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Além dos custos da habitação e condições socioecoómicas, a distância é também um factor que pode ditar exclusão dos mais pobres.
Os alunos do interior do país têm mais dificuldades em frequentar o ensino superior, segundo um estudo, que mostra que quanto mais distantes vivem das instituições mais dificil é o acesso, especialmente para os estudantes mais desfavorecidos.
Reitoria universidade lisboaMariline Alves
Um grupo de investigadores acompanhou durante uma década o percurso académico de mais de 724 mil diplomados do ensino secundário e concluiu que viver numa terra do interior onde não existem universidades ou institutos politécnicos pode ditar os seus destinos, especialmente se tiverem nascido em famílias mais desfavorecidas.
"A distância continua a ser um dos principais entraves à frequência do ensino superior, sobretudo para os estudantes do interior, para quem a mobilidade é praticamente inevitável", lê-se no estudo "Desigualdades Regionais e Mobilidade de Estudantes no Acesso ao Ensino Superior", coordenado por Pedro Luís Silva e divulgado hoje pelo Edulog. À SÁBADO, o coordenador do estudo refere que o relatório "conclui que as condições socioeconómicas revelam ser determinantes na escola, assim como as perspetivas salariais".
"Achamos que para o ensino superior ser verdadeiramente acessível precisamos de políticas que reduzam essas barreiras de forma a que os alunos não dependam da geografia. Propomos medidas como reforçar bolsas específicas e alargar as ofertas nas áreas metropolitanas em Lisboa e Porto", explicita, acrescentando que o apoio financeiro a alunos do interior é urgente para mitigar o fosso.
Já sobre o factor com maior peso na decisão de prosseguir estudos, o custo da habitação, o coordenador diz que foi uma dinâmica não estudada. "Mas a mobilidade pode ser uma forma de reduzir os custos da habitação", acrescenta.
Quando não há oferta perto de casa, as famílias têm de procurar outras soluções. Mas os investigadores perceberam que ao aumentar a distância em que se encontra a instituição de ensino superior, os fluxos de mobilidade diminuem, especialmente quando tal opção implica arrendar um quarto.
"O aumento de 10% na distância (ou de 20 km face à distância média observada) reduz os fluxos de mobilidade em aproximadamente 3,4%", concluíram os investigadores após analisarem o percurso dos alunos entre os anos letivos de 2013/14 e 2022/23.
"A distância continua a ser um obstáculo determinante e, em muitas regiões, estudar fora permanece financeiramente incomportável", corroborou Alberto Amaral, membro do conselho consultivo do Edulog, o laboratório de ideias da Fundação Belmiro de Azevedo.
Os mais afetados são os jovens mais carenciados, que continuam muito menos presentes no ensino superior, "sobretudo nos cursos e instituições de maior prestígio", acrescentam os investigadores que identificaram um padrão associado à situação socioeconómica.
Enquanto os alunos de colégios privados têm muito mais facilidade em continuar a estudar longe de casa, os mais carenciados acabam, muitas vezes, por ter de desistir do sonho de uma formação superior.
Os investigadores perceberam também que a presença de instituições de ensino superior no município cria condições mais favoráveis à progressão, não só pela proximidade física mas também porque aumenta a exposição dos estudantes à informação e às oportunidades do ensino superior, potenciando os fluxos de entrada.
O estudo conclui assim que as condições socioeconómicas e a presença de ensino superior no município de origem são determinantes.
No entanto, os alunos das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto são mais avessos a ir estudar para longe, porque beneficiam de uma ampla rede de instituições, que tornam menos atrativos os destinos mais distantes. Já os estudantes do interior parecem já estar mentalizados para a necessidade de se deslocarem ou mudarem de casa, acabando por percorrer maiores distâncias.
O estudo mostra ainda que dos 278 municípios, existem 19 onde não houve um único diplomado do ensino secundário no período em análise.
Os mapas mostram municípios maioritariamente localizados junto à fronteira com Espanha e os investigadores explicam que são regiões sem escolas secundárias públicas ou privadas, sublinhando que esta situação também acaba por limitar "de forma estrutural as oportunidades de prosseguimento de estudos dos jovens".
A concentração mais baixa de diplomados nas regiões do Alentejo e do Algarve estará possivelmente associada ao envelhecimento da população e à consequente menor procura por cursos de ensino secundário nestas áreas.
Perante este quadro, os investigadores apontam um "duplo desafio": assegurar a equidade territorial, garantindo que a origem geográfica não limita o acesso, e reforçar a eficiência do sistema, minimizando custos e riscos de abandono.
Com Lusa
Viver longe das universidades impede os mais pobres de seguir para o ensino superior
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