Ministro entrou em contradição com declarações passadas e apresentou versões estranhas de alguns factos
O ministro da Administração Interna chamou os jornalistas
para tentar pôr uma pedra sobre a polémica da sua relação com o empreiteiro
João Carvalho.
Luís Neves, ministro, com imagens de construçõesFILIPE AMORIM/LUSA
O raio-x de cinquenta minutos de conferência de imprensa expõe algumas omissões, confissões e factos estranhos.
Começando por aqui.
As 11 coisas que não batem certo
1.
“Foi uma decisão excecional [a entrega de um
atrelado apreendido no âmbito de um processo de tráfico de droga a um
particular, o empreiteiro João Carvalho], pelas dificuldades que a PJ tinha. Relativamente
a outro tipo de bens e equipamento, muitas vezes são os próprios particulares
que ficam fiéis depositários."
Luís Neves deixou assim no ar que este tipo de situações
(estas “informalidades”, como foi falado) ocorrem com frequência. Ou seja, que aparentemente é frequente haver privados a guardar (ou usar) bens apreendidos em operações policiais e judiciais e que deveriam estar confiados apenas ao Estado. Falta saber a
que se refere.
2.
Disse Luís Neves que João Carvalho “ofereceu-se”
para guardar o atrelado. “Não houve qualquer contrapartida nem pagamento pelo
transporte, guarda e segurança. O Estado deixou de pagar uma renda entre 2.500
e 4.000 para guardar o atrelado”.
Falta explicar como é que um empreiteiro que
concorre a procedimentos de adjudicação pública para contratos de milhões de
euros faz desinteressadamente este tipo de favores à entidade pública responsável
por esses mesmos contratos e suas adjudicações.
3.
Quanto à declaração de rendimentos em falta desde
2018, disse que só soube que tinha de a entregar em 2025 depois de notificado pela
Entidade para a Transparência (EpT): “Desconhecíamos que tínhamos de entregar a
declaração”.
O desconhecimento é estranho para um licenciado em Direito,
inspetor da PJ de carreira e diretor nacional da instituição. Mais ainda porque, como
noticiou a CNN Portugal, o antecessor de Luís Neves entregou as suas declarações,
entre 2013 e 2018.
4.
Disse ainda Luís Neves que depois não quis
entregar declaração por razões de segurança: “As declarações de rendimentos expõem
as moradas de dirigentes policiais. No meu caso, estive sob medidas de proteção,
fui ameaçado por máfias e delinquentes da pior espécie, era um risco enorme
prestar certo tipo de informações de carácter pessoal. Apresentámos um parecer
junto da EpT expondo o nosso entendimento. A EpT não acolheu”.
Como Luís Neves
sabe, as declarações de rendimentos não expõem publicamente moradas de quem as
entrega (essa informação é confidencial e fica à guarda dos serviços), além de que
qualquer “máfia e delinquente da pior espécie” não precisaria de ir ao Portal da Transparência para saber
onde mora Luís Neves ou a sua família (alguma dessa informação até está em
fontes abertas).
5.
Quanto à piscina que afinal era um tanque (tema
só relevante porque tal teria de ser licenciado pela câmara), a explicação de
Luís Neves foi bizarra:
“Foi pedido para fazer um tanque acima do solo, mas acabou
por ser transformado numa piscina média-familiar. (…) Está aqui a fotografia. Sucede
que num fim de semana em que não estive, acabou por ser ladeado por terra, deixou
de poder ser considerado um tanque. Mas será um tanque outra vez.”
6.
Há alguns dias, Luís Neves disse ao Observador
que não houve acordo escrito com o empreiteiro João Carvalho: “Não foram obras
de dimensão a exigir um projeto ou um contrato”.
Nesta conferência de imprensa
disse que afinal haverá um contrato: “Quanto ao envolvimento do senhor João Carvalho, não
favoreci esta pessoa, nem a sua empresa. Não poupei nem ganhei um cêntimo. Foi um
contrato com uma pessoa que trabalha bem e com quem tinha confiança.”
7.
Também há dias, logo no início da polémica, numa
das entrevistas que deu na televisão, Luís Neves disse na TVI que tinha pago 5
mil euros a João Carvalho para “pequenas despesas e para fundo de maneio”.
Na
conferência de imprensa, disse outra coisa, que os 5.000 euros tinham sido para
“mão de obra”. "Foi pago nos 10 ou 12 fins de semana em que a pessoa e a família
esteve no monte".
8.
Na mesma entrevista televisiva disse ainda que o dinheiro
tinha sido pago por ele ao empreiteiro: “São 5 mil euros que eu lhe fui dando
de cada vez, aos fins de semana”. Agora, veio dizer que quem fazia os pagamentos
era a mulher. “Foi a minha mulher, paulatinamente aos fins de semana, foi
entregue algumas verbas em dinheiro”.
A mudança de versão terá a ver com o
facto de Luís Neves, como diretor nacional da PJ, não poder estar a fazer atos
de gestão de uma empresa. Daí que agora esses atos de gestão (o pagamento das
obras) passaram a ser atribuídos à mulher, que é a dona da empresa.
9.
Quanto à compra das propriedades, fez um pequeno
histórico e disse depois: “Para adquirir dois destes imóveis pedi emprestado
à banca, cujo valor pode ser verificado na minha declaração entregue na
Entidade para a Transparência, e é bom que a vejam, que ninguém lá foi ver”.
Ora, Luís Neves, como se viu acima, só apresentou declarações de rendimentos em
2026 (antes não havia nada para ver), e nessa altura a SÁBADO até escreveu um
artigo sobre isso.
10. E nesse mesmo artigo era dito, com base na declaração de Luís Neves entregue na EpT, que o ministro não tinha carros. Hoje disse que tinha: "Tenho um carro familiar que tem 15 anos. Um Ford Focus."
11.
Quanto às sulipas que apareceram no monte
alentejano de Luís Neves e que vieram da Infraestruturas de Portugal (IP), Luís
Neves foi taxativo: “Perguntei a um trabalhador [da IP], e não a um
administrador, se sabia como comprar umas sulipas. Passado algum tempo, foram
entregues na minha propriedade. As sulipas não foram oferecidas pela Infraestruturas
de Portugal, não foram desviadas, nem furtadas. Foram pagas.”
Acontece que a IP
disse à CNN Portugal há uns dias: “Não existem quaisquer registos na IP
relativamente a alienação dos referidos materiais ou cedência a título
gracioso".
As 4 irregularidades confessadas
1.
Sobre a entrega a um particular (o empreiteiro
João Carvalho) do atrelado, e questionado porque é que o juiz titular do
processo não foi informado, disse Luís Neves: “Desconheço. Eu tomo uma decisão de
aceitar uma proposta para ultrapassar uma dificuldade. Se não existir alguma documentação,
é uma mera irregularidade, que não tem problema”.
2.
Sobre as obras na propriedade no monte
alentejano, admitiu desconhecer que estava em área protegida. “Desconhecia. Nem
tal alguma vez me tinha sido assinalado. Com humildade, já solicitei à Câmara Municipal
de Odemira reunião com carácter de urgência para regularizar o que tiver de ser.”
3.
No que acima se diz, deve estar incluída também
a questão do parque de estacionamento, como o referiu: “Fiz um alpendre em
madeira e pavimentei uma zona para estacionamento, porque quando chovia ficava
enlameado, o que limitava a circulação automóvel”. Mais à frente, disse: "Não pedi
licenciamento, porque eram intervenções de pouco impacto e monta na estrutura
já existente”.
4.
Quanto às declarações de rendimentos, admitiu
que teve de fazer uma declaração de substituição para referir que a mulher, com
quem está casado em comunhão de adquiridos, tem uma empresa. “Nunca existiu
qualquer tentativa de ocultação. Toda a informação sobre esta empresa é publica
e está disponível em plataformas públicas, nomeadamente no Portal da Justiça”.
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