Dinheiro para Sócrates? "Só pode ter sido o Hélder Bataglia" (vídeo)

Dinheiro para Sócrates? 'Só pode ter sido o Hélder Bataglia' (vídeo)
António José Vilela 17 de abril de 2018

Interrogado como arguido no Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), Ricardo Salgado disse estar "profundamente chocado" com as suspeitas do MP. "Nunca vi tanta mentira junta", declarou


De fato escuro, pulôver amarelo e gravata castanha, Ricardo Salgado parecia desconfortável na cadeira simples, quase rudimentar, que lhe destinaram na sala 2 do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP). A seu lado, para o assessorarem, estavam os advogados Francisco Proença de Carvalho e Adriano Squilacce. E à sua frente, para o interrogarem, encontrava-se a dupla mais falada da justiça portuguesa: o procurador Rosário Teixeira e o inspector tributário Paulo Silva, que desde Setembro de 2013 investigam, no âmbito da Operação Marquês, suspeitas de corrupção ao ex­-primeiro­-ministro José Sócrates.

Depois de milhares de horas de escutas telefónicas, de dezenas de vigilâncias, cartas rogatórias, buscas e intermináveis interrogatórios, o caso encaminha-se para o fim. E, acreditam os investigadores, tudo é agora mais claro do que no início, porque o corruptor já tem um nome – e encontra-se mesmo ali sentado a cerca de um metro de distância. Chegara a hora de lhe dizerem porque o chamaram.
Rosário Teixeira passou 31 longos minutos a ler a indiciação contra Salgado. Há fundamentalmente duas grandes frentes de batalha: a OPA falhada da Sonae à Portugal Telecom (PT), em que o Ministério Público suspeita que Sócrates terá sido pago pelo BES para bloquear as intenções de Belmiro de Azevedo, favorecendo as pretensões de Ricardo Salgado. E há a venda da operadora de telecomunicações Vivo à Telefónica e a posterior entrada da PT no capital da operadora brasileira Oi, em que, uma vez mais, os investigadores estão convencidos de que Sócrates foi subornado por Salgado.
Para justificar os indícios em causa, Rosário Teixeira argumentou com depoimentos, buscas e informações de cartas rogatórias que comprovarão, por exemplo, que terão sido utilizados por Ricardo Salgado esquemas financeiros – em que o empresário luso-angolano Hélder Bataglia terá desempenhado um papel nuclear – para fazer chegar discretamente a totalidade de 22 milhões de euros a José Sócrates.

Em conclusão, Ricardo Salgado é suspeito de vários crimes: abuso de confiança, corrupção activa, branqueamento de capitais e fraude fiscal qualificada. Mas, sublinhou Rosário Teixeira, o caso não está fechado: "Obviamente que estes factos não são uma posição definitiva no processo. São, digamos assim, um tema de conversa ou a diligência deste interrogatório (…) Seria útil a colaboração do senhor doutor no sentido de esclarecer a razão de ser dos respectivos factos."
Ricardo Salgado ficou em choque. Tirou vários apontamentos numa folha de papel enquanto Rosário lia a indiciação. Com os cotovelos assentes na mesa e as mãos entrelaçadas junto à boca, não escondeu o seu desalento. "Senhor procurador, devo dizer que estou profundamente chocado, profundissimamente chocado com tudo isto. Nunca vi tanta mentira junta. Peço desculpa por o estar a afirmar, mas julgo que o senhor procurador já me conhece há algum tempo e sabe que nunca deixei de responder às questões, mesmo quando estava com a faculdade de o poder fazer. Eu vou argumentar na medida do meu conhecimento, uma vez que se trata de operações que já vêm de longa data. Acredito que estou em condições de reverter a totalidade das acusações que estão aqui implícitas."
Depois de um pequeno intervalo em que os advogados aproveitaram para conferenciar com Ricardo Salgado, os trabalhos foram retomados. Os temas abordados foram muitos, quase todos na perspectiva das relações alegadamente suspeitas que Ricardo Salgado foi estabelecendo com algumas das figuras mais poderosas da política e da economia portuguesa, nomeadamente desde a OPA falhada de Belmiro de Azevedo à PT, consumada em 2007.

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