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Curiosidades dos Mundiais de futebol (9): O golo aos 11 segundos, o 3º amarelo e a cabeçada de Zidane

O Mundial chegou à Ásia em 2002, onde vigorou o "Golo de Ouro" - e que levou ao despedimento de um coreano. Já o Alemanha 2006 assistiu à estreia de Ronaldo, teve um recorde de cartões e disse adeus a Zidane - com a surpreendente agressão a Materazzi.

O Mundial 2026 começa no próximo dia 11 de junho, com o México-África do Sul como jogo de abertura – vai acontecer no estádio Azteca, da Cidade do México, que vai ser o primeiro a receber partidas de três Mundiais (o México organizou o torneio em 1970 e 1986). Este é também o primeiro Mundial de futebol a realizar-se em três países (Estados Unidos, México e Canadá), algo que vai voltar a acontecer em 2030, pois a competição desse ano decorrerá em Espanha, Portugal e Marrocos. Enquanto não começa a febre dos jogos (e este ano serão, no total, 104, pois este vai ser o Mundial com mais seleções de sempre, 48), veja aqui algumas curiosidades ao longo de quase 100 anos da história da prova. Até ao início, vamos publicar todos os dias curiosidades à volta de dois Mundiais, num total de 11 textos. Este aborda os Mundiais de 2002 e 2006. 

A Itália venceu o Mundial 2006, com a final marcada pela cabeçada de Zidane em Materazzi
A Itália venceu o Mundial 2006, com a final marcada pela cabeçada de Zidane em Materazzi

Mundial 2002

Países organizadores: Coreia do Sul e Japão

Vencedor: Brasil

1. Foi a primeira vez que o Mundial foi organizado por dois países. Em termos de público, houve jogos disputados em estádios bem longe de terem a lotação esgotada. O Paraguai-África do Sul, num recinto com capacidade para 60 mil pessoas, teve apenas 25 mil espetadores.

2. Portugal apurou-se para o Mundial, 16 anos após a sua última presença, no México 86. E a seleção voltou a desiludir e a estar envolvida em polémicas. Depois da derrota na estreia, frente aos EUA (3-2), a geração de ouro, com figuras como Figo, Rui Costa, João Vieira Pinto, Pauleta, Jorge Costa ou Vítor Baía, goleou a Polónia (4-0), com um hat-trick do avançado açoriano, e bastava um empate no derradeiro encontro, frente à Coreia do Sul, para seguir em frente.

3. Frente aos anfitriões sul-coreanos, aos 27 minutos João Pinto teve uma entrada dura sobre Park e o árbitro mostrou-lhe o cartão vermelho – entretanto, no meio da confusão que se seguiu, o jogador português deu um soco na barriga do árbitro, tendo como consequência uma suspensão de quatro meses (e o afastamento definitivo da seleção nacional). Aos 66 minutos, o defesa Beto também foi expulso, e com 9 em campo Portugal acabou por sofrer um golo, não conseguindo evitar a derrota, apesar da oportunidade, mesmo no fim, de Figo.

4. Bora Milutinovic fez história ao orientar a quinta seleção diferente em cinco Mundiais seguidos: primeiro o México, depois a Costa Rica, seguindo-se EUA, Nigéria e, em 2002, a China. A seleção asiática iria perder os três jogos da fase de grupos, sofrendo 9 golos e não marcando nenhum.

5. O turco Hakan Sukur marcou o golo mais rápido de sempre num Mundial. Aconteceu frente à Coreia do Sul, no jogo de atribuição do 3º e 4º lugares – após uma atrapalhação de Myung-bo Hong, na saída de bola dos coreanos, os turcos recuperam-na e Hakan Sukur marcou aos 11 segundos. A Turquia venceu o jogo por 3-2, conseguindo a sua melhor classificação num Mundial.

6. O Brasil jogou em 2002 a terceira final consecutiva de um Mundial (venceu nesse ano e já tinha ganho em 1994, perdendo apenas em 1998, frente à França). Os alemães também estiveram em três finais consecutivas, entre 1982 e 1990, mas apenas venceram a última, saindo derrotados em 1982 frente à Itália e em 1986 face à Argentina.

7. A França foi uma das desilusões do Mundial, ao ponto da campeã do mundo (e europeia) em título ter sido eliminada com duas derrotas e um empate, com zero golos marcados. O primeiro desaire aconteceu na estreia, contra o Senegal, uma espécie de França B, pois 21 dos 23 convocados do país africano jogavam em equipas francesas.

8. A Irlanda, apesar de ter ficado sem o seu capitão, Roy Keane, que entrou em conflito com o selecionador e foi enviado para casa, ainda se apurou para os oitavos, após os dois empates (1-1) frente a Camarões e Alemanha e o triunfo sobre a Arábia Saudita – no último jogo bateram os árabes por 3-0, e mesmo que os Camarões tivessem empatado (perderam 2-0) com a Alemanha, passariam na mesma, pois tinham melhor diferença de golos.

9. A Coreia do Sul eliminou a Itália nos oitavos com o “Golo de Ouro” (uma nova regra da FIFA, que iria durar pouco, e que permitia a quem marcasse no prolongamento ficar logo apurado). O autor do golo foi Jung-hwan Ahn, aos 117 minutos, e o presidente do Perugia, clube onde Ahn jogava, declarou que o ia despedir: “Este senhor não colocará mais um pé aqui. Não tenho intenção de pagar o salário a quem arruinou o futebol italiano”. O árbitro equatoriano Byron Moreno também foi criticado, após ter expulsado Totti por ele ter, supostamente, simulado um penálti, no prolongamento.

10. A arbitragem esteve de novo envolta em polémica no jogo da Coreia do Sul frente à Espanha, que ditou o afastamento da Roja nos penáltis. A questão é que houve dois golos anulados de forma polémica aos espanhóis: o primeiro a seguir a um fora de jogo que deixou muitas dúvidas; e o segundo após o fiscal de linha ter considerado (erradamente) que a bola tinha saído antes do cruzamento que permitiu a Morientes marcar de cabeça.

11. O brasileiro Ronaldo Fenómeno teve em 2002 a última oportunidade de ser campeão mundial (fez parte dos convocados em 1994, com 17 anos, mas não jogou um único minuto na prova), e não desperdiçou esse momento, terminando mesmo como o melhor marcador, com 8 golos, incluindo os dois da final, frente à Alemanha (2-0). Apesar de ter sido operado ao joelho direito duas vezes, o que o levou a estar quase dois anos sem jogar, perdendo a velocidade e capacidade explosiva de outros tempos (apareceu mesmo com uns quilos a mais), Ronaldo foi decisivo num Brasil mais pragmático, que teve em Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho os mágicos criativos.

Mundial 2006

País organizador: Alemanha

Vencedor: Itália

1. A decisão de atribuir a organização à Alemanha foi polémica. Após o Mundial anterior ter decorrido na Ásia, estava previsto que o de 2006 fosse na África do Sul, havendo ainda Brasil, Marrocos e Inglaterra como possíveis interessados. A FIFA decidiu ainda atribuir logo o Mundial de 2010 à África do Sul, e havia já rumores de que o de 2014 seria no Brasil, como se viria a verificar.

2. A Alemanha, apesar de ter ido à final em 2002 e de jogar em casa, não era apontada como uma das favoritas à vitória. Uma sondagem, feita em meados de março, três meses antes do início do Mundial, revelou que só 3% da população alemã acreditava na vitória na competição, havendo 17% que referia que a seleção nem ia passar da primeira fase. Isso mesmo deu conta também o capitão Michael Ballack, que a 9 de maio dizia, em entrevista ao Bild, que a equipa era jovem e inexperiente e não seria surpresa se fosse eliminada na fase de grupos.

3. Em Itália, um mês antes do Mundial surgiu um escândalo, que ficaria conhecido como Calciopoli, ou Calciocaos, relacionado com corrupção e resultados combinados. Houve várias figuras do futebol envolvidas, desde logo o selecionador, Marcello Lippi, e jogadores como Buffon ou Cannavaro. Houve denúncias de que Luciano Moggi, dirigente da Juventus, tinha pressionado Lippi para que ele convocasse jogadores seus, para que eles se valorizassem. O presidente da Federação, Franco Carraro, foi forçado a demitir-se, e houve pressões para que Lippi fosse afastado, mas ele iria manter-se como selecionador da Itália no Mundial.

4. Portugal teve no Alemanha 2006 a sua segunda melhor prestação num Mundial – terminou no 4º lugar, uma classificação só superada pelo 3º lugar do Inglaterra 66, com Eusébio e companhia. A seleção apurou-se para os oitavos logo ao fim de dois jogos, com vitórias sobre Angola (1-0, golo de Pauleta) e Irão (2-0, marcaram Deco e Cristiano Ronaldo), e acabou por vencer também o México (2-1, golos de Maniche e Simão Sabrosa).

5. Seguiu-se, nos oitavos, a Holanda, com vitória por 1-0 (golo de Maniche), num jogo que iria entrar para a história do Mundiais como Batalha de Nuremberga, sendo ainda hoje a partida com mais cartões num Mundial: 16 amarelos e 4 vermelhos. As expulsões, do lado português, foram de Costinha e Deco, indo para a rua, pela Holanda, Boulahrouz e Van Bronckhorst. Esse Mundial iria mesmo bater o recorde de cartões, com 345 amarelos e 28 vermelhos.

6. Portugal teve nos quartos de final uma eliminatória épica frente a Inglaterra, vencendo nos penáltis, tal como tinha acontecido dois anos antes, no Euro 2004. E o guarda-redes Ricardo voltou a ser herói, ao defender três (de Lampard, Gerrard e Carragher), o que foi, na altura, um recorde em Mundiais. Nas meias-finais, Portugal foi afastado pela França, e de novo com um penálti (marcou Zidane), tal como já tinha acontecido no Euro 2000.

7. No jogo de atribuição do 3º e 4º lugares, Portugal perdeu frente à Alemanha (3-1), com dois golos de Schweinsteiger. Este Mundial seria de despedida para Pauleta (então o melhor marcador da seleção, com 47 golos) e para Luís Figo (na altura o mais internacional, com 127 jogos pela equipa das Quinas). Mas o Alemanha 2006 foi também o primeiro de Cristiano Ronaldo, que fez ali a sua estreia a marcar – 20 anos depois, chega ao Mundial 2026 com os máximos de 143 golos por Portugal e 226 internacionalizações.

8. O brasileiro Lúcio tornou-se o defesa que esteve mais tempo sem fazer uma falta em Mundiais. Esteve 386 minutos sem cometer infrações, ultrapassando o paraguaio Gamarra, que em 1998 tinha conseguido manter esse registo durante 383 minutos.

9. O Croácia-Austrália teve uma situação bizarra, pois o defesa croata Simunic só foi expulso após lhe ter sido exibido o 3º cartão amarelo. O árbitro, o inglês Graham Poll, mostrou-lhe um segundo amarelo aos 89 minutos, mas não o mandou sair de campo, e ao tomar nota do caso, como contaria mais tarde, escreveu o seu número corretamente, mas atribuiu o cartão amarelo ao nº 3 da Austrália, Craig Moore, tendo-se baralhado pelo sotaque de Simunic, que nasceu e foi criado na Austrália, mas preferiu representar a Croácia. Só já depois de o jogo acabar, e numa altura em que Simunic voltava a protestar com o árbitro, Graham Poll lhe mostrou novo amarelo (que era o 3º), exibindo-lhe a seguir o cartão vermelho. Como a Austrália se apurou, o caso não teve consequências, embora o árbitro não tenha voltado a apitar num Mundial.

10. Zidane avisou que iria deixar a seleção francesa após o Euro 2004, mas decidiu voltar para mais uma competição, marcando presença no Mundial 2006. Prejudicado por lesões, mesmo assim foi decisivo para as vitórias frente a Espanha e Portugal. E na final, contra a Itália, marcou logo aos 7 minutos, de penálti, com Materazzi a empatar aos 19 minutos. O jogo foi-se arrastando até ao prolongamento, e aos 110 minutos surge o momento que ficaria para a história: a violenta cabeçada de Zizou no peito de Materazzi.

11. Ainda hoje não se sabe ao certo quais terão sido as provocações do italiano, embora Zidane tenha dito que reagiu daquela maneira porque ele insultou a sua mãe, que estava numa cama de um hospital. Já Materazzi diz que o insultou após uma troca de empurrões, explicando que Zidane, quando ele lhe agarrou a camisola, terá dito em tom provocatório: “Queres que te dê a minha camisola?”, ao que Materazzi terá respondido: “Não, prefiro a p… da tua irmã”. O certo é que Zidane, um verdadeiro génio da bola, despediu-se da seleção francesa (e do futebol) com aquela triste imagem, a agredir um adversário numa final de um Mundial.