Os políticos alvo de buscas nos últimos anos (e em que ponto estão as investigações)
Desde autarquias, passando por sedes partidárias e a governos, há cada vez mais operações de buscas em centros de decisão política, com particular enfoque em autarquias. Mas os processos continuam a arrastar-se na justiça.
Esta quinta-feira a Polícia Judiciária levou a cabo buscas na Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, envolvendo também a sede nacional do Partido Socialista. A investigação denominada “Operação Imergente” envolve suspeitas de prevaricação, participação económica em negócio, peculato, abuso de poderes, falsificação de documentos e fraude fiscal qualificada. O MP investiga adjudicações públicas cujo valor global rondará os dois milhões de euros, bem como suspeitas de faturação fictícia ligada ao financiamento partidário.
Entre os alvos da investigação surge a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior e o antigo presidente Miguel Coelho, figura influente do socialismo lisboeta e durante anos um dos rostos mais visíveis da máquina autárquica do PS na capital.
Mas estas investigações a políticos têm sido mais comuns, havendo mais de meia dúzia de grandes investigações só nos últimos cinco anos.
Tutti Frutti
Um dos processos mais mediáticos dos últimos anos aconteceu também em Lisboa e ficou conhecida como operação Tutti Frutti. O inquérito expôs alegadas redes de favorecimento cruzado entre dirigentes do PS e do PSD em juntas de freguesia e estruturas municipais da capital. Falava-se então de trocas de favores, contratação de militantes, quotas partidárias, assessorias suspeitas e adjudicações orientadas politicamente.
Ao fim de dez anos de investigação, o Ministério Público acusou, em 2025, seis dezenas de pessoas, incluindo políticos autárquicos do PSD e do PS. Visados respondem por 463 crimes e o MP pretende recuperar 580 mil euros para o Estado.
Entre os políticos investigados estão o ex-deputado social-democrata Sérgio Azevedo, o deputado do PSD Carlos Eduardo Reis, os antigos presidentes da Junta de Freguesia de Santo António, Vasco Morgado (PSD); da Estrela, Luís Newton (PSD); do Areeiro, Fernando Braamcamp (PSD); e da Penha de França, Ana Sofia Oliveira Dias (PS). Os ex-vereadores Ângelo Pereira (PSD) e a socialista Inês Drummond são também arguidos, entre outros.
Influencer
A operação mais consequente dos últimos anos (possivelmente da história de Portugal democrático) foi a Operação Influencer. O Ministério Público ordenou buscas em 17 propriedades privadas, cinco escritórios de advogados e 20 escritórios públicos e de privados, com o objectivo de investigar possíveis casos de corrupção ativa e passiva que envolviam negócios em que o poder político estava envolvido, incluindo os projectos H2Sines e o centro de dados Sines 4.0 em Sines.
Foram alvos de buscas o escritório de Vítor Escária, então chefe de gabinete do primeiro-ministro António Costa, o Ministério das Infraestruturas, o Ministério do Ambiente e Ação Climática (em particular o gabinete da Secretaria de Estado da Energia e Clima) ou a Câmara Municipal de Sines.
Foram emitidos mandados de detenção para o chefe da Casa Civil de António Costa, Vítor Escária; o presidente da Câmara de Sines, Nuno Mascarenhas; Diogo Lacerda Machado, advogado e amigo próximo de Costa que trabalhava no Start Campus; e outros dois executivos da Start Campus. O ex-governante João Galamba, o ex- presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) Nuno Lacasta e o advogado advogado João Tiago Silveira são também arguidos.
O processo ainda está em fase de investigação e não há acusação deduzida.
Lúmen
A operação Lúmen investiga alegados crimes económicos em contratos para a instalação de luzes de Natal. Decorreram buscas em 10 municípios: Lisboa, Tavira, Lamego, Maia, Figueira da Foz, Viseu, Trofa, Póvoa de Varzim, Ovar e Santa Maria da Feira e quatro pessoas foram constituídas como arguidas.
Este processo envolve suspeitas dos crimes de corrupção ativa e passiva, participação económica em negócio, abuso de poder e associação criminosa, relacionados com o fornecimento e a instalação de luzes de Natal em autarquias nacionais. Foram efetuadas 26 buscas domiciliárias e não domiciliárias, em entidades e empresas públicas e privadas. As diligências realizadas pela autoridade revelaram a existência de "um esquema criminoso, de caráter organizado e sistémico, tendente à viciação de procedimentos de contratação pública". "Mediante a obtenção ilegal de informação privilegiada a troco de contrapartidas de cariz financeiro atribuídas a elementos de entidades adjudicantes, em subversão das regras da transparência, igualdade e concorrência do mercado, eram garantidas adjudicações à empresa visada em valores que ascendem a oito milhões de euros", refere a nota.
Entre os arguidos está o secretário-geral da Câmara Municipal de Lisboa, Alberto Laplaine Guimarães, suspenso das suas funções por promoção do MP. Foi também detida a presidente da União de Associações do Comércio e Serviços (UACS), Carla Salsinha, e ainda um administrador e um funcionário da empresa Castros Iluminações Festivas, sediada em Vila Nova de Gaia (distrito do Porto). Entretanto foram os quatro libertados.
As iluminações de Natal de Lisboa de 2025 foram inauguradas no dia 22 de novembro no Terreiro do Paço e ficaram ligadas até 6 de janeiro. Em dezembro passado, a Câmara Municipal de Lisboa indicou que o investimento foi de 749.500 euros, o mesmo valor que foi disponibilizado em 2023 e 2024, no âmbito de um protocolo entre o município e a UACS, ou seja, a autarquia não contrata diretamente qualquer empresa, o que é da responsabilidade da associação.
Investigação a Rui Rio
O ex-líder do PSD, Rui Rio, foi também alvo de buscas da PJ, mas em sua casa, em 2023. As buscas estão relacionadas com a gestão do PSD, com suspeitas de peculato e abuso de poder que nasceram já em 2020 com um conjunto de denúncias internas.
Além das buscas domiciliárias foram igualmente realizadas buscas às sedes nacionais do PSD e da Juventude Social Democrata (JSD), bem como à distrital do partido no Porto.
A investigação da PJ concentra-se na alegada utilização indevida de dinheiros públicos na anterior gestão do partido. Está em causa um alegado esquema para pagar ordenados a funcionários do PSD com recurso a verbas da Assembleia da República que são destinados a cargos de assessoria dos grupos parlamentares.
Três anos depois, não há ainda novidades sobre este processo, estando a investigação ainda a decorrer e em segredo de justiça.
Madeira
Dezenas de inspetores foram levados para a Madeira para levar a cabo mais de 130 buscas que acabaram com a PJ a apreender meio milhão de euros, no cofre de um empresário com ligações ao presidente da Câmara do Funchal, Pedro Calado.
Pedro Calado foi um dos detidos durante a megaoperação. O presidente do grupo AFA, Avelino Farinha e o líder do grupo económico, Custódio Correia, também foram detidos, no caso que envolve suspeitas de crimes de corrupção ativa e passiva, participação económica em negócio, prevaricação, recebimento ou oferta indevidos de vantagem, abuso de poder e tráfico de influência.
Miguel Albuquerque constituído arguido
O presidente do Governo Regional da Madeira Miguel Alubquerque foi constituído arguido no âmbito das buscas da Polícia Judiciária na Madeira por suspeitas de corrupção.
Margarida Martins
A Junta de Freguesia de Arroios foi também alvo de buscas em 2021, tendo a então autarca Margarida Martins sido constituída arguida. Em investigação, segundo o comunicado daquele órgão do Ministério Público, estão "factos suscetíveis de integrarem a prática de crimes cometidos no exercício de funções públicas, nomeadamente peculato, peculato de uso e participação económica em negócio".
Na altura, a Unidade Nacional de Combate à Corrupção da Polícia Judiciária executou "dez mandados de busca, sendo três domiciliários, e sete não domiciliários, e realizou uma busca autorizada". A casa de Margarida Martins foi alvo de buscas bem como na sede da junta de freguesia.
O jornal Expresso, citando o advogado de Margarida Martins (Ricardo Sá Fernandes), adiantou que o caso remonta a "um processo de 2018 e que foi, segundo o despacho do juiz Carlos Alexandre, "agitado" com as reportagens da revista SÁBADO". O caso de 2018 é uma referência a uma polémica, noticiada na altura pelo Expresso, referente a uma encomenda totalmente desproporcionada de sacos de cimento face às necessidades da junta de freguesia, o que levantou suspeitas, demissões internas na junta e um inquérito que foi remetido ao Ministério Público
Desde então que não houve mais notícias sobre o caso, não havendo ainda uma acusação deduzida contra Margarida Martins.
Buscas em Oeiras
Em junho de 2025 foi a vez da Câmara liderada por Isaltino estar na mira das autoridades. A Polícia Judiciária (PJ) realizou buscas na Câmara Municipal de Oeiras, tendo os inspetores da Unidade Nacional Contra a Corrupção recolhido vários documentos relacionados com contratação pública. As buscas estavam relacionadas com contratos celebrados com a empresa municipal Municípia - Empresa de Cartografia e Sistemas de Informação, confirmou na altura a autarquia.
No essencial, este caso nasceu de um artigo da SÁBADO de março de 2023: "O trânsito de milhões entre Oeiras e Moçambique".
Um ano depois, não há ainda novidades sobre este processo.