Os argumentos falsos para manter um restaurante aberto

Os argumentos falsos para manter um restaurante aberto
Diogo Barreto 16 de janeiro de 2021
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O dono do restaurante Lapo, em Lisboa, recorreu a vários dados falsos para justificar a decisão de manter as portas do seu restaurante abertas durante o confinamento.

Os donos do restaurante Lapo, no Bairro Alto, em Lisboa, recusaram-se a fechar para o confinamento e a servir apenas em modo take away. Invocam o "direito de resistência civil", consagrado na Constituição da República, para não encerrarem, mas dizem muitas mentiras para justificar a escolha de não fechar portas.

D.R.
Na primeira noite de confinamento decretado pelo Governo decidiram, bem como os seus clientes, quebrar o confinamento e servir refeições no espaço fechado. António Guerreiro diz mesmo que não se sentirá responsável por qualquer contágio e invoca afirmações desmentidas por sucessivos estudos, dados falsos e assunções incorretas para justificar a sua decisão de não fechar.

A baixo seguem algumas verificações de frases ditas por António Guerreiro à SÁBADO, esta sexta-feira.

A frase que será analisada é esta:

"A taxa de mortalidade é irrisória. É mais provável morrer atropelado e eu não deixo de atravessar a estrada todos os dias. Este vírus, em teoria altamente contagioso, além de misterioso, é caprichoso. São recorrentes, por exemplo, os casos de infetados que, vá-se lá saber porquê, não contagiam outros membros do agregado familiar, ou seja, as pessoas com que partilham a cama, a casa-de-banho, a mesa da cozinha. Se não há contágio dentro de casa, nem nos aviões, nem nos transportes públicos, nem na Suécia ou Dinamarca, por que motivo haveria em restaurantes? Tendo em conta que os testes PCR têm mais de 97% de probabilidade de resultar falso positivo, que a taxa de mortalidade é inferior à da gripe sazonal e que a maioria dos infetados é assintomática, não restam dúvidas de que o alarmismo em torno da perigosidade do vírus não tem fundamento. Quase toda a gente já percebeu que aquilo que está em causa não é a saúde pública".

"É mais provável morrer atropelado [do que por covid-19] e eu não deixo de atravessar a estrada todos os dias."

Esta é falsa em termos de números, pelo menos. Segundo os dados de 2020, disponibilizados pela Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, em 2019 morreram 626 pessoas nas estradas portuguesas ao longo de doze meses, em Portugal. 

Sem contar com os mais de 6.500 mortos por covid-19 em 2019 (dez vezes mais do que os mortos nas estradas nacionais), só desde 1 de janeiro (14 dias), morreram mais de 1.500 pessoas devido à covid-19, muitas mais do que as 625 que morreram em 365 dias de 2019.

"Se não há contágio dentro de casa, nem nos aviões, nem nos transportes públicos, nem na Suécia ou Dinamarca, por que motivo haveria em restaurantes?"

É verdade que não há contágios dentro de casa? Não. Um estudo do CDC, a autoridade dos EUA para o controlo de doenças, mostra que mais de metade das pessoas que vivem com alguém infetado são contagiadas. Mesmo o Governo português reconheceu que a maioria dos contágios que conseguiu rastrear tiveram origem em casa.

É também falso dizer que não se apanha covid-19 nos transportes públicos ou nos restaurantes. A verdade é que, em Portugal, 87% dos casos confirmados não se sabe a origem da infeção. Isto quer dizer que podem ter sido infetados nos aviões, nos transportes públicos, em casa ou no restaurante. 

A SÁBADO fez os cálculos para perceber como acontece uma infeção em casa, nos restaurantes ou possivelmente nas escolas. Olhando apenas para um restaurante em que existe um infetado numa sala com dez clientes e dois empregados, e em que as portas estão fechadas e não há ventilação, sem máscaras ou qualquer outra medida de proteção, bastariam quatro horas para todas as pessoas dentro do restaurante estarem infetadas dentro do espaço.

"Testes PCR têm mais de 97% de probabilidade de resultar falso positivo"

Este rumor surgiu depois de um vídeo mostrar um médico irlandês a dizer que os testes PCR tinham a probabilidade de resultar num falso positivo de 97%. 

Para começar, é necessário perceber o que é um falso positivo: os falsos positivos acontecem quando um teste PCR - os que usam uma zaragatoa para recolher amostras - indica que alguém está infetado quando na verdade não está. 

O médico afirmava que o teste não era fiável porque captava, hipoteticamente, outros coronavírus contraídos no passado, como a gripe. 

Mas a verdade é que os testes PCR utilizam reagentes que apenas reagem ao SARS-CoV-2 e não aos restantes coronavírus. Para se realizar o teste, é necessário recolher uma amostra, multiplicar o material genético recolhido e observá-lo de forma a perceber se há de facto uma infeção pelo coronavírus mais recente.

Existindo a possibilidade de um falso positivo, este é um dos resultados mais improváveis de acordo com dezenas de estudos como este, este e este

"A taxa de mortalidade é inferior à da gripe sazonal "

É ainda impossível apurar a taxa de mortalidade da covid-19 já que o mundo se encontra a meio do combate contra a pandemia. Mas a afirmação de que é menos letal do que a gripe é falsa. A taxa de mortalidade por covid-19 em Portugal é, atualmente, de 1,4% dos infetados acaba por morrer. 

Tanto o influenza como a covid-19 são doenças respiratórias e têm sintomas semelhantes, apesar de terem causas diferentes. 

Mas olhando para dados concretos é fácil perceber o quão rebuscada é esta declaração. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), morrem entre 290 mil e 650 mil pessoas todos os anos devido à gripe. Entre janeiro de 2020 e este ano já morreram mais de dois milhões de pessoas devido à covid-19.

Os estudos dizem mesmo que a covid-19 tem uma taxa de letalidade três vezes superior à da gripe

"Maioria dos infetados é assintomática"

De novo, a afirmação veiculada pelo dono do restaurante é incorreta. Como estamos ainda a meio da pandemia, os dados não são concretos, mas estudos preliminares apontam para que apenas 20% dos infetados por covid-19 sejam assintomáticos.

Isto quer dizer que os restantes 80% terão sintomas. Maior parte deles terá sintomas ligeiros (dores de corpo, cabeça, tosse, cansaço), mas uma parte necessitará de cuidados hospitalares, seja com internamento em enfermagem ou na unidade de cuidados intensivos. 

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