Entrevista

"Estamos a permitir que nos reescrevam o cérebro"

'Estamos a permitir que nos reescrevam o cérebro'
Vanda Marques 17 de abril

Tratar da saúde do cérebro nunca foi tão importante. Os médicos norte-americanos defendem que estamos mais impulsivos e a sofrer de síndrome de desconexão. A culpa? O nosso estilo de vida com açúcar e tecnologia a mais.

Não é um livro de dietas, mas tem receitas saudáveis. Promete um plano de 10 dias para mudarmos de vida, mas não é um simples livro de autoajuda. O neurologista David Perlmutter e o médico internista e seu filho, Austin Perlmutter, basearam-se em estudos científicos para explicar de que forma está a mudar o nosso cérebro. Em Limpeza Cerebral propõem um detox da mente para combater a impulsividade e a depressão. A neuroplasticidade parece ser a palavra-chave. Quer isto dizer que temos de nos esforçar para ensinar ao nosso cérebro o que é melhor.


Como surgiu a ideia de criar uma limpeza cerebral?
David Perlmutter (DP): Olhamos à volta e vemos que um mundo já com muito stress viu a pandemia piorar tudo. As pessoas fecham-se mais, estão menos preocupadas com os outros e só pensam nelas. Acham que ficam satisfeitas com as suas interações sociais através dos aparelhos tecnológicos e não com as pessoas. Depois tens os erros na alimentação: come-se demasiado açúcar. Por ano, os americanos comem cerca de 45 quilos de açúcar. Muito desse açúcar é feito de frutose, que está altamente associada com inflamações, com o risco de diabetes e obesidade e hipotensão. Isto é mau para o cérebro. O que identificamos são os múltiplos fatores que pioram esta situação e como a reverter.

No livro defendem que a inflamação no corpo – gerada por más escolhas alimentares, por exemplo – tem uma influência ainda maior na nossa vida? Podia explicar.
Austin Perlmutter (AP): Quando se fala em inflamação pensa-se nas doenças do coração, nas articulações, mas não pensamos no que faz ao cérebro. Falo de demência, Alzheimer, que são doenças relacionadas com esta inflamação. Além disso, a inflamação muda a forma como o cérebro funciona. E isso acontece logo, não precisas de esperar anos. Há estudos que revelam que, quando tens uma inflamação, através do stress crónico ou de más escolhas alimentares, as pessoas tomam decisões mais impulsivas. Porque é que isto é tão importante?

Porquê?
AP: As dietas alimentares mudaram no mundo todo, de tal forma que promovem mais inflamação. Isto quer dizer que se exporta pior pensamento, piores tomadas de decisão e atitudes mais impulsivas.

Como?
AP: Tira-nos a capacidade de expressar empatia cognitiva. Num sentido muito claro, a inflamação, que vem do nosso estilo de vida moderno, está a conduzir-nos para um caminho mais patológico. Isto porque nos afasta das relações humanas reais, que trocamos pelas redes sociais, porque não fazemos boas escolhas acerca da nossa comida, nem do nosso sono.

Isso torna-nos mais infelizes?
AP: Isso é mesmo verdade. Muitos estudos relacionam a inflamação com depressão. Pode-se ver isso quando se dá uma injeção para provocar uma inflamação no corpo de uma pessoa e quase imediatamente surgem sintomas de depressão.

Porque é que é tão difícil libertarmo-nos do açúcar?
DP: Quem diz que não gosta de doces não diz a verdade. Porquê? Somos programados para procurar açúcar, isso era um mecanismo de sobrevivência. Quando éramos caçadores e recoletores – e o nosso cérebro não mudou muito desde então – encontrar comidas doces permitia que sobrevivêssemos quando havia pouca comida, porque acumulávamos gordura corporal para períodos escassos de comida. Hoje em dia, isso coloca-nos no caixão. Mas antes de lá chegarmos, ao caixão, portanto, afeta a forma como vemos o mundo, como tratamos os outros, os nossos níveis de empatia. Em Portugal, 35% dos adultos ou são diabéticos ou pré-diabéticos. Isso quer dizer que 35% dos adultos têm níveis elevados de químicos relacionados com inflamações e que isso afeta a forma como tomam decisões, como os seus cérebros funcionam, como veem o mundo e interagem com os outros. As boas notícias são que, quando entendes isto, podes mudar.

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