Estes movimentos, que enchem a boca com “direitos dos trabalhadores” e “luta contra a exploração”, nunca se lembram de mencionar que, nos regimes que idolatram, como Cuba e a Venezuela, fazer greve é tão permitido como fazer uma piada com o ditador de serviço.
Há poucas coisas mais pavlovianas do que sindicatos enfurecidos com alterações à lei laboral. Qual sininho à hora do manjar, a greve geral é o correspondente salivar que aparece agora que o PCP sente que está em fase terminal e os sindicatos afectos precisam de lembrar ao país que ainda existem. É quase comovente, mas não chega a dar pena. Assistimos, assim, a um espetáculo nacional digno de streaming: “A Casa dos Piquetes: (A Última) Prova de Vida”.
A CGTP, com a sua aliança histórica com o PCP — cujo definhamento é tão óbvio como a queda do Muro de Berlim — teima em falar como se ainda houvesse no país um eleitorado soviético vibrante. Ambos tentam mostrar que ainda jogam no campeonato; e jogam… para não descer de divisão, ou seja, para se safarem da extinção. A UGT, por outro lado, com eleições internas no horizonte, não podia limitar-se a esperar que a direção fosse eleita por aclamação em assembleias entediadas.
O argumento é sempre o mesmo: “ataque aos direitos dos trabalhadores”. Noutras ocasiões, quando os sindicatos querem que empresas privadas caiam-lhes aos pés ou que um contrato de trabalho dure até ao apocalipse, ninguém parece achar que haja aí algum exagero: tudo se reduz a panfletagem retórica. Hoje, a greve é o palco ideal para os comunistas poderem levar bandeirinhas, empunhar megafones e provar que ainda sabem organizar gente para uma fotografia (o que não é pouca coisa, dado o avanço da idade da grande maioria deles).
E então temos os piquetes. Ah, os piquetes: essa instituição tão ancestral quanto infame, que converte convicção política em obrigatoriedade moral. Nada diz “liberdade” como uma fila de autoproclamados guardiões da greve a informar-te — com um sorriso de quem acredita estar a cumprir um dever superior — que tu não vais trabalhar hoje. (Sim, mesmo que queiras trabalhar, discordes deles, precises de receber esse dia para pagar contas e acredites na liberdade de decidir o que fazer com o teu tempo.) Nada como uma barricada sindical para recordar que decidir por ti mesmo é, afinal, um luxo dispensável.
É sempre delicioso testemunhar esta versão tropical do sindicalismo musculado: os mesmos que passam anos a falar da opressão capitalista (que não se vislumbra em parte alguma) não têm o menor pejo em fechar uma estrada, bloquear uma porta ou, em casos mais animados, tentar impedir fisicamente alguém de trabalhar. Tudo pela liberdade, claro.
Mas a melhor parte é a descarada hipocrisia ideológica. Estes movimentos, que enchem a boca com “direitos dos trabalhadores” e “luta contra a exploração”, nunca se lembram de mencionar que, nos regimes que idolatram, como Cuba e a Venezuela, fazer greve é tão permitido como fazer uma piada com o ditador de serviço. Em Havana, se um trabalhador anunciar que vai fazer greve, a única coisa que acontece é desaparecer do organograma laboral — e, possivelmente, da ilha. Na Venezuela, tentar organizar uma greve é pedir para ser acusado de sabotagem ao Estado, subversão económica e, provavelmente, de ser um infiltrado da CIA.
Mas há que reconhecer um mérito: ainda conseguem proporcionar entretenimento. Os piquetes dramatizados, os discursos épicos sobre “a força da classe trabalhadora” lidos por dirigentes sindicais que não sabem o que é um relógio de ponto há décadas, e a (a)moral revolucionária que floresce apenas quando o partido assim ordena: tudo isto compõe uma ópera-bufa de inestimável comicidade.
A greve geral é, afinal, o maior paradoxo: os aderentes são, acima de tudo, funcionários públicos, mas o Governo quer alterar o Código do Trabalho que afeta… o setor privado. O Executivo mantém, ignobilmente, este regime de “um país, dois sistemas” para não acicatar o protesto dos funcionários públicos e acaba com uma greve composta, sobretudo, por funcionários públicos. A cobardia não compensa e o Governo tem a fama, sem ter o proveito.
Há países onde a justiça é cega. Em Portugal, no caso de José Sócrates, é sobretudo paciente. Paciente ao ponto de já roçar o estoicismo. Ou a resignação. Na verdade, é mais o mosoquismo.
Neste universo mental, a política internacional não é um confronto entre regimes com valores incompatíveis. É uma sequência de pareceres jurídicos, notas de rodapé e interpretações doutrinárias que fazem jurisprudência gerando precedente em que a moral é relativa.
O caso de Bruno Mascarenhas na Câmara Municipal de Lisboa tornou-se um manual prático de hipocrisia secular. O partido que denunciava nomeações por afinidade política e familiar descobriu que a afinidade, afinal, é uma competência altamente valorizada.
A emergência exige preparação, continuidade e competência. Três coisas que não sobrevivem bem a um sistema onde cada Governo sente necessidade de “limpar” a casa, mesmo que isso implique mandar fora quem sabe onde estão os extintores (ou as bombas de água).
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