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João Carlos Barradas
João Carlos Barradas
13 de junho de 2026 às 10:15

Mais um dia de guerra

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Edição de 2 a 8 de junho

Esta é, desde já, a consequência mais assustadora da guerra na Ucrânia: sem armas nucleares é impossível garantir soberania plena da capacidade de dissuasão.

É uma guerra de desgaste, o desfecho é incerto e uma desastrosa evidência faz-se sentir: armas nucleares são a única força de dissuasão que realmente conta.

Ao aceitar desmantelar, em 1994, o arsenal nuclear que herdara após a dissolução da União Soviética, três anos antes, a Ucrânia fiou-se em vagas «garantias de segurança» da Rússia, Estados Unidos e Reino Unido quanto ao respeito pela sua «independência, soberania e fronteiras existentes».

Passadas duas décadas a Rússia anexava a Crimeia e abria hostilidades armando forças separatistas no Leste da Ucrânia.

A ambição de anexar territórios e expandir esferas de influência, recuperando a favor de Moscovo a maior parte da antiga URSS, levaria Putin, oito anos depois, a desencadear a invasão em larga escala da Ucrânia.

A «operação militar especial», lançada a 24 de Fevereiro de 2022, fracassou no objectivo de «derrubar o regime fascista» ucraniano e na passada quinta-feira a guerra ultrapassou os 1 567 dias de duração da I Guerra Mundial.

No Verão de 1914 as chefias políticas e militares europeias ainda concebiam uma guerra de curta duração, descartando o risco de conflito prolongado.

A devastação em larga escala e a exigência de mobilização maciça de homens e recursos industriais, patentes na Guerra Civil norte-americana (1861-1865), foi ignorada nos planos militares.

Nem o impasse nas trincheiras na frente ocidental e as bruscas alterações nas batalhas da frente leste, puseram fim à ilusão de uma guerra rápida.

Hitler aplicou o princípio de concentração de forças para num ataque relâmpago derrotar de forma decisiva o inimigo a ocidente, em 1939, assim que firmou um pacto com Stalin.

A valia a prazo da «blitzkrieg», da variante estratégica de «choque e pavor», da «decapitação de chefias», já por diversas vezes foi posta em causa e a guerra na Ucrânia mostra, uma vez mais, ao que leva a subestimação da capacidade de resistência do adversário.

A determinação do agressor é, também, raramente levada em conta e a volubilidade das políticas de aliança ressente-se de tudo isso.

A lógica de alianças e garantias de segurança mudou, igualmente, a partir da década de 1950 com a acumulação de armas nucleares e a capacidade de destruição mútua dos Estados Unidos e União Soviética.

Os arsenais do Reino Unido, França, China e, a escala mais reduzida, da Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte, criaram, também, pólos de proeminência e tensão.

Ainda num quadro de segurança por adesão, a aliança militar assente em capacidade nuclear de dissuasão, a Finlândia, em 2023, e a Suécia, em 2024, aderiram à NATO numa renúncia explícita à neutralidade ante Moscovo.

Com 32 estados, a NATO acabou, no entanto, enfraquecida pela reorientação norte-americana para a Ásia e dilacerada pelo trumpismo; frente a Washington os demais aliados estão longe de superar carências militares ou definir linhas de acção comuns.

A grande esperança de Moscovo na Europa, onde a Rússia cedo perdeu o trunfo dos fornecimentos de gás e petróleo, é, neste contexto, um triunfo da extrema-direita nas presidenciais francesas do próximo ano.

A Rússia viu-se sujeita, por seu turno, a maior dependência da China, a uma parceria militar com a Coreia do Norte, e não ganhou aliados.

O aumento do apoio limitado, mas essencial, dos estados europeus para obviar à retirada do contributo norte-americano, tem permitido a Kiiv aguentar o esforço de guerra.

As inovações no uso de drones – que tinha sido decisivo, pela primeira vez, no triunfo do Azerbaijão nos 44 dias de guerra com a Arménia em 2020 – alteraram substancialmente as condições na frente de combate e na retaguarda.

Kiiv conseguira conter, já em 2024, a ameaça da marinha de guerra de Putin no Mar Negro e é, agora, capaz de atacar a retaguarda russa, as infraestruturas industriais, sobretudo petrolíferas, e a rede logística militar.

A mobilidade e concentração de tropas e blindados reduziu-se imenso para ambas as partes devido à vigilância e ataques de drones, mas do lado ucraniano é grande a vulnerabilidade a ataques aéreos, em especial de mísseis balísticos, devido à falta de meios de defesa.

A capacidade de mobilização e de absorção de baixas de russos e ucranianos afasta, de momento,

expectativas de colapso militar repentino em Kiiv ou a urgência para Moscovo em abrir negociações.

A imensa alteração que a guerra trouxe está, todavia, bem à vista na irresponsabilidade com se sucedem ataques que põem em perigo a estrutura de protecção do Reactor 4 de Tchornobil, além dos depósitos de resíduos, redes de fornecimento de electricidade e água, e instalações dos reactores da central nuclear de Zaporijjia.

Os combates em Tchornobil, capturada no primeiro dia de invasão, ameaçaram o complexo nuclear desactivado e as forças russas só abandonaram o local a 31 de março ao fracassar a ofensiva sobre Kiiv.

Em Zaporijjia, ocupada pelas tropas russas desde 4 de Março de 2022, são frequentes os incidentes, comprometendo a segurança da maior central nuclear da Europa.

São, de resto, recorrentes as ameaças de utilização de armas nucleares contra a Ucrânia – em particular bombas tácticas – e seus aliados – mísseis com ogivas de grande potência sobre Londres, Washington ou Paris – nos meios de comunicação controlados pelo estado russo.

Dmitri Medvedev, ex-primeiro-ministro, antigo presidente e actual vice-presidente do Conselho de

Segurança da Rússia, é um dos políticos useiros e vezeiros na ameaça de ataques nucleares.

A guerra na Ucrânia, iniciada de facto em 2014, e o conflito generalizado entre Kiiv e Moscovo a partir de 2022, selou, assim, o destino do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares em vigor desde 1970.

À imagem dos Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França, China, Índia, Paquistão, Coreia do Norte e Israel, qualquer estado tem bem presente de que uma capacidade nuclear autónoma é a verdadeira garantia de dissuasão e reconhecimento.

Mesmo sem mísseis balísticos intercontinentais – alcance superior a 5 500 Km –, um arsenal diminuto de algumas dezenas de ogivas é suficiente para intimidar com recurso a mísseis de cruzeiro e balísticos de curto e médio alcance (até 3 500 Km).

No Irão, na Polónia, na Coreia do Sul, na Arábia Saudita, no Japão ou na Turquia, estados com capacidade tecnológica e recursos humanos e materiais para programas nucleares militares, é cada vez mais premente a discussão sobre a autonomia de decisão quanto ao desenvolvimento e uso de uma arma de destruição maciça.

Esta é, desde já, a consequência mais assustadora da guerra na Ucrânia: sem armas nucleares é

impossível garantir soberania plena da capacidade de dissuasão.

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