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Quem é o padrasto das crianças abandonadas? Escreveu um livro, foi preso por violência doméstica e é teórico da conspiração

Luana Augusto 23 de maio de 2026 às 08:00

Marc Ballabriga é ex-polícia e sofre de transtornos psiquiátricos. Escreveu um livro dedicado à filha, onde dizia querer ir para onde o "vento me leva". Chegou a denunciar a irmã por alegado abandono dos filhos.

Os franceses Marc Ballabriga e Marine Rousseau ade três e cinco anos numa floresta em Alcácer do Sal com vendas nos olhos e depois fugiram, tendo sido encontrados na quinta-feira num por uma cliente que os denunciou à GNR. A mãe biológica e o padrasto foram na sexta-feira ouvidos em tribunal. Sabe-se que Marine, que já tinha alegadamente abandonado um outro filho de 16 anos, mas que não possuía antecedentes criminais. O mesmo não acontece, no entanto, no caso de Marc, que era já bem conhecido da polícia.

Marc Ballabriga Facebook/Marc Ballabriga

Marc Ballabriga, de 55 anos, é um ex-polícia que se descreve como "antigo escravo do Ministério da Defesa" que em 2010 foi e violência contra a mãe da filha, segundo o jornal francês Le Parisien. A ação, que decorreu no seguimento de uma denúncia por parte da ex-companheira, valeu-lhe uma condenação a nove meses de prisão com dois anos de pena suspensa. Agora poderá enfrentar vários anos de prisão por abandono dos dois filhos da companheira. 

Livro expõe relação com a filha

Na altura em que foi condenado, a ex-companheira deixou França, calcula-se que com os filhos, segundo contou Marc Ballabriga no Renaissance, que escreveu. “Benjamin, Tristan, Emma, há tanto tempo que não vos vejo...”, escreveu. "Já não tenho vontade de criar raízes em lado nenhum, já não quero ser escravo de uma vida que me prende através do dinheiro."

Esta obra é, aliás, dedicada à filha, que deixou de ver quando ela tinha apenas três anos e que agora terá 18.

“Marc, de 43 anos, injustamente privado pela justiça, embarca numa viagem inédita à boleia para deixar França. Uma aventura que o levará às profundezas da vida em sociedade. Esta aventura reserva-lhe encontros incríveis, situações inéditas e um desfecho inesperado. Ele irá descobrir a sua verdadeira identidade, restabelecer o contacto com a sua verdadeira natureza e quebrar as correntes da escravidão da sociedade", lê-se na sinopse do livro.

A situação descrita na obra faz até recordar a situação vivida estes últimos dias - a envolver as duas crianças abandonadas - quando Marc e Marine deixaram França. "Marc, olha-te ao espelho: o que vês? Um homem com duas mochilas, alguns euros no bolso. Não tens nada para a sociedade", lê-se em excertos do livro partilhados na sua conta de Facebook. "Na rua, sem nada além das minhas mochilas, eu oiço-o: ele guia-me, tranquiliza-me e orienta este percurso improvável. Sinto-me em harmonia."

No mesmo livro, Marc dizia: "A partir de hoje vou para onde o vento me leva". Na quinta-feira, quando questionado por uma cliente que encontrou o casal no café em Fátima, deu exatamente a entender o mesmo. A cliente perguntou de onde eram e o casal respondeu: "Somos do mundo", explicou o dono do café, em declarações aos jornalistas.

"Sinto-me livre, tão livre como um pássaro em voo. A partir de agora vou para onde o vento me levar. Penso nos meus três filhos", continuou na obra.

Teórico da conspiração

Marc Ballabriga frequentou a escola Arago Perpignan, assim como a universidade de Perpignan, segundo informações que constam no Facebook, e é descrito pelo Le Parisien como alguém que sofre transtornos psiquiátricos. 

No Facebook partilhou diversas teorias da conspiração: abordou várias vezes a guerra com Israel e fez até menção à maçonaria. Entre as teorias que partilhava na rede social estava, por exemplo, a toma da vacina para a Covid. Segundo ele a Astrazeneca - uma das vacinas administradas no caso da Covid-19 - significa "matar as estrelas" em latim, uma mentira que foi amplamente propagada durante a pandemia. "Já nem se escondem", escreveu numa publicação de 10 de março de 2021.

Foi também nessa rede social que chegou a expor uma suposta perseguição. "Ele continua a ameaçar-me de morte e liga-me o tempo todo". E  expôs até o nome da pessoa em questão, a morada e a matrícula do carro.

Relação com a família

Marc Ballabriga não só expôs estas pessoas como também chegou a revelar "o lado negro" da sua família. "Eu tinha 4 anos quando ele [o pai] me levou num barco para as águas de Argelès sur Mer. Enquanto estava inclinado a olhar para os peixes, ele empurrou-me e pôs-me na água. Eu não sabia nadar. Ele esperou muito tempo e só depois é que me veio buscar", recordou. "Desde que sustive a respiração, que os meus pulmões ainda ardem e hoje sei o porquê."

Expôs também o alegado caso de abandono da irmã. "Uma irmã que salvei quando ela tinha cinco anos... até levei uma sova no lugar dela quando o pai tentou bater-lhe com um cinto ou uma vassoura. Uma mulher que é todo o meu oposto, abandonou os filhos. Ela só escolhe os seus homens com base no conteúdo da carteira", escreveu.

No livro disse ser descrito como o "inimigo da sociedade", "alguém que é rejeitado, desacreditado, banido por ser humano".

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