O vírus que nos deixou mais sozinhos

Reformados fechados em prédios sem ninguém, grávidas que estão sós no hospital, perder os pais e não se poder despedir. Solteiros e emigrantes longe da família e enfermeiras que só veem as filhas na soleira da porta. Como a pandemia nos afastou.



Dificilmente Henrique imaginaria faltar ao funeral da mãe porque viajar de avião se tornou impossível para uma pessoa comum. Tal como Rute nunca pensou falhar um aniversário da filha porque uma coisa chamada estado de emergência veio impor uma nova forma de vida a milhões de pessoas. O isolamento social não é, obviamente, inócuo. Vários estudos indicam que a solidão aumenta o risco de doenças e enfraquece o sistema imunitário. O impacto a longo prazo na saúde é o mesmo que fumar 15 cigarros por dia, revela um estudo publicado na Perspectives on Psychological Science. Segundo a revista The Lancet, a solidão é uma questão de saúde pública – está associada, por exemplo, a um aumento de 26% no risco de morte prematura. É possível combater a solidão mesmo estando sozinho? Estas sete pessoas provam que sim. 


Fernanda Martins
reformada, 83 anos

Mora no Bairro Alto, em Lisboa, num quarto andar sem elevador e num dia normal era capaz de subir as escadas quatro vezes. Fernanda Martins foi solteira toda a vida, mas nunca gostou de dias iguais. "Saía de casa às 8 da manhã e, às vezes, só voltava à noite", conta ao telefone do prédio em que é a única moradora. A lista de atividades incluía aulas de natação, ginástica, atividades na junta de freguesia – cerâmica e pintura – e ainda a plataforma A Avó Veio Trabalhar, um projeto de empreendedorismo social e de artes. "Eu não parava em casa, agora…" Admite que lhe custa estar sozinha. E que sempre que os pensamentos mais cinzentos aparecem, tenta sacudi-los a cantar. "Falo muito sozinha, canto, componho letras e faço um fadinho." Outras vezes agarra-se ao telefone e liga às amigas, à família que está longe: tem uma irmã no Algarve, um irmão em Seia e uma sobrinha em Évora.

Desde que foi decretado o estado de emergência, a sua rotina mudou muito. Agora, só desce as escadas para receber a comida da Santa Casa da Misericórdia às segundas e às quintas, por volta das 13h45. E aproveita logo para brincar com os voluntários. Levanta a perna e grita: "Já viram: não tenho ginástica, mas ainda me consigo mexer." E acrescenta: "Estou sempre na paródia."

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