Sábado – Pense por si

Tiago Freitas
Tiago Freitas Analista em Assuntos Europeus
17 de julho de 2026 às 09:11

Leve Leve

Tenho um enorme orgulho na minha terra e não tenho dificuldade em dizer o óbvio: a Madeira foi bafejada por Deus com um esplendor natural difícil de igualar. Mas, depois de ter estado em São Tomé fiquei com a sensação de que, naquele pedaço de terra, Deus se esmerou um pouco (de)mais.

Tive o gosto e, confesso, algum orgulho,  de ter uma intervenção muito efetiva nas comemorações, pela primeira vez realizadas na Madeira, do Dia Nacional e do 51.º aniversário da independência de São Tomé e Príncipe. Não foi apenas mais uma cerimónia de calendário. Foi o encontro de dois arquipélagos que, separados por milhares de quilómetros, continuam ligados pela História, pela língua, pelo açúcar e por uma memória comum que nem sempre soubemos tratar com a atenção devida.

A comunidade santomense sem dupla nacionalidade residente na Madeira duplicou em apenas três anos: passou de cerca de 330 pessoas para 670.  E sabemos que a comunidade real é bastante maior, porque muitos possuem também nacionalidade portuguesa. Tem tido maior visibilidade na formação, estágio e profissionalização na indústria hoteleira e restauração.

Para quem, como eu, cultiva uma ligação profunda à África lusófona, foi com profunda satisfação pessoal que ajudei a construir estas comemorações e participar nelas. Não posso deixar de relembrar satisfação semelhante quando participei, igualmente, na elaboração do protocolo de geminação entre a Madeira e Ilha do Príncipe, no primeiro governo de Miguel Albuquerque, que felizmente permanece.

Tenho um enorme orgulho na minha terra e não tenho dificuldade em dizer o óbvio: a Madeira foi bafejada por Deus com um esplendor natural difícil de igualar. Mas, depois de ter estado em São Tomé fiquei com a sensação de que, naquele pedaço de terra, Deus se esmerou um pouco (de)mais. Talvez tenha exagerado na exuberância, na fertilidade e na beleza esmagadora. Fruta que nasce quase espontaneamente, peixe e marisco que parecem querer saltar para a canoa. Talvez essa generosidade natural tenha retirado urgência ao desenvolvimento económico. Ou talvez a vocação daquele arquipélago seja também a de santuário natural e espiritual. Não faltam, nas Rolas, os que procuram ligar-se ao cosmos na latitude zero.

A ligação à Madeira tem uma concretização extraordinária no Tchiloli, uma das mais importantes formas de expressão cultural traduzida numa espécie de peça de teatro com dança. A Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carlos Magno nasceu da oralidade em verso do madeirense Baltazar Dias e viajou para São Tomé com os homens do açúcar. Quando os mestres madeirenses seguiram o ciclo da cana para o Brasil, deixaram para trás engenhos, textos e uma sociedade entregue, em boa medida, à sua sorte.

Os santomenses apropriaram-se da peça, deram-lhe tambores, movimento, mística e sentido político. No terreiro, o filho do imperador é julgado e condenado. Ninguém está acima da lei. Para um povo submetido ao poder colonial, a peça europeia transformou-se numa promessa africana de justiça.

A parte de expressão corporal fez-me lembrar a famosa dança do caixão do Gana, dos Dancing Pallbearers, que tanto furor fez na pandemia, tendo como plano central comum o motivo fúnebre e a indumentária de cerimónia europeia,  lembrando que a cultura do golfo da Guiné percebe-se em muitas manifestações daquele país. 

Foi emocionante ver a peça de Baltazar Dias regressar à Madeira, no âmbito das comemorações,  séculos depois, já santomense, africanizada e infinitamente mais rica. Baltazar Dias , se fosse vivo, pediria para deixar de ser cego e ter a oportunidade de a ver. Depois vieram a Chamada da Pátria, os artistas, a festa e um gesto simples que diz muito sobre um povo: no final, os participantes recolheram os desperdícios, limparam o Parque Urbano da Nazaré e deixaram tudo arrumado. Ficamos deslumbrados quando os japoneses limpam as bancadas nos mundiais de futebol. Não é preciso ir tão longe. Basta conviver com santomenses.

Também por isso fiquei profundamente impressionado com o embaixador Esterline Gonçalves Género. Conheci vários embaixadores, de diferentes países e continentes. E se já me cruzei com gente admirável, nesta ocasião encontrei alguém com evidente liderança natural, inteligência, cultura, capacidade de persuasão e empatia com os seus compatriotas. Lê o ambiente com facilidade, aproxima pessoas e exerce autoridade sem precisar de a exibir. Posso enganar-me, mas vejo ali um futuro líder africano, embora me pareça genuinamente apaixonado pela carreira diplomática. A vida, porém, e por vezes, troca-nos os planos.

As comemorações incluíram ainda um encontro dedicado ao investimento. Houve também contactos informais, ideias e interesse concreto no turismo, no café e no cacau de qualidade ímpar. São Tomé não precisa de esmolas internacionais servidas em programas dispersos, com muita fotografia e pouca transformação. Precisa de investimento, empresas, emprego e receita. Precisa que quem lá invista possa ganhar dinheiro e que o país ganhe também.

Portugal poderia ser mais útil. Sem entrar na interminável discussão da dívida colonial, custa ver mais de duas centenas de roças, muitas em degradação, transformadas em abrigo improvisado. Em vez de pulverizar verbas por pequenos projetos de cooperação, por que não assumir uma intervenção estruturante na estrada que circunda a ilha principal? Custaria 50 milhões? Cem milhões? Uma rede viária minimamente segura reduziria o risco do investimento hoteleiro, abriria zonas costeiras, criaria condições para o agroturismo e o ecoturismo e aproximaria comunidades. Seria dar a cana de pesca, em vez de continuar a oferecer peixe a quem vive rodeado por ele.

O momento político exige igualmente atenção. São Tomé vai a eleições presidenciais no próximo domingo e, em setembro, realiza legislativas, regionais e autárquicas. As presidenciais ficaram polarizadas entre o atual Presidente, Carlos Vila Nova, e Nito D’Abreu, candidato apoiado pela direção da ADI. Pelo meio, o partido que venceu as legislativas de 2022 partiu-se: a direção ligada a Patrice Trovoada rompeu com o Governo de Américo Ramos, chegou a apresentar uma moção de censura e viu parte dos seus deputados sustentar o Executivo com apoios da oposição. O que deveria ser um partido maioritário tornou-se duas legitimidades à procura da mesma sigla. Está nas mãos de um já muito pressionado Tribunal Constitucional saber-se quem tem legitimidade a usá-la, à sigla, e quem será o candidato da ADI ao governo.  

São Tomé tem uma tradição democrática apreciável desde 1990, apenas perturbada pelos breves golpes de 1995 e 2003 e pelo ainda nebuloso episódio de 2022. Convém preservá-la. Portugal não deve escolher governos nem candidatos, mas também não pode fingir que nada tem a ver com a estabilidade de um país com o qual partilha tanto. A diplomacia, a cooperação útil e a facilitação do investimento são instrumentos de paz. Um povo com emprego, uma classe política com instituições funcionais e umas forças armadas inseridas num país mais próspero têm menos tentações de se “instabilizar”.

Não é compreensível que ninguém fale do ciclo de eleições em São Tomé neste ano de 2026. E aí existe uma responsabilidade partilhada pela comunicação social, agentes políticos e sociedade civil portugueses. 

“Leve leve” é uma forma santomense de estar: sem precipitação, com humanidade e um sorriso que resiste às dificuldades. Não deve, porém, servir de desculpa para Portugal continuar a olhar devagar para São Tomé. Há laços e afetos antigos, oportunidades evidentes e responsabilidades que não desapareceram com a independência. É tempo de transformar proximidade histórica em parceria verdadeira. Leve leve, sim. Parados é que não!

Mais crónicas do autor
17 de julho de 2026 às 09:11

Leve Leve

Tenho um enorme orgulho na minha terra e não tenho dificuldade em dizer o óbvio: a Madeira foi bafejada por Deus com um esplendor natural difícil de igualar. Mas, depois de ter estado em São Tomé fiquei com a sensação de que, naquele pedaço de terra, Deus se esmerou um pouco (de)mais.

09 de julho de 2026 às 07:23

Se o povo não confia no governo?... Dissolva-se o povo!

A Europa precisa de imigração. Não é uma opinião. É uma evidência demográfica.

03 de julho de 2026 às 09:19

Cuba já não quer bombardear Havana (falta a esquerda portuguesa)

O regime cubano, que passou mais de 60 anos a acreditar que a economia podia ser gerida como quem organiza uma festa de aniversário, "tu levas os salgadinhos, eu trato dos refrigerantes e o Estado decide quanto custa cada um", descobriu agora uma realidade surpreendente: tabelar preços produz escassez, filas, mercado paralelo, corrupção e desinvestimento.

25 de junho de 2026 às 08:11

O Chega e o barco insuflável

A história recente demonstra que a relação do líder do Chega com a verdade e com a reserva negocial é, digamos, criativa.

18 de junho de 2026 às 07:21

O Triunfo da pataniscas, ou o país do forno desligado!

O salário médio é uma estatística simpática. Faz-nos sentir melhor. É como aquelas fotografias de Natal da família do Cristiano Ronaldo em o primo em terceiro grau, por contágio estatístico, se sente momentaneamente milionário.

Mostrar mais crónicas