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Luís Neves, quem é o homem que assumiu o cargo que "tritura ministros"

Desmantelou a ETA em Portugal, coordenou uma das maiores operações de sempre da PJ e foi defendido pela esquerda em matérias de migração.

Em janeiro de 2025,  numa audição na Assembleia da República, Luís Neves negou existir uma relação entre crime e imigração, afirmando que a criminalidade violenta é mais baixa entre imigrantes do que entre nacionais e atacou as notícias falsas que faziam uma ligação entre ambos, dizendo que tentam apenas criar pânico em Portugal, dando a "ilusão" de uma criminalidade violenta mais alta do que a que existe verdadeiramente. Estas declarações foram feitas durante um debate a nível nacional sobre a entrada de estrangeiros no País. Na altura a esquerda aplaudiu as declarações do diretor da Polícia Judiciária (PJ) que agora foi nomeado por Luís Montenegro para a pasta de ministro da Administração Interna, um cargo que é tido como "um verdadeiro triturador de ministros".

Luís Neves assume cargo influente após carreira na Polícia Judiciária
Luís Neves assume cargo influente após carreira na Polícia Judiciária Pedro Catarino/MediaLivre

Luís Neves chega ao  aos 60 anos, depois de oito anos à frente da Polícia Judiciária e ao fim de três décadas ao serviço desta polícia de investigação criminal. É uma figura respeitada entre as polícias e até pelos partidos da oposição. Chega numa altura em que as pastas mais quentes são a preparação do combate aos fogos, mas também a reforma da Proteção Civil, que o Governo tinha prometido para o final de 2025 mas que o primeiro-ministro anunciou agora para depois dos fogos, e as mudanças no SIRESP. A anterior ministra deixou também um processo de negociação em curso com os sindicatos da PSP e associações da GNR, mas que estava a decorrer sobre protestos, tendo mesmo o maior sindicato da polícia abandonado negociações em dezembro.

Luís Neves , vindo do cargo de dirigente da Unidade Nacional de Contra-Terrorismo da Polícia Judiciária. Foi durante o primeiro Governo de António Costa que o inspetor subiu ao cargo mais elevado da hierarquia da PJ, estando atualmente a cumprir a sua terceira comissão de serviço. Em 2018 foi chamado para substituir José Maria de Almeida Rodrigues que foi diretor nacional da PJ por dez anos.

Licenciado em Direito, Luís Neves é também formado em liderança, ética e processos de tomada de decisão na academia do FBI em Quantico, nos Estados Unidos. Entrou na PJ em 1995 e trabalhou com dirigentes históricos desta polícia como Orlando Romano e Teófilo Santiago, ambos na então Direcção Central de Combate ao Banditismo (DCCB). Nos mais de trinta anos de serviço esteve ligado à investigação criminal, na esfera do crime violento e organizado, terrorismo e todas as formas de extremismo violento, rapto, sequestro, tomada de reféns, assalto à mão armada, tráfico de armas, tráfico de seres humanos, crimes cometidos com recurso a engenhos explosivos e crimes contra órgãos de soberania. Chegou a diretor da Unidade Nacional Contra-Terrorismo (UNCT) e da extinta DCCB.

Neves esteve envolvido no caso de , de detenção de "skinheads" e do líder de extrema-direita Mário Machado, da detenção em Itália do espião do SIS Frederico Carvalhão Gil e do caso do rei Ghob, suspeito do homicídio de vários jovens. Foi ainda durante a sua liderança da UNCT que se deu o furto de material de guerra em Tancos, cabendo-lhe a investigação do caso. Esteve também associado ao desmantelamento de redes das máfias de Leste e de grupos criminosos que assaltavam caixas de multibanco com recurso a material explosivo.

Já como diretor da PJ, foi o responsável por uma das maiores operações de sempre desta polícia de investigação, quando ordenou que fossem enviados mais de uma centena de inspetores para o arquipélago da Madeira para um processo relâmpago que investigava suspeitas de corrupção, prevaricação, abuso de poder e tráfico de influência no seio do Governo Regional. Foram feitas várias detenções, incluindo o presidente da Câmara do Funchal, Pedro Calado, e constituindo arguido o presidente do executivo local, Miguel Albuquerque.

É também responsável pela detenção do antigo banqueiro João Rendeiro, na África do Sul, depois de meses de investigação ao seu paradeiro, tendo o banqueiro estado mais de um ano fugido às autoridades portuguesas, após condenação a pena de prisão efetiva de três anos e meio por burla qualificada.

A direção de Luís Neves ficou ainda marcada pela modernização da PJ e reforço de quadros, incluindo especialistas e técnicos periciais, pela absorção de parte dos quadros provenientes do extinto Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) e por um elevado aumento salarial dos inspetores, via subsídio de risco, que acabaria por motivar a contestação dos polícias da PSP e GNR que exigiram ao Governo negociações para um tratamento igualitário. Este aspeto motivou crítcias à nomeação de Neves para o cargo de MAI, esperando estas forças que Neves dê mais atenção às "necessidades" destas forças. 

Durante a sua carreira, Luís Neves foi agraciado com a Cruz de Mérito Policial atribuída pelo Ministro do Interior de Espanha em 2004 e com a Cruz da Ordem de Mérito do Corpo da Guarda Civil espanhola, atribuída em 2007, recebendo ainda uma condecoração pelo Vaticano.

PSP e GNR apreensivos

O Sindicato Nacional de Oficiais de Polícia e defendeu que o cargo devia ser ocupado por alguém com mais força política e visão abrangente. "A nomeação é completamente atípica, não me recordo de ver um diretor de uma polícia ser nomeado para forças governativas", disse à Lusa o presidente do SNOP, Bruno Pereira.

O presidente do SNOP reconheceu que Neves tem "uma experiência muito grande no sistema de segurança interna", mas recorda ainda que o MAI é um ministério particularmente exigente e que é conhecido até como um "verdadeiro triturador de ministros".

A Associação dos Profissionais da Guarda (APG)  e apelou para uma mudança de paradigma. O presidente da APG/GNR, César Nogueira, começou por dizer que ficaram "surpresos pela nomeação" do diretor da Polícia Judiciária para o cargo, em que poderá enfrentar desafios.

"Conhecemos bem o Dr. Luís Neves pelas suas funções na Polícia Judiciária, mas [a sua nomeação] poderá trazer alguma animosidade no seio das duas maiores forças de segurança" devido à questão do subsídio de risco, que é superior para os inspetores da PJ, o que motivou protestos da PSP e GNR, que exigiram ao Governo negociações para um tratamento igualitário.

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