras da história mexicano-americana, César Chávez, está a ser acusado de ter abusado de raparigas menores que frequentavam eventos organizados por ele nas décadas de 60 e 70. 

César Chávez discursa durante uma manifestação
César Chávez discursa durante uma manifestação AP

Através de greves de fome, boicotes e marchas, Chávez chamou à atenção para a situação precária dos trabalhadores agrícolas norte-americanos de origem latina. O seu movimento é credibilizado por não só ter melhorado os salários, as condições de vida e os cuidados de saúde dos trabalhadores e das suas famílias, como por ter reforçado o poder político dos latinos nos EUA. Em 1994, depois da sua morte, recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade, a mais alta honra do país, e quando Joe Biden foi eleito em 2021 colocou um busto de bronze do sindicalista no Salão Oval da Casa Branca. 

Mas uma nova investigação revela que enquanto lutava pelos direitos dos trabalhadores latinos, Chávez abusava de jovens meninas nos bastidores. Dezenas de mulheres mantiveram-se em silêncio durante décadas, tanto por vergonha como por medo de manchar a imagem de um homem que se tornou um herói para a comunidade latina norte-americana, cuja imagem aparece em murais escolares e cujo aniversário é feriado federal na Califórnia. 

Uma investigação do jornal norte-americano revela provas que corroboram as acusações feitas por Ana Murguia e Debra Rojas à publicação, assim como a de outras mulheres, contra o co-fundador do Sindicato dos Trabalhadores Agrícolas Unidos, que faleceu em 1993 aos 66 anos.

Os casos de Murguia, Rojas e Huerta

Murguia e Rojas, hoje com 66 anos, são filhas de ativistas que participavam em manifestações ao lado de César Chávez. Segundo Ana Murguia, o ativista, que a conhecia desde que ela tinha 8 anos, aproveitava a privacidade do seu escritório na Califórnia para abusar dela. Foi aos 13 anos que os abusos começaram quando um dia ele, na altura com 45 anos, pediu para a ver no seu escritório. Assim que ela entrou ele trancou a porta e começou a beijá-la, baixando-lhe as calças. “Não contes a ninguém”, disse ele, “elas ficarão com inveja”, recorda Murguia ao jornal, acrescentando que depois desse incidente foi chamada para encontros sexuais com Chávez dezenas de vezes ao longo dos quatro anos seguintes. 

Debra Rojas tinha 12 anos quando Chávez lhe tocou de forma inadequada pela primeira vez, apalpando-lhe os seis no mesmo escritório onde se encontrava com Ana Murguia. Quando ela tinha 15 anos, ele organizou um esquema para que ela ficasse num motel durante uma marcha pela Califórnia, onde teve relações sexuais com ela. A publicação nota a ilegalidade do incidente, notando que se trata de violação ao abrigo da lei estadual uma vez que a vítima não tinha idade suficiente para dar consentimento. 

As alegações de abuso fazem parte de um padrão de conduta sexual imprópria extensa por parte de Chávez, revela o NYT. A investigação revela ainda que o ativista se aproveitou de muitas das mulheres que trabalhavam com ele e eram voluntárias no seu movimento, incluindo uma das suas aliadas mais fortes a ativista latina Dolores Huerta. 

Dolores Huerta
Dolores Huerta

Numa noite de inverno em 1966, em Delano, na Califórnia, Chávez levou-a de carro a uma vinha isolada, estacionou e violou-a dentro do veículo. Huerta, na altura com 36 anos, decidiu não denunciar a agressão à polícia devido à hostilidade das autoridades policiais para com o movimento civil latino e receava que ninguém dentro do sindicato acreditasse nela. Mais tarde, iniciou uma relação de longa duração com o irmão de César Chávez, Richard Chávez, com quem teve quatro filhos. Richard  morreu em 2011. 

As provas

E-mails internos mostram membros do sindicato a debater as alegações de abuso de Ana Murguia e o impacto que as mesmas tiveram na sua vida. A jovem entrou numa espiral de consumo de heroína e contemplou suicídio várias vezes. Há mais de 10 anos Rojas fez uma publicação a condenar os abusos de Chávez num grupo privado no Facebook para apoiantes dele. Quanto às alegações feitas por Dolores Huerta, nada surgiu para as corroborar uma vez que ela não o denunciou até há poucas semanas. 

Os detalhes extraconjugais de Chávez com mulheres maiores de idade foram expostos em pelo menos duas biografias, mas nenhum levantou questões sobre abuso de menores. Embora ele tenha tido oito filhos com a sua esposa, Helen Chávez, a investigação revelou que ele teve pelo menos quatro outros filhos com três mulheres. Duas dessas crianças foram resultado dos encontros que teve com Huerta. A própria afirmou que escondeu as gravidezes usando roupas largas e ponchos, que deu à luz às meninas e depois colocou-as para adoção. 

A rua César Chávez em São Francisco
Academia César Chávez em Detroit
Um mural em homenagem a César Chávez em Chicago
Centro de aprendizagem César Chávez em Dallas
A rua César Chávez em São Francisco
Academia César Chávez em Detroit
Um mural em homenagem a César Chávez em Chicago
Centro de aprendizagem César Chávez em Dallas

Distanciamento por parte de organizações próximas de Chávez

As alegações investigadas pelo The New York Times levam a que organizações ligadas a César Chávez se distanciassem da sua imagem, nomeadamente o Sindicato dos Trabalhadores Agrícolas Unidos que cancelou as celebrações anuais em sua homenagem. Marchas a celebrar Chávez foram canceladas em Austin no estado do Texas, e em Tucson no estado de Arizona e oficiais estatais afirmaram que iam considerar a possibilidade de renomear dezenas de ruas e escolas com o seu nome. 

“Nenhum de nós sabia”, afirmou esta quarta-feira o governador da Califórnia, Gavin Newsom, acrescentando que iria discutir com legisladores a possibilidade de renomear o Dia de César Chávez, comemorado a 31 de março. 

As três mulheres, Ana Murguia, Debra Rojas e Dolores Huerta afirmaram que, durante anos, debateram revelar as suas histórias publicamente. Algumas pessoas próximas delas imploraram-lhes que não o fizessem, argumentando que não poderia haver pior altura para atacar um herói latino do que agora, quando imigrantes enfrentam detenções e deportações generalizadas e que, para muitos, os direitos políticos dos cidadãos hispânicos parecem estar a ser atacados pela administração Trump. 

No final, disseram que a história do movimento de Chávez também era a sua história, a das mulheres que marcharam ao lado dos homem, que trabalhavam nos campos e que cuidavam das crianças. O movimento, disseram elas, era mais do que um só homem.