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"Com o algoritmo percebo que aquela mancha branca não vai evoluir para cancro. Já não tiro metade da língua"

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Seis em 10 doentes com cancro oral morrem cinco anos após o diagnóstico. O investigador brasileiro Marcelo Sperandio desenvolveu uma plataforma de Inteligência Artificial que pretende encurtar essa estatística, determinando com maior precisão quais os casos com que os médicos se devem preocupar e intervir.

Apesar dos avanços da tecnologia, este é um dos cancros em que as estatísticas continuam a não ser animadoras. Estima-se que cerca de 6 em cada 10 doentes de cancro oral morram 5 anos após a data do seu diagnóstico. A principal razão deve-se ao facto de serem detetados tardiamente. É aqui que o trabalho de Marcelo Sperandio pode fazer a diferença. O investigador brasileiro da Faculdade de São Leopoldo de Mandic, e também médico de Medicina Dentária, desenvolveu um algoritmo que aumenta a capacidade preditiva nos casos de alto risco. É que a interpretação humana falha em determinar que lesões encontradas nas bocas dos pacientes podem, de facto, evoluir para cancro. 

"A ideia é os profissionais de saúde poderem passar a imagem da biopsia no algoritmo e fazer uma primeira triagem", diz o médico
"A ideia é os profissionais de saúde poderem passar a imagem da biopsia no algoritmo e fazer uma primeira triagem", diz o médico Getty Images

"A nossa experiência diz-nos que em cada 100 pacientes com leucoplasia [as tais lesões], só 4 evoluem para cancro", diz o especialista à SÁBADO numa entrevista telefónica, recém-chegado a Portugal, onde participou num congresso sobre a evolução da Inteligência Artificial na Medicina Dentária, organizado pela CESPU. A sua descoberta pode evitar intervenções invasivas e dolorosas para os doentes, como a remoção de partes ou mesmo de toda a língua. Neste momento, o algoritmo vai ser testado em amostras de outras populações, que não a brasileira, e no final de 2027 estará pronta uma plataforma que poderá ser usada pelos sistemas de saúde - caso a eficácia desta ferramenta seja validada. 

Como é que começou a dedicar-se a esta investigação?

Desde que os tempos da faculdade que eu ouvia uma frase que me incomodava: que os pacientes que desenvolviam um cancro oral tinham uma sobrevida de 50% em cinco anos. E os que sobreviviam não tinham qualidade de vida. Ia para um congresso, para outro, e mais outro, e desde os anos 80 que esse número permanecia inalterado. Então, pensei: “Alguém tem de fazer alguma coisa a respeito disso, entender melhor o problema, porque o que se acredita estar fazendo para ajudar não está a funcionar.”

Também enfrentava o problema na sua prática clínica?

Acredito que temos um dever de proteção com os doentes. E visto que o médico dentista é a pessoa que mais tem acesso à boca do indivíduo, faz parte do nosso código de ética não fechar os olhos ao que é desconhecido, porque isso não é desculpa.

Houve alguma história que o tenha impulsionado a tentar encontrar uma solução?

Não houve só uma, mas várias. E acho que, de facto, esse é o problema. Embora esta seja uma doença relativamente rara em comparação com os outros cancros, é das mais tristes, porque o tratamento é mutilador. E a qualidade de vida desses indivíduos fica muito prejudicada.

Muito recentemente, tive uma história tocante de um doente de 21 anos, professor de educação física, que desenvolveu um cancro na língua, até em estágio relativamente inicial, mas que dois meses depois da cirurgia desenvolveu uma recidiva – e passou muito mal. Acabou perdendo a língua por completo e teve de fazer o esvaziamento dos gânglios do pescoço.

E era um rapaz que não tinha fatores de risco convencionais, ele não fumava, nem era alcoólico, então esse caso foi bem tocante. Principalmente ao saber que para chegar ao cancro, houve certamente as fases que chamamos de pré-malignas. E é nesse ambiente que nós deveríamos concentrar os esforços, porque é a maneira mais salutar de fazer diagnóstico precoce – é antes do cancro aparecer.

O cancro oral é silencioso e detetado tardiamente?

Sim, ele tende a não causar sintomas até invadir demasiado os tecidos. Infelizmente, é só nesse momento que os doentes procuram ajuda, porque ou têm dificuldades em engolir, ou dificuldade a falar ou a mastigar, ou porque aquela lesão aparece e passa a incomodar. Nos estágios iniciais, em geral, não causa sintomas. Mas quando aparecem sintomas, então é sinal de que já invadiu os tecidos subjacentes e já tem risco de ter viajado para outras partes do corpo.

Quais são as pessoas que estão mais em risco?

Existe uma população de maior risco, mas há casos, como esse exemplo que lhe dei – de um rapaz saudável de 21 anos que não tinha fator de riscos tradicionais –, que também desenvolvem a doença. Mas a população de maior risco são homens a partir dos 55 anos com um histórico de tabagismo crónico, são os mais vulneráveis.

Nesse caso conseguiram perceber o que provocou o cancro?

Não sabemos, mas há uma predisposição genética em alguns pacientes. Só que aqui não havia história familiar.

Como é que arranca com este trabalho?

Entre a mucosa oral normal e o cancro, há um período que nós chamamos de potencialmente maligno. E é aqui que nós trabalhámos a inteligência artificial para intervir. Porquê? Em geral, começam por aparecer umas lesões potencialmente malignas, com uma aparência esbranquiçada. Chamam-se leucoplasias. Infelizmente, esse diagnóstico é feito por exclusão, ou seja, diz-se que aquela placa branca é uma leucoplasia quando não se consegue diagnosticar mais nada.

Porém, mesmo nesses casos, a nossa experiência diz-nos que em cada 100 pacientes com leucoplasia, só quatro evoluem para cancro. Isso cria um problema: intervimos e mutilamos todas as línguas onde há lesão, sendo que só quatro das 100 vão evoluir para cancro, ou vigiamos e esperamos?

Há um problema de sobretratamento: arrancamos 96 pedaços de línguas de forma desnecessária. Marcelo Sperandio, investigador da Faculdade de Medicina Dentária de São Leopoldo Mandic, em São Paulo, no Brasil

Que intervenção se faz nessas lesões detetadas?

Há várias opções de tratamento, mas a maioria tem muito pouca evidência científica de que funcione mesmo. Alguns centros removem-nas todas, mas isso não resolve o problema.

Porquê?

O que acontece é que aquela mancha é apenas uma manifestação de uma área cancerígena muito maior. É como se você tivesse uma fuga de água, e visse uma mancha de humidade na sua parede. O problema é muito maior do que só aquela mancha. E a olho nu é praticamente impossível encontrar os limites da área realmente afetada. Ou seja, remover as lesões só estamos a retirar o que é visível e corremos o risco de haver uma recidiva.

Há um estudo bem do final dos anos 90, feito por um grupo da Holanda, que acompanhou um grupo em que foram removidas as lesões brancas e um outro em que só as vigiaram. E a taxa de evolução para cancro foi a mesma em ambos os grupos. Então, percebeu-se que se não soubermos exatamente quais são aqueles quatro casos dos 100 que vão evoluir, os nossos esforços são inúteis. Há um problema de sobretratamento: arrancamos 96 pedaços de línguas de forma desnecessária.

É aí que entra a Inteligência Artificial?

Sim, a ideia é fazer a avaliação do risco das manchas brancas e tentar perceber se aquele é um dos 4% que vão tornar-se num cancro, ou então, se a pessoa pode ir para casa descansar porque será uma das 96% que não vai ter cancro. E aí concentramos os esforços naqueles 4%.

Neste momento, como é feita a avaliação das lesões que se encontram?

Quando há uma lesão deste género é feita uma biopsia e cabe ao patologista avaliar se é de baixo, médio ou alto risco. Se o especialista fizer um prognostico de alto risco, quer dizer que a probabilidade de evoluir para um cancro é de 15%, só que esta avaliação é subjetiva – com base na experiência do patologista.

Com base nisso, em 2022, a Organização Mundial da Saúde sugeriu um método melhor: procurar cerca de 20 características naquela lesão para determinar se vai evoluir ou não. Fomos testar esses critérios e percebemos que dos 20 critérios, apenas 3, na verdade, se correlacionam com o risco de evoluir para cancro.

Isto através de uma avaliação estatística de correlação: o grupo que não evoluiu e o que evoluiu, e comparámos as características presentes e ausentes. Melhorámos a capacidade de predição, de 15% a 20%, para quase 50%. Mas fazer isto em escala seria impossível - é aí que entra a Inteligência Artificial.

Como chegam ao algoritmo?

Usámos ferramentas de machine learning diferentes e fomos acrescentando dados. Percebemos, por exemplo, que com um aparelho chamado citómetro de fluxo [usado para analisar as propriedades fisiológicas e químicas das células] que o grupo de pessoas em que as lesões evoluíram para cancro tinham um excesso de DNA, e que só com esse teste conseguiríamos aumentar as previsões para 40%. Mas, combinando todos os dados do doente (demográficos, clínicos, aquilo que se observa ao microscópio mais esse da citometria de fluxo), conseguimos uma capacidade de previsão de 80%.

Qual é a função desta ferramenta?

A ideia é os profissionais de saúde poderem passar a imagem da biopsia no algoritmo e fazer uma primeira triagem. Uma outra vantagem é que democratiza o sistema, porque há muitos lugares do mundo – onde este cancro tem uma prevalência e incidência muito altas – em que não há patologistas. Então, se arranjarmos um sistema de baixo custo que possa ser usado na ausência do patologista, temos uma ferramenta potencial para resolver a vida de muita gente.

Implica na mesma a biópsia, mas evita as outras intervenções?

Se com o algoritmo vier um teste negativo quer dizer que aquela mancha branca na língua não irá evoluir para um cancro. Então, para quê tirar metade da língua? E aí podemos concentrar os nossos esforços e desenvolver terapias mais eficazes para aqueles 4% que vão evoluir para o cancro.

Já estão usá-la?

A maior limitação é que fizemos este trabalho com aproximadamente 100 casos, o que não é suficiente para generalizar para toda a população. Neste momento, estamos a trabalhar com instituições no Canadá para comparar os nossos modelos, para saber se esta avaliação de risco que funciona na população brasileira, é replicável na população canadiana e noutras. Uma vez validada noutras populações, pode ser implementada.

Diagnosticar o cancro é uma falha biológica, porque se perdeu aquela janela de oportunidade de ter feito isso numa fase ainda pré-maligna. Marcelo Sperandio, professor na Faculdade de São Leopoldo de Mandic, em São Paulo, no Brasil

Se tudo correr bem, quando pode ser implementada?

Depende da avaliação dos órgãos reguladores. No Brasil é a Anvisa, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária. De forma experimental, já estamos a usar na nossa instituição, para delimitar quais os pacientes em que precisamos de dedicar mais esforços e aqueles a quem podemos dar uma informação tranquilizadora.

É uma forma de testarem também.

Sim, só de forma experimental. Temos um financiamento da agência financiadora do estado de São Paulo, a FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), e estamos a preparar o protótipo de uma plataforma que una todos os dados e permita uma avaliação mais precisa do que a tradicional. A ideia é que esta plataforma fique disponível para os serviços de saúde, em inglês. Está previsto entregar até setembro de 2027.

A nível internacional há outros algoritmos parecidos a serem desenvolvidos?

Encontrámos outros cinco trabalhos que fizeram algo semelhante e que têm dados comparáveis ao nosso. Então, infelizmente, eu não sou nenhum desbravador, sou apenas um dos entusiastas dessa tecnologia, mais um mostrando que ela veio para ficar e que vai ajudar muita gente. É que as pessoas do mundo científico não se convencem muito facilmente, até que vários trabalhos semelhantes apareçam na literatura científica mostrando dados comparáveis.

Esta ferramenta é uma esperança?

Sem dúvida. Diagnosticar o cancro, para mim, é uma falha biológica, porque se perdeu aquela janela de oportunidade de ter feito isso numa fase ainda pré-maligna. Então, é fundamental olhar para aquela lesão que ainda não é cancro e saber se vai evoluir. Mas é preciso que as pessoas percebam que isto não é uma cura do cancro, é uma luz no fim do túnel – mas a gente não chegou do outro lado ainda.

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