Sábado – Pense por si

Ricardo Borges de Castro
Ricardo Borges de Castro Analista e Consultor
10 de julho de 2026 às 07:00

Trump, cravo, ferradura e pistolas

Desde que Donald Trump regressou à Casa Branca, as relações transatlânticas sofrem de uma constante arritmia: ora batem forte; ora batem fraco. Esta semana, na Cimeira da NATO em Ancara, não foi diferente com o presidente americano a dar umas no cravo e outras na ferradura dos seus aliados.

Visto de Bruxelas, desde que Donald Trump regressou à Casa Branca, as relações transatlânticas sofrem de uma constante arritmia: ora batem forte; ora batem fraco. Esta semana, na Cimeira da NATO em Ancara, não foi diferente com o presidente americano a dar umas no cravo e outras na ferradura dos seus aliados. No final, a maioria dos líderes presentes respiraram de alívio e a diplomacia turca, uma das mais sofisticadas da Europa, pôde cantar vitória sobre um encontro onde se temeu o pior. No final até houve pistolas e “amor” para dar.

No cravo

Os que temiam que Trump retomasse as suas habituais críticas aos aliados, não ficaram desiludidos. Pouco tempo depois de aterrar na Turquia no seu novo Air Force One, que lhe foi oferecido pelo Catar, o presidente americano, sentado ao lado do seu anfitrião turco, Recep Tayyip Erdogan, começou a disparar críticas, algo que foi fazendo aqui e ali durante a curta Cimeira.

Os temas que tinham gerado ansiedade aguda na Europa nos primeiros meses de 2026 estavam de volta: a necessidade de os EUA controlarem a Groenlândia – um território autónomo de outro membro da NATO; a advertência de que poderia retirar todas as tropas americanas da Europa; a acusação de falta de solidariedade dos europeus na sua guerra com o Irão; as críticas à Espanha e a ameaça de cortar relações comerciais com o nosso vizinho; e a eterna questão do insuficiente investimento em defesa por parte de europeus e canadianos, algo que tanto uns como outros estão a corrigir.

Ora, nada muito surpreendente vindo de quem vem, mas que, num contexto em que se quer afirmar a unidade transatlântica que ainda resta, destoa. A estratégia dos pares de Trump em Ancara foi deixá-lo falar. Até porque, quanto mais fala, parece que o efeito das suas palavras vai perdendo valor. Aparentemente, a ‘lei dos rendimentos decrescentes’ também se aplica à geopolítica.

Contudo, alguns dos líderes não perderam a oportunidade de lhe responder ainda que indiretamente como a primeiro-ministro da Dinamarca, Mette Frederiksen, que lembrou ao magnata do real estate que a Groenlândia não está à venda.

Na ferradura

As marteladas no cravo foram, todavia, suavizadas pelos ajustes na ferradura. A Declaração da Cimeira de Ancara, apesar de curta, cobre pontos essenciais para os aliados nos dois lados do Atlântico.

O documento reafirma primeiro o sacrossanto princípio de defesa coletiva inscrito no artigo 5 do Tratado de Washington – um por todos e todos por um. Depois, a Rússia continua a ser a principal ameaça de longo-prazo para a segurança euro-atlântica. Reconhece também a crescente responsabilidade e peso dos europeus na NATO, concomitante com os gastos em defesa que têm crescido recentemente mesmo que a diferentes velocidades: “Estamos a construir o futuro: uma Europa mais forte numa NATO mais forte – uma Aliança modernizada. Os Aliados europeus e o Canadá,

trabalhando com os Estados Unidos, estão a assumir uma maior responsabilidade pela defesa da Aliança.” Este papel e responsabilidade reforçada dos aliados que não os EUA, é aquilo que agora se convencionou designar por NATO 3.0.

Respondendo a questões relevantes para Washington, mas também para os demais parceiros, as referências a “competição estratégica”, leia-se China, ao programa nuclear iraniano e à necessidade de manter o Estreito de Ormuz aberto à navegação indicam uma convergência estratégica entre aliados mesmo que as diferenças sobre a forma como lidar com estes problemas se mantenham.

O papel mais relevante de europeus e canadianos na NATO fica também claro na Declaração de Ancara no que diz respeito à Ucrânia e ao apoio que agora, maioritariamente, dão ao país. A somar a isto, a afirmação explícita de que a “A Ucrânia contribui para a segurança transatlântica” é um reconhecimento da importância e do contributo que o país, as suas forças armadas e a sua inovadora indústria de defesa dão e podem vir a dar para uma futura arquitetura de segurança transatlântica, reforçando igualmente o papel da Europa em termos de segurança e defesa.

A Ucrânia foi, talvez, a melhor notícia saída de Ancara. Neste caso também por causa de Donald Trump que parece estar a olhar para os desenvolvimentos na guerra de agressão que a Rússia lançou há mais de quatro anos de uma forma mais próxima de Kyiv. Pelo menos, por agora. E, por agora, o presidente americano parece disposto a dar à Ucrânia as licenças para que o país possa produzir sistemas de defesa Patriot, fundamentais para a proteção do território ucraniano. Esta possibilidade já tinha sido aventada na recente Cimeira do G7 na cidade francesa de Évian.

Esta decisão, a confirmar-se, será um ganho estratégico importante para os ucranianos numa altura em que a Rússia está sob pressão tanto na frente de batalha, como na retaguarda com os ataques que a Ucrânia tem feito a instalações energéticas em território russo, levando o país a banir as exportações de diesel e a ter de importar alguns combustíveis. Na reunião descontraída que teve com Trump, o Presidente Zelenskyy até demonstrou que o seu humor continua vivo ao dizer que não poderia ir a Moscovo encontrar-se com Putin porque pairavam por lá muitos drones ucranianos.

A pistola turca

No final da Cimeira, pondo de lado as diatribes, Donald Trump descrevia o encontro na capital turca como um de “amor tremendo,” reconhecendo até o esforço dos aliados em investir mais em defesa.

Já o ‘homem forte’ turco, o Presidente Erdogan, despediu-se dos seus convidados presenteando-os com pistolas personalizadas e munições. Quem sabe, é outra forma de manifestar o tipo de amor transatlântico que transpirou em Ancara.

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