Um idoso de 68 anos foi atacado violentamente por um grupo de jovens migrantes. Confrontos estalaram em Torre Pacheco e autoridades não conseguem evitar os conflitos.
A comunidade de Torre Pacheco, em Múrcia, Espanha, tem sido o palco de confrontos violentos entre jovens imigrantes, populares e, possivelmente, grupos organizados de extrema-direita. Os conflitos violentos e que já resultaram na detenção de oito pessoas começaram depois de um idoso ter sido agredido, alegadamente, por um grupo de migrantes oriundos do norte de África (ou descendentes de imigrantes magrebinos). Uma manifestação pacífica contra o ato violento acabou em confrontos e durante o fim de semana viveu-se num clima de batalha campal na pequena comunidade espanhola, tendo mesmo sido declarada uma "caça" aos imigrantes por um grupo.
Martín C./Europa Press via AP
A agressão
Domingo, um idoso espanhol de 68 anos residente em Torre Pacheco, foi agredido com violência na quarta-feira passada por um grupo de jovens alegadamente de origem magrebina. O idoso passeava, pelas 6 da manhã, junto do cemitério de Torre Pacheco quando foi alvo das agressões de acordo com o que foi apurado pela Polícia Judiciária da Guardia Civil de Murcia. Não é claro o que terá motivado a agressão por parte do grupo de jovens - se foi provocada por um desentendimento no momento ou se havia antecedentes - ou se foi apenas uma agressão gratuita.
A Guardia Civil espanhola deteve esta segunda-feira dois dos suspeitos de terem sido cúmplices nas agressões e o jornal Voz Populiassegura que o principal agressor está identificado e deve ser detido em breve. Os dois jovens detidos são suspeitos de terem colaborado com o autor das agressões, tendo encoberto a situação e de terem ajudado o principal agressor a fugir. São ainda acusados do crime de omissão de auxílio. Estas duas detenções aumentam para oito as detenções depois de três dias de distúrbios entre os magrebinos do bairro de San António e vizinhos.
A revolta
A fotografia do idoso com o rosto cheio de escoriações e um olho coagulado de sangue começou a circular na quinta-feira. A teoria que foi avançada - mas não confirmada pelas autoridade - é que um grupo de jovens tinha agredido o homem para publicar no TikTok. Diogo Noivo, politólogo e especialista em segurança, refere que numa primeira fase os moradores se mobilizaram contra a agressão. Numa segunda fase a comunidade cigana de Torre Pacheco juntou-se aos moradores contra os imigrantes e numa terceira fase grupos de extrema-direita ter-se-ão juntado aos protestos (Noivo sublinha que não há confirmação desta organização de grupos extremistas vindos de outras partes de Espanha para acicatar o conflito, sendo apenas uma teoria e rumores).
Na sexta-feira o ayuntamiento (o equivalente à câmara municipal) convocou uma manifestação para repudiar o ataque violento, mas os ânimos estavam já exaltados e dois grupos entraram em confronto físico. De um lado jovens de origem migrante e do outro um alegado grupo de direita que carregou contra os jovens. As autoridades no local foram incapazes de conter a rixa, sublinha o El País.
Os confrontos deste fim de semana decorreram no centro do bairro de San Antonio, onde reside a grande parte da população magrebina de Torre Pacheco. As fotografias e vídeos da manhã desta segunda-feira mostram vidros no chão, pedras e outros objetos que forma arremessados de parte a parte e os vídeos publicados nas redes sociais e nos jornais mostram cenas de pancada entre várias pessoas.
O pico dos confrontos aconteceu no sábado, quando um grupo de homens encapuçados e vestidos de preto, empunhando paus e bastões, levou a cabo aquilo que os próprios descreveram como uma "caça". O alvo dessa "caça" são os imigrantes, especialmente os oriundos do norte de África, na casa dos 20 anos, muitos deles chegados ao abrigo do protocolo MENA (ver abaixo) ou já emigrantes de segunda e terceira geração com dificuldades de integração. Mas migrantes integrados na comunidade foram também afetados pela violência, relata o El Mundo.
O jornal El País diz que a extrema-direita aproveitou o ataque para culpar a comunidade imigrante, acusando o governo de não conseguir manter as ruas seguras e há relatos de grupos organizados no Telegram para chegarem a Torre Pacheco, mas as autoridades não confirmam estas acusações.
A Guardia Civil enviou cerca de 75 agentes para o município e a polícia local ficou encarregada de patrulhar as ruas e controlar os ânimos. Mas este contingente provou ser manifestamente insuficiente. Uma das críticas que tem sido apontada ao governo de Sánchez é de ainda não ter enviado para Múrcia reforços policiais do estado central. "Mas não nos podemos esquecer que em 2024, depois das cheias que mataram várias pessoas [236 mortos], Sánchez agiu tarde porque em causa estavam regiões do Partido Popular", sublinha Noivo, avançando que esta pode ser a razão para o novo atraso no envio de ajuda.
Uma geração desamparada
Diogo Noivo começa por contextualizar a situação da migração para o país vizinho. "Espanha, ao contrário de Portugal, por razões geográficas, tem recebido uma forte pressão migratória havendo mesmo ilhas espanholas que estão à beira de rutura porque são pequenas sem muitos recursos e a quantidade de imigrantes que chegam em pateras [pequenos barcos] é de facto muito avultada", conta o politólogo. "Mas também a costa sul recebe muitos migrantes vindos da costa norte de África", como é o caso de Múrcia. "Nós em Portugal não temos nada sequer semelhante àquilo que se vive em Espanha há muitos anos", conclui.
O investigador especialista em segurança dá ainda enquadramento sobre um programa especial que contribuiu para o barril de pólvora em Espanha relativamente ao sentimento da população e os imigrantes. "Há uma coisa em Espanha que é o MENA - Menor Estrangeiro Não Acompanhado. Estamos a falar de jovens adolescentes que chegam a Espanha de maneira ilegal e não acompanhados. É evidente que esses jovens têm de ser acolhidos e acompanhados de maneira diferente", refere Diogo Noivo. Mas os MENA criara uma divisão em Espanha, já que o governo de Pedro Sánchez, para retirar a pressão das ilhas e das regiões a sul propôs que os jovens fossem reencaminhados para as 17 regiões de Espanha, não se concentrando apenas nos lugares onde desembarcaram. "Mas a Catalunha e o País Basco disseram que não queriam lá esses menores e como Sánchez depende dos nacionalistas catalães e bascos para governar, acedeu ao pedido. Então das 17 comunidades autónomas, só 15 recebem os MENA, e as pessoas que são das comunidades autónomas mais pobres sentem que estão a ser injustiçadas porque há duas exceções e curiosamente das comunidades mais ricas."
"O que estamos a ver em Torre Pacheco são essencialmente MENA", diz o politólogo, acrescentando que há ainda alguns filhos de migrantes de segunda e terceira geração, já nascidos em Espanha, descendentes de migrantes magrebinos que estão também a participar nestes tumultos. Em causa está um sentimento de não pertença que une estes jovens, muitos deles que não trabalham nem estudam e sentem um descontentamento pela forma como a sua vida decorreu.
Muitos serão filhos de pais migrantes que chegaram a Espanha em busca de melhores condições de vida e foram confrontados com vidas difíceis de trabalho e que não tiveram uma integração real e os filhos ressentem o estilo de vida e a sua situação atual, ressentindo até o próprio país de acolhimento, acrescenta Noivo.
A emigração no olho do furacão
Uma sondagem citada pelo El Mundo dá conta de que 70% dos espanhóis é favorável ao repatriamento de imigrantes indocumentados. Diogo Noivo considera que existem em Espanha necessidade e capacidade para acolher estes migrantes. Mas acontece o mesmo que acontece em Portugal: os trabalhos que estão disponíveis para estes migrantes são trabalhos de mão-de-obra pouco qualificada e pouco diferenciada, o que leva a que os salários não sejam tão elevados.
"As pessoas vêm para Portugal e para Espanha para terem melhores condições de vida, mas depois são confrontados com trabalhos que pagam mal e continuam com muitas dificuldades, o que faz com que se sintam defraudados, aumentando o descontentamento", analisa.
Agressões a idoso e "caça" aos magrebinos. O que se passa em Múrcia?
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