Sábado – Pense por si

Sem vagas nas creches e amas "cheias", pais despedem-se para cuidar dos filhos

Luana Augusto
Luana Augusto 26 de maio de 2025 às 07:00
As mais lidas

Cerca de 250 mil crianças não estão inscritas numa creche por falta de vagas. Como solução, muitos pais contratam amas, outros mudam-se para o interior do País e alguns não têm solução se não ficarem no desemprego.

A falta de vagas nas creches está a dificultar cada vez mais a vida a milhares de pais em Portugal. Muitos têm mesmo de se despedir para poderem cuidar dos seus filhos, isto porque não conseguem arranjar vagas nas creches e as amas já estão "cheias". A denúncia é da presidente da Associação de Creches e Pequenos Estabelecimentos de Ensino Particular (ACPEEP).

João Cortesão

"Este problema não é de agora e continua a acontecer. Há até quem tente encontrar amas, mas há muito poucas, porque é preciso que sejam licenciadas pela Segurança Social, e cada uma têm um limite de quatro crianças", lamenta Susana Baptista. "Além disso, estão cheias e não têm capacidade para receberem tanta criança."

Segundo a dirigente, a situação é tão caótica que até já há pais a migrarem para outros pontos do País para conseguirem arranjar vagas numa creche. "Conheço famílias que se mudaram para o Interior, onde têm as suas famílias, e pediram transferência ou mudaram de trabalho para conseguirem uma vaga. Nestas zonas é sempre mais fácil garantir uma vaga", garante ao indicar que onde há mais procura é nos centros urbanos como Lisboa e Porto.

Um exemplo dessa dificuldade é Andreia Pires que tem um filho de 11 meses e partilhou no Instagram que acabou por ir para o desemprego, já que também não conseguiu vagas noutras zonas do País.

"Comecei a tentar garantir uma vaga numa creche para o meu filho ainda estava grávida de 14 semanas. Inscrevi-o em várias instituições públicas e privadas, em diferentes zonas, sem sucesso até hoje. Passados quase dois anos desde o início desse processo, continuo sem qualquer resposta", escreveu. "Esta ausência de resposta obrigou-me a tomar a decisão mais difícil da minha vida: deixar de trabalhar para cuidar do meu filho em casa. Tornei-me desempregada não por escolha mas por falta de alternativa."

Segundo Susana Baptista, para se conseguir um lugar no berçário "é preciso que os pais o façam no início da gravidez", à semelhança do que Andreia Pires fez, isto porque o tempo médio de espera atualmente ronda os seis meses. No entanto, lembra que "muitas IPSS não aceitam a inscrição da criança antes do seu nascimento", dificultando assim a situação.

Além disso, existe um outro problema: "As crianças têm de entrar em setembro, porque é quando começa o ano letivo. As que entrem já a meio, por exemplo em novembro ou dezembro, a probabilidade de conseguirem uma vaga é praticamente nula."

De acordo com a presidente da ACPEEP, hoje "só metade das crianças é que têm uma vaga". Isto significa que pelo menos 250 mil crianças entre os seis meses e os três anos não estão inscritas em nenhuma creche. "É um problema que se tem vindo a agravar", denuncia.

E qual a solução para estes pais? "Há pais que pedem para ficar em casa a trabalhar e tentam conciliar a sua vida pessoal com a profissional, mas muitos trabalhos não o permitem". As outras soluções são, como referido anteriormente, recorrer a uma ama ou mudarem-se para o interior do País.

Para este ano, que se inicia em setembro, a Segurança Social espera abrir 5.500 novos lugares. Além disso, "o Governo está a trabalhar em articulação com o setor social e solidário e com o setor privado no sentido de desbloquear eventuais constrangimentos que permitam a abertura de novas salas", indicou à SÁBADO o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social.

Para isso, a tutela avançou também que "o Governo aumentou a comparticipação financeira mensal do Estado, por criança de €473,80 para € 515,90 desde janeiro de 2025".

"Como reflexo deste trabalho, em menos de um ano, o Governo criou mais de 9 mil lugares em creches e, atualmente, esta resposta social tem uma capacidade instalada superior a 133 mil lugares."

Artigos Relacionados
Ajuizando

Arte redentora

Estudos recentes demonstram que atividades artísticas – como desenho, pintura, escultura ou colagem – não só promovem a expressão emocional e a catarse, como induzem estados de relaxamento que reduzem os níveis de cortisol.