Sábado – Pense por si

Gonçalo Levy Cordeiro
Gonçalo Levy Cordeiro Dirigente da IL
01 de maio de 2026 às 08:00

A mui real lata de António Costa

Depois de oito anos como Presidente da Câmara de Lisboa e oito anos como Primeiro-Ministro, Costa descobriu o problema da habitação num discurso em Bruxelas. Dezasseis anos. Dois mandatos autárquicos e dois governamentais. Uma cidade inteira e um país inteiro. E foi preciso uma cadeira no Conselho Europeu para a epifania chegar.

Há confissões que não precisam de ser ditas em voz alta. Esta foi.

António Costa foi ao Comité Económico e Social Europeu, em Bruxelas, para anunciar ao mundo que é "inaceitável" que os jovens portugueses gastem 100% do salário a pagar casa durante 20 ou 30 anos. O preço das casas, explicou, está "no centro da desilusão das pessoas com as instituições democráticas."

Dito por quem o disse, a frase é uma obra de arte involuntária. Picasso também pintava, mas pelo menos não destruía primeiro as telas. Como iremos constatar, ambos são artistas.

Este António Costa — o indignado de Bruxelas, o defensor dos jovens, o denunciante da crise — é o mesmo que governou Portugal durante oito anos com a habitação como bandeira e deixou o país com rendas mais caras, com Lisboa identificada como a cidade da União Europeia onde os residentes gastam a maior fatia do rendimento em habitação, e com 1.950 casas entregues de 26.000 prometidas. Para piorar, nem são os 100% do salário que Costa cita — são 116%, segundo o Deutsche Bank. O homem subestimou o próprio desastre. A Comissão Europeia avaliou as suas políticas e concluiu que não passavam de paliativos sem efeito estrutural. Cavaco Silva chamou-lhe "falhanço". A oposição chamou-lhe "falhanço". Bruxelas chamou-lhe "falhanço". Costa chamou-lhe legado e foi-se embora.

Mas o homem tem princípios. Simplesmente aplica-os depois de sair do poder.

Costa é o político bombeiro que ateou o incêndio, viu arder, passou a mangueira ao próximo e foi para longe comentar o fumo com o fácies consternado. A "desilusão das pessoas com as instituições democráticas" que lamenta foi, em parte não negligenciável, fabricada pela sua própria governação. Há qualquer coisa de admirável na escala da operação.

Há um padrão reconhecível nisto. Costa sempre foi excelente a diagnosticar problemas que eram seus. Na habitação, prometeu Lei de Bases, Estratégia Nacional, milhares de casas, fundos do PRR. O diagnóstico era certeiro. A execução era outra conversa. E quando a conversa ficava difícil, havia sempre uma carta para Bruxelas, uma cimeira europeia, um discurso sobre coesão social. A responsabilidade diluía-se no institucional, o problema ficava, e Costa ficava bem na fotografia.

A verdade inconveniente é que o problema da habitação em Portugal não é um mistério nem uma fatalidade. É o resultado previsível de décadas de Estado a entrar onde não devia e a sair de onde era preciso. Licenciamentos que demoram anos. Burocracia que mata projetos antes de começarem. Impostos elevados. Rendas congeladas que fixam custos para quem já tem casa e distribuem escassez para quem não tem. Quem o disse durante anos foi ignorado com a elegância habitual da esquerda portuguesa — acusado de defender senhorios, o mercado, os ricos, provavelmente também o aquecimento global. Os jovens continuam sem casa. A acusação ficou.

Costa acredita genuinamente no que diz. Acreditou sempre. É a sua característica mais desconcertante e mais perigosa. Acreditou quando prometeu as 26.000 casas e não entregou sequer 2.000. Acreditou quando escreveu à Comissão Europeia a pedir que a habitação fosse prioridade — como se a responsabilidade fosse da UE e não do governo que ele próprio liderava durante oito anos. A Europa devia resolver o problema que ele não conseguiu resolver. Faz sentido. Os socialistas adoram sempre culpar outros. Hoje está em Bruxelas a fazer exatamente a mesma coisa, com a vantagem de já não ter de responder por nada.

Depois de oito anos como Presidente da Câmara de Lisboa e oito anos como Primeiro-Ministro, Costa descobriu o problema da habitação num discurso em Bruxelas. Dezasseis anos. Dois mandatos autárquicos e dois governamentais. Uma cidade inteira e um país inteiro. E foi preciso uma cadeira no Conselho Europeu para a epifania chegar.

Os jovens portugueses sabem que o que lhes está a acontecer no acesso à primeira casa é uma vergonha. Não precisam do Capitão Óbvio a indignar-se por eles a 2.000 quilómetros de distância. O que Costa não tem em competência, sobra-lhe em lata. E em Bruxelas, pelo menos, a lata tem vista para o Atomium.

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