Uma noite no restaurante que se recusou a fechar

Sandra Xavier 16 de janeiro
As mais lidas

No Lapo, Bairro Alto, a noite de ontem foi igual às outras, apesar do decreto de confinamento obrigatório para a população. Donos prometem lutar até às últimas consequências para poderem trabalhar e servir refeições.

No restaurante Lapo, a noite de ontem foi igual às outras. Às 19 horas, abriram as portas para servir jantares, mas com um aperitivo diferente. O comunicado "Estranha Forma de Vida" foi colocado na montra justificando a decisão dos proprietários de continuarem a trabalhar, mesmo depois de decretado o novo confinamento. O argumento chama-se artigo 21º da Constituição da República Portuguesa (CRP), que invoca o direito de resistência. "Este é o momento de agir com a coragem de defender publicamente aquilo em que acreditamos, aquilo que todos veem e poucos dizem, por medo das consequências, por medo da autoridade, por medo daquilo que os outros vão pensar. Não basta responsabilizar os outros pela nossa situação e mandar postas de pescada na internet. É necessário sair da zona de conforto e crescer. Ou somos humanos de verdade, seres sensíveis e pensantes, independentes e soberanos, conscientes do nosso poder de ação, ou somos meros humanos de zoo. Está na hora de reclamar os nossos direitos enquanto cidadãos e seres humanos", dizem. E garantem não se importar de ser presos, se for preciso.

Bruna e António Guerreiro, donos do Lapo, no Bairro Alto, em Lisboa, prometem lutar até às últimas consequências para poderem trabalhar e servir refeições, sem ser em regime de take-away ou qualquer limitação arbitrária, sem fundamento médico ou científico, imposto pelo governo, acrescentam. A decisão foi anunciada, ontem, durante a tarde, nas redes sociais e resultou. Assim que o espaço abriu, começaram a chegar clientes à Sala Provador, destinada a jantares intimistas. Não sem antes se deterem à entrada a ler o comunicado.

Em conversa com a Sábado, António Guerreiro garante que esta "não foi uma abertura simbólica e que vão continuar de portas abertas". A razão é simples: "temos estado numa luta pela sobrevivência e o Estado não tem legitimidade para nos vedar o direito à subsistência nem para desprezar a Constituição da República Portuguesa."

D.R.

Este não é caso único na restauração. A questão é que o espaço abriu, pela primeira vez, seis meses antes da pandemia e desde essa altura a esta parte não fez outra coisa senão reinventar-se. "A pandemia arruinou-nos. Perdemos todas as nossas economias e corremos sério risco de falir. Antes da crise, tínhamos duas dezenas de colaboradores e excelentes perspetivas de negócio. Atualmente, temos três e estamos muito apreensivos em relação ao futuro."

Uma preocupação partilhada por João Maria Girão, também ele proprietário de um restaurante em Lisboa, que assim que soube da iniciativa do Lapo, decidiu ir dar o seu apoio. "Eles tiveram a coragem que mais ninguém teve. Só por isso, dou-lhes os meus parabéns."

Dono do restaurante Collect, no Cais do Sodré, João Maria Girão partilha das mesmas dores: "Recebemos muito poucos apoios. Não estamos a conseguir dar a volta. Nada está a compensar. A única coisa que pedimos é para poder estar abertos", afirma. Uma ideia corroborada pelo irmão e sócio, Bernardo Girão, que juntamente com mais duas pessoas, os acompanharam no jantar no Lapo. Os dois gostavam de ter a coragem de Bruna e António Guerreiro, mas não escondem o receio: "O problema é muitas vezes sentirmo-nos sozinhos. Ficamos com medo de tomar certas decisões e de depois, sermos penalizados com a falta de apoios. Temos muita gente a trabalhar connosco e encargos muito grandes", admitem. Mas à parte disso e não negando nunca a existência da pandemia, dizem não entender os critérios do governo. "Não conseguimos compreender porque é que uns estão abertos e outros não, quando, ainda para mais, a restauração cumpre todas as regras de higiene. É um disparate completo o que está a acontecer."

O argumento é, igualmente, usado pelo advogado do Lapo, João Pedro César Machado. "Aquilo que o governo está a fazer é atacar o setor terciário, nomeadamente a restauração e o pequeno comércio. Basta atentarmos na quantidade de exceções da lei que foi, esta semana, publicada sobre o estado de emergência. São medidas que não se consegue entender, tal como não se consegue entender que para a Direção Geral de Saúde não haja surtos de Covid-19 nos transportes públicos, onde há grandes aglomerados de pessoas", refere.

Ontem, no Lapo, não houve multidões, mas cerca de 30 pessoas jantaram, tranquilamente, no restaurante, quebrando o confinamento. E já iam nas sobremesas quando, pelas dez e meia da noite, apareceu a polícia, que tinha recebido indicações para ali registar uma ocorrência. Não houve ânimos exaltados, mas durante cerca de meia hora, alguns clientes esgrimiram argumentos com os agentes da PSP, enquanto outros se mantiveram à margem, continuando a sua refeição como se nada se passasse.

Já passava das onze da noite quando os clientes começaram a abandonar o restaurante. "Está resolvido e bem resolvido", relatou à Sábado, o comissário Horta, do Comando Metropolitano da PSP de Lisboa. "Chegámos e sensibilizámos as pessoas. É essa a nossa primeira função. Conseguimos sensibilizá-las para saírem, porque a lei assim o determina e nós só fazemos cumprir a lei."

Quanto ao que se segue, o comissário adiantou que "em princípio, o proprietário vai ser autuado."  Multas que António Guerreiro promete "impugnar. Estou de consciência tranquila", assegura que não se sente responsável por eventuais contágios. "De todo. A taxa de mortalidade é irrisória. É mais provável morrer atropelado e eu não deixo de atravessar a estrada todos os dias. Este vírus, em teoria altamente contagioso, além de misterioso, é caprichoso. São recorrentes, por exemplo, os casos de infetados que, vá-se lá saber porquê, não contagiam outros membros do agregado familiar, ou seja, as pessoas com que partilham a cama, a casa-de-banho, a mesa da cozinha. Se não há contágio dentro de casa, nem nos aviões, nem nos transportes públicos, nem na Suécia ou Dinamarca, por que motivo haveria em restaurantes? Tendo em conta que os testes PCR têm mais de 97% de probabilidade de resultar falso positivo, que a taxa de mortalidade é inferior à da gripe sazonal e que a maioria dos infetados é assintomática, não restam dúvidas de que o alarmismo em torno da perigosidade do vírus não tem fundamento. Quase toda a gente já percebeu que aquilo que está em causa não é a saúde pública", avança.

Era já meia noite quando o restaurante Lapo fechou as portas, depois de todos os clientes terem terminado de jantar e saído, mas será por pouco tempo. "Vamos continuar a abrir e a resistir. Estou disponível para ser preso. Tenho uma filha de quatro meses e quando olho para ela, sinto a responsabilidade de agir", remata.

Descubra as
Edições do Dia
Publicamos para si, em três periodos distintos do dia, o melhor da atualidade nacional e internacional. Os artigos das Edições do Dia estão ordenados cronologicamente aqui , para que não perca nada do melhor que a SÁBADO prepara para si. Pode também navegar nas edições anteriores, do dia ou da semana
Artigos Relacionados
Opinião Ver mais