"Onde é que vacilei?" Enfermeira conta como ficou infetada com coronavírus

'Onde é que vacilei?' Enfermeira conta como ficou infetada com coronavírus
Marco Alves 14 de abril de 2020

"Quando começámos a tombar, quando fomos os primeiros a tombar, foi triste, ficámos desolados. Porque estamos lá para cuidar dos outros, não é para ficar doentes", descreve à SÁBADO a enfermeira Gina Moreira.

(Gina Moreira tem 45 anos e é enfermeira Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos. Está isolada num quarto em casa (foto em cima à direita) depois de ter sido contagiada pelo novo coronavírus. Ao telefone, contou à SÁBADO o que passou, como é o dia a dia numa ala reservada a doentes Covid-19, como estão os seus colegas e o que mais lhe custa aceitar.). A SÁBADO recolheu ainda o testemunho da enfermeira Lucília Ribeiro, que se encontra em isolamento no quarto da sua casa.


Acho que nós é que nos sentimos mais culpados por ficarmos doentes. Onde é que fui apanhar isto? Onde é que vacilei? Onde é que baixei a guarda? As pessoas dizem que somos heróis… Claro que não somos heróis, mas era assim que nos queríamos sentir, uns heróis, uma espécie de deuses, de imortais, em que nada nos atinge, gostávamos de pensar que somos imunes a tudo. Não é suposto ficarmos doentes – as outras pessoas, sim. Nós temos de estar bem para cuidar deles. Quando começámos a tombar, quando fomos os primeiros a tombar, foi triste, ficámos desolados. Porque nós estamos lá para cuidar dos outros, não é para ficar doentes.

Nós somos pagos para isso, também não vou estar aqui a dizer que somos os bonzinhos da fita, mas preocupamo-nos tanto com os outros, estamos lá para os outros, que nos esquecemos um bocado de nós. São muitas horas de trabalho, é muito cansaço, alimentamo-nos mal, as poucas horas que temos para dormir não o fazemos em condições - comentamos entre nós "já estou a ter pesadelos com isto". É sempre aquela preocupação de que tudo fique bem para cuidarmos dos doentes o melhor possível, que esteja tudo desinfetado, que os quartos estejam limpos, arrumados, tudo.

Eu trabalhava na Ala N. É uma ala que foi criada desde o início só para receber doentes que eram Covid positivo. Fui para lá no dia 8 de março, mas a ala tinha sido criada no dia 6. Eu estava no serviço de Medicina, mas quando abriram a Ala N criaram uma equipa restrita e muito específica, não sei precisar quantos enfermeiros, mas eram poucos. Quando começaram a ver que isto ia ter umas proporções enormes, andaram a perguntar pelos serviços se havia alguém que não se importava de ir para lá fazer turnos. Eu fui logo uma das que se ofereceram, sem qualquer problema. Voluntariei-me.

Porquê? Tem a ver comigo, com o meu espírito, com a minha forma de estar. Gosto de estar mesmo na linha da frente. Quis logo estar lá, quis saber. É por aí. É querer estar na situação, não gosto de estar de fora, gosto de estar dentro, de poder dar o contributo. Estando lá dentro sabemos melhor o que se passa e também podemos agir de outra forma, protegermo-nos mais – de fora, especulamos demais e fazemos perguntas desnecessárias. Tendo conta da realidade, temos outra postura.

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