Branqueadores perigosos continuam à venda porque consumidoras são negras

Lusa 01 de maio
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"Se o problema se mantém, é porque não há interesse em defender a saúde das pessoas, essa população, na maioria negra", acusa a ativista Paula Cardoso.

A ativista Paula Cardoso, fundadora do projeto Afrolink, considera que os branqueadores de pele, alguns com substâncias perigosas e proibidas, continuam à venda porque o mercado não tem interesse em saber que danos causam aos consumidores, maioritariamente negros.

Frank S. Bauer/Future Publishing via Getty Images
Em declarações à agência Lusa, a propósito da venda no centro de Lisboa de produtos branqueadores de pele, alguns com riscos para a saúde por conterem compostos proibidos nos cosméticos, como a hidroquinona e o mercúrio, a militante antirracista disse que esta é uma situação que, não sendo nova, é "preocupante".

"Mas eu não considero que o sistema entenda que é preocupante. Se considerasse, já teríamos uma mudança em relação a um problema que não é de agora. Se ele se mantém, é porque não há interesse em defender a saúde das pessoas, essa população, na maioria negra", afirmou.

Paula Cardoso, que recentemente foi inscrita pela Euclid Network, uma rede apoiada pela Comissão Europeia, no "Top 100 Women In Social Enterprise 2022", a lista das 100 melhores empreendedoras sociais, referiu não ter dúvidas de que, se este produto se dirigisse a um consumidor branco, já não estaria no mercado.

E lamentou que não exista uma informação dirigida a estas consumidoras para que possam fazer uma escolha consciente.

Para a fundadora do Afrolink, projeto para a promoção de uma maior representatividade da população negra, que inclui um 'site' e atividades, como um mercado de empreendedores, algumas pessoas entendem que branquear a pele é "a única via de aceitação, de mobilidade social, de poderem ocupar determinadas posições".

"Recolhi testemunhos para o Afrolink de pessoas que trabalharam no atendimento ao público, onde existia a indicação para não escurecer muito a frente. Ou seja, podiam trabalhar, mas não tanto em contacto com o público", disse.

E soube de empresas que recebiam muitas queixas de clientes contra o facto de empregarem muitos trabalhadores negros no atendimento.

"Já é difícil uma pessoa negra, e se for mais escura, mais difícil é", afirmou, interpretando o recurso aos cremes como "uma solução, que não é solução, extrema".

E acrescentou: "As pessoas são muito pressionadas perante um ideal de beleza que é branco. E sabem que disso depende melhores condições de trabalho, melhores propostas salariais".

"Uma coisa são escolhas individuais, ou porque me estou a rejeitar ou simplesmente porque me quero sentir melhor, outra é eu sentir-me pressionada a desfrisar o cabelo, a andar com o cabelo apanhado ou a aclarar a pele", apontou.