As 13 lições que Paulo Portas tirou da pandemia de covid-19

Paulo Portas 10 de maio de 2020

Deus (ou o diabo) está nos detalhes. Pensando bem, inúmeros pequenos (ou grandes) detalhes mudaram a minha vida.

Recuperei palavras que não frequentava há décadas: por exemplo, logaritmo, pandemia ou serológicos. De outras entradas no dicionário só descobri agora as origens. No Grego, a de epidemia (no povo); no Latim, a de vírus (veneno). Dei-me subitamente conta do volte face nas reputações semânticas: expressões que há três meses condenariam qualquer sujeito ao pior opróbrio tornaram-se heroicas nesta lide com o desconhecido: quem havia de dizer que ‘distanciamento social’ e ‘isolamento’ seriam trends humanistas e humanitários no século XXI?

Precisei de 57 anos para saber que existia um animalito manhoso chamado pangolim. E ainda estou pasmado: o pangolim que devia estar em extinção, quase extinguiu a nossa vida como a conhecíamos. Dei-me conta que, apesar da quarta e quinta revoluções industriais, e do digital e do tecnológico, voltamos recorrentemente ao mais básico: lavar as mãos intensamente, não tossir para cima dos outros e pôr muito desinfetante. Reparei ainda que as máscaras discriminam quem usa óculos (que se embaciam) mas já o vírus, ao invés, não discrimina, até cede, perante a nicotina (por uma vez).

Não tinha bem a noção que o negacionismo virológico era tão cíclico: em 1920, quando a segunda vaga da gripe espanhola devastou o Brasil e já não havia lugar nos cemitérios do Rio de Janeiro, ainda havia políticos cariocas que promoviam celebrações com multidões, argumentando que o vírus não pagava bilhete no navio que vinha da Europa. Ring a bell?

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