Sábado – Pense por si

Debate Presidenciais: como se saiu cada candidato (de A a M)

António José Seguro recebeu um presente de Jorge Pinto, que na prática deixou de ser candidato. Cotrim foi funambulista na direita. Gouveia e Melo agarrou na ameaça Trump para fazer valer as suas credenciais - e não largou Marques Mendes, que teve mais uma noite difícil. Os mais pequenos propuseram nacionalizar os lucros da banca e construir 100 mil casas por ano. E houve Manuel João Vieira.

Era uma da manhã de um dia de semana quando o debate televisivo entre os 11 candidatos presidenciais terminou - uma originalidade portuguesa? Sim. Para trás tinham ficado três horas certas de argumentação e contenda, com dois pequenos intervalos pelo meio. A noite produziu um facto político relevante numa corrida tão apertada como esta: a desistência não assumida, mas consumada na prática, do candidato Jorge Pinto a favor de António José Seguro. De resto, o debate na RTP, o único entre todos os candidatos - 10 homens e uma mulher - foi genericamente civilizado. A conversa andou pelos temas da geopolítica (dois candidatos admitiram que os Açores estão em risco com esta "nova" América), da imigração (só Catarina Martins não falou em controlo), do crescimento económico (com metas de 3% e de 3,5% para a variação do PIB) e de políticas sociais (Saúde e Habitação). É difícil escolher alguém que se tenha destacado - Manuel João Vieira, sendo  diferente pelo humor, não marcou o debate -, numa noite que não correu de forma igual para os cinco principais candidatos.       

Debate com candidatos à Presidência da República em estúdio televisivo
Debate com candidatos à Presidência da República em estúdio televisivo ANTÓNIO COTRIM/LUSA

André Pestana: o agitador das massas a partir de Belém

Já passava da meia-noite quando André Pestana, o único candidato que é líder sindical (do STOP), disse que os outros candidatos só tinham “demagogia”. Ele era “o único”que dizia onde ia buscar o dinheiro para medidas como uma reforma mínima imediata de mil euros e a redução da idade de reforma: os “lucros recorde” da banca. “Deveriam estar socializados”, atirou. Dado que em junho passado o Tribunal Constitucional chumbou o imposto adicional sobre a banca é incerto como passaria a apropriação pública dos lucros da banca – sendo, também, incerto como ela cairia nas funções do Presidente da República. Pestana também pensa que não seria o Presidente a fazer essa conquista, mas a “mobilização popular” nas ruas de que ele, como Presidente, seria promotor a partir de Belém. Mostrando-se contra o reforço do orçamento em Defesa, Pestana conseguiu comprar uma mini guerra com André Ventura a propósito de uma tema do qual ninguém, no final do debate, se lembraria (as subvenções aos partidos).    

André Ventura: contra os yankees, marchar, marchar!

O líder do Chega manteve a linha de que “o direito internacional serve para proteger os povos” e não “os ditadores”, tentando explorar o ângulo da “ditadura da esquerda” junto da sua base eleitoral (ouviu de Catarina Martins e de António Filipe que nenhum apoiante do regime de Salazar, nem nenhum oposicionista, defenderia uma intervenção externa para remover o ditador português). E se os Estados Unidos, liderados por um Presidente que o Chega apoia, quiserem a Gronelândia ou mesmo os Açores? “A Europa tem de fazer o que sempre fez que é defender a nossa honra e lutar”. E isso significa o quê? “Portugal tem nove séculos” e significa “manifestarmo-nos fortemente” e seguir o que “sempre fizemos”, ou seja, defender e lutar. O moderador não aprofundou esta parte, mas ficou a impressão de que Ventura defendeu, em caso de necessidade, a resistência militar. Especular sobre impressões é um exercício arriscado, mas fica também a impressão de que Ventura está cansado – criticou Seguro por ser o “candidato dos pactos”, Mendes por ser a “marioneta do Governo” e espreguiçou-se na toalha da imigração que lhe foi estendida. Foi o único que no debate de ontem falou, embora telegraficamente, na esclerose da Justiça. Acabou a ouvir Cotrim de Figueiredo dizer-lhe – e ao eleitorado da direita – que nunca ganhará numa segunda volta. Ventura joga para outro campeonato e isso é uma limitação, de impacto por conhecer, na primeira volta.

António Filipe: a dificuldade de dizer que a Venezuela tem uma ditadura

O candidato do espaço político do PCP – que disse “não sou um candidato partidário” – não respondeu de forma direta ao moderador Carlos Daniel sobre se concordava que a Venezuela vivia uma ditadura. No bloco dedicado à política externa, marcado pela postura agressiva da administração Trump, António Filipe vincou – tal como quase todos os candidatos – que o “direito internacional é decisivo”, criticando a intervenção dos EUA na Venezuela, assim como as ameaças sobre outros países soberanos. “Este tipo de intervenção, seja onde for que ocorra, deve ser condenada”, afirmou, sem que o moderador lhe perguntasse pela guerra russa na Ucrânia (o PCP condenou a invasão, mas reservou as palavras mais duras para a resistência militar ucraniana). Defendeu a habitual linha de melhores salários, melhores serviços públicos e não ao pacote laboral, apontando que se foi longe de mais na imigração.

António José Seguro: o homem que recebeu um presente

Teve um presente esperado no debate, quando Jorge Pinto, o candidato do Livre, disse “no que depender de mim, António José Seguro será Presidente da República” – resta saber o que ainda valerá Pinto nas urnas, embora numa corrida apertada todos os votos contem. A posição boa de Seguro, sinalizada pelas sondagens, foi visível no facto de ter sido o alvo de vários ataques da direita à esquerda, passando pelo centrão de Gouveia e Melo. Respondeu a alguns – “diga-me há quantos anos não estou na política”, atirou a Cotrim de Figueiredo quando este o pôs no cesto dos “políticos do costume” – mas deixou passar outros, tentando mostrar uma postura de estadista. No bloco sobre imigração evitou expandir a resposta à pergunta direta – disse apenas que era preciso “controlar a imigração e integrar melhor” – e desviou para o tema fácil da baixa natalidade, que será a sua “causa” no segundo ano do mandato. No primeiro ano, será a Saúde a “causa”, na qual defende um pacto de regime – falou muito do tema, assim como da habitação. Respondeu com à vontade sobre a sua independência face a “interesses” e sobre política internacional, na qual se mostrou crítico de Trump e defensor de maior proatividade europeia na NATO (no sentido de pedir uma reunião). Foi dos poucos que falou diretamente às mulheres, referindo o papel do Presidente para influenciar as políticas de igualdade entre homens e mulheres. Saiu incólume da refrega.

Catarina Martins: a candidata do creme hidratante

A ex-líder do Bloco de Esquerda, e atual deputada no Parlamento Europeu, tem tentado fazer uma campanha pela positiva – terminou o debate, na fase em que os candidatos puderam escolher a mensagem, a falar da necessidade de “cuidar”, repetindo várias vezes a palavra, que aplicou no sentido de sarar fraturas na sociedade e orientar a política para o bem-estar das pessoas (à volta dos temas sociais e laborais que são a bandeira do Bloco). Martins concorda que a Europa tem de reforçar os gastos em Defesa, mas discorda que tenha de o fazer comprando aos Estados Unidos – fala em “articulação” entre europeus. Entre os 11 foi a única que não referiu a questão do controlo da imigração – o BE foi o maior promotor da abertura de fronteiras – e que pôs a tónica na integração (nas aulas de português para imigrantes, por exemplo). Fez a crítica habitual a Seguro (“deixou passar os cortes da troika”), que visou nas suas farpas tanto ou mais do que fez com os candidatos da direita. Nota: era a única mulher nas 12 pessoas ali presentes (incluindo o moderador Carlos Daniel).

Henrique Gouveia e Melo: chamem a segurança (também para Mendes)

A intervenção dos Estados Unidos na Venezuela e a ameaça sobre a Gronelândia abriram o debate e marcaram boa parte das intervenções de Gouveia e Melo – o almirante, que tem hipótese de passar à segunda volta, na reserva parece pensar que a instabilidade geopolítica é um terreno que lhe é favorável. “O sistema internacional está muito quente e perigoso neste momento, o próximo Presidente da República tem de ser uma pessoa com determinado tipo de características e de conhecimento”, afirmou, dizendo a seguir que está “bem preparado” neste plano. A sua intervenção, crítica da intervenção dos EUA e defensora do primado “do direito internacional”, não ofereceu detalhe sobre o que faria ao certo nesta área como Presidente. Outra vertente em que Gouveia e Melo parece pensar que recolhe votos é a pancada argumentativa que distribui a Marques Mendes sobre os interesses que este último defendeu na advocacia de negócios – Melo “facilitador de negócios” a Mendes e não recuou quando este manifestou a sua indignação. O almirante também disparou contra Seguro, outro seu adversário direto, acusando-o de ter “costistas” na sua comissão de honra (depois de Seguro ter dito que o PS de Costa era “o partido dos interesses”, disse Gouveia e Melo) e de ter estado na política durante o acumular de problemas na Saúde. “Não tem independência e tem uma visão cínica da realidade”, atirou. Continua a corrigir o tiro na questão da estabilidade – o candidato disse em 2025 que demitiria um Governo que falhasse o cumprimento básico de promessas eleitorais, mas está a recuar aí – e a falar, sem detalhe, na “mudança” que quer promover.

Humberto Correia: apocalipse e casas a 90 euros por mês

Humberto Correia, 65 anos, apresentou-se no debate como na campanha, ou seja, como o único candidato que viveu o que é ser pobre, emigrante e trabalhador da construção civil – levou quase quatro anos e meio a recolher as assinaturas para se poder candidatar e, segundo o Público, percorreu o país durante um mês vestido de D. Afonso Henriques. Correia terá sido dos que menos falou no debate, e logo na primeira intervenção, sobre geopolítica, deu o mote: “eu penso sempre no pior que pode acontecer”. Venezuela? “Tem seis milhões de pessoas armadas e pode acontecer uma guerra civil e um banho de sangue”, afirmou, instando o Governo a ter “muita atenção” aos emigrantes portugueses. Alterações climáticas? Nenhum outro problema se salva sem este, disse, defendendo a plantação de 500 mil hectares de “florestas nativas”, segundo a sua “visão”, no interior de Portugal. Na área social destacou a habitação como o principal problema. “Se eu for eleito vão ter de me [sic] construir 100 mil habitações sociais por ano”, exige ao Governo – as de 30 m2 serão arrendadas a 90 euros por mês, as de 50 m2 por 150 euros e jovens, mães solteiras e mulheres vítimas de violência doméstica serão privilegiadas. Sobre imigração reclamou a sua experiência em França para dizer que os imigrantes “fazem a economia”, mas que é preciso controlo. Foi, juntamente com Manuel João Vieira, o único candidato que não criticou alguém na sala.

João Cotrim de Figueiredo: equilibrismo para a OPA à direita

O candidato do espaço liberal tem crescido nas sondagens e no debate foi notória a tentativa de alargamento da sua mensagem a todo o (agora enorme) mercado eleitoral da direita, sem alienar a sua base na IL – Cotrim está em plena OPA (Oferta Pública de Aquisição) ao mercado de Marques Mendes e de André Ventura, o que lhe exige algum equilibrismo. No bloco sobre geopolítica disse ser “possível aplaudir o derrube de um ditador sanguinário” e ver como “os Estados Unidos não tentaram coordenar” ações para dar o poder de escolha ao povo venezuelano – para Cotrim a intervenção norte-americana é um “precedente muito grave” que abre a porta às ameaças na Gronelândia e “até nos Açores” (onde os EUA têm uma base militar, na Terceira). Mostrou-se um “admirador das características reformistas de Sá Carneiro” e da “coragem” de Passos Coelho, tirando essa carta a Marques Mendes – e criticou duramente Marcelo Rebelo de Sousa por este nada ter feito perante a ausência de controlo do fluxo de imigrantes. Sublinhou veemente, sem dizer como, a necessidade de pôr a economia “a crescer 3%” para pagar melhores pensões e salários. Em suma, percorreu todas as capelinhas argumentativas da direita. A sua confiança é notória.

Jorge Pinto: o candidato que deixou de o ser

No debate das rádios, há uma semana, Jorge Pinto já dera um sinal de que poderia desistir a favor de António José Seguro, ao não responder de forma direta à pergunta sobre o tema. Neste debate, o candidato oriundo do Livre acabou, na prática, com a sua corrida presidencial – mesmo que no final tenha tentado recuar. À pergunta “vai desistir”, começou por responder que já propôs antes um “pacto republicano” aos outros dois candidatos da esquerda – Catarina Martins e António Filipe – e que estes não responderam. “Não será por mim que António José Seguro não será Presidente da República”, afirmou, sem falar em desistência. “Não falharei aos portugueses, no que de mim depender a esquerda passa à segunda volta”, acrescentou. André Ventura saltou logo sobre a oportunidade, dizendo que para isso Pinto “nem deveria estar ali” e que era uma “fraude”. Jorge Pinto esgrimiu argumentos nas áreas que foram a debate, mas terá dificuldades naturais a partir daqui em ser ouvido. No fim do debate ainda disse “o voto útil no dia 18 será na minha candidatura”, mas era uma da manhã – e, nessa altura, já as edições online dos jornais tinham noticiado a sua “quase desistência”. Game over.

Luís Marques Mendes continua a ter de dizer que é honesto

O sinal dado pelas sondagens sugere que o candidato apoiado pelo PSD e pelo Governo está a perder gás, embora mantenha uma via aberta para a segunda volta. Este debate dificilmente seria uma oportunidade para recuperar, mas Marques Mendes não teve uma noite fácil. Por um lado teve Cotrim de Figueiredo, André Ventura e Gouveia e Melo a dirigirem-lhe críticas, um sinal do quão disputado está o espaço político da direita e do centro, no qual Seguro também se movimenta. O ataque de Gouveia e Melo, que mantém o tom aberto de crítica sobre a dos que Marques Mendes defendeu na advocacia de negócios, foram as que mais mossa fizeram. O candidato do PSD continua a ter de dizer, em direto, que não é um “facilitador de negócios” e que nunca teve problemas com a justiça ou com a Ordem dos Advogados – ou seja, que é honesto. Fê-lo de forma indignada, chegando a considerar “ordinárias” as “insinuações” de Gouveia e Melo, o que fez o Almirante engrossar a voz a dizer que essa “não era uma palavra muito bem escolhida”. A relação entre os dois parece a mais tensa entre todos os candidatos. No momento final, com uma pergunta provocatória a cada candidato, teve dificuldade em responder sobre se se arrependia de algum comentário seu na TV, uma farpa encapotada às garantias que deu em junho de 2014 sobre a saúde do BES. No resto, manteve uma mensagem de quem parece apostar sobretudo na retenção da base eleitoral do PSD, defendendo a atuação do Governo na crise na Venezuela e assumindo o seu contributo para a estabilidade política como um atributo chave.

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Manuel João Vieira: sátira para cumprir o "direito à felicidade"

“Por muito sanguinários e cocainómanos que fôssemos não gostávamos de ser extraídos”, afirmou o candidato Manuel João Vieira a propósito da captura do ditador venezuelano Nicolas Maduro. Terá sido a sua melhor frase. Todas as intervenções do músico, artista plástico e satirista político foram momentos de gozo desbragado – o facto de o moderador Carlos Daniel continuar a fazer-lhe perguntas com toda a seriedade gerou, a espaços, momentos de absurdo. Vieira recuperou medidas conhecidas – a proibição da doença, uma mãe em cada esquina “porque os portugueses precisam de ser abraçados” – e juntou outras: o desenvolvimento de uma bomba portuguesa (a “bomba V”, que ele está a desenvolver), a "criptonota" de Santo António (para reduzir a dependência do dólar), a fundação de Vierópolis (uma cidade de um milhão de habitantes no centro geodésico do país para desenvolver o interior abandonado) ou o “botão resolve” financiado pelas reservas de ouro do Banco de Portugal (no qual a pessoa carrega e o seu problema de acesso à Saúde ou a outra coisa qualquer é resolvido). Manuel João Vieira terminou o debate – a última intervenção foi sua – a falar mais a sério no “direito à felicidade”. Era uma da manhã e nas redes sociais já "viralizavam" os desenhos de criptonotas de Santo António.

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