Sábado – Pense por si

Eurico Reis
Eurico Reis Juiz Desembargador Jubilado
14 de junho de 2026 às 14:16

Começar de novo. Será que a baixeza ética e a falta de escrúpulos morais dos dirigentes da UE não tem limites?

Estou a referir-me ao convite feito pela Comissão Europeia a representantes do governo dos taliban para se deslocarem a Bruxelas para debater questões relativas aos “imigrantes” afegãos aos quais não foi concedido o direito de asilo no seio da União.

E eu que pensava que, depois da cumplicidade criminosa dos dirigentes da União Europeia e de muitos dos seus Estados Membros, com o governo genocida de Benjamin Netanyahu, não seria possível a falência ética e moral dessas pessoas descer a um patamar ainda mais baixo. 

Que ingenuidade a minha. 

Quando se abandonam os Valores humanitários que constituem o núcleo central e a base de sustentação ideológica dessa União, tudo se torna possível. 

É a realpolitik dizem eles e elas. Mas não é. 

É apenas a inequívoca demonstração da baixeza ética e da falta de escrúpulos morais desses dirigentes políticos que até se atrevem a invocar que defendem uma herança cultural que tem como um dos pilares fundamentais a tradição cristã e os ensinamentos do judeu sefardita Yeshua ben David, o Ungido. 

Estou a referir-me ao convite feito pela Comissão Europeia a representantes do governo dos taliban, que não é sequer reconhecido oficialmente pela UE como o legítimo governo do Afeganistão, para se deslocarem a Bruxelas para debater questões relativas aos “imigrantes” afegãos aos quais não foi concedido o direito de asilo no seio da União. 

É verdade que, em 2021, teve lugar em Doha, capital do Catar, uma “reunião técnica” entre representantes (não dirigentes) da UE e dos taliban para debater questões relativas à segurança de funcionários da União no Afeganistão. 

Na ocasião, o então chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, declarou à imprensa que os Estados-membros da UE haviam concordado "que uma presença mínima da UE em Cabul é necessária para apoiar o povo afegão e garantir a saída segura dos afegãos em perigo, mas que tal não significa o reconhecimento pelos europeus do novo regime". 

Não é, todavia, essa a agenda da reunião que agora está a ser anunciada. Não é de todo. Efectivamente, é realmente algo que está nos antípodas do objectivo de garantir a segurança dos afegãos em perigo. 

Afegãos, mas sobretudo afegãs, porque são muito bem conhecidas as violações dos mais elementares direitos infringidos às raparigas e às mulheres que tiveram o horrível infortúnio de nascer naquele país. 

Não, com honrosas excepções, grupo do qual o actual governo de Portugal não faz parte, bem pelo contrário, o que agora está na moda na UE e nos seus vários Estados-membros é “mandar os imigrantes para a terra deles”. 

E atrevem-se estas criaturas, xenófobas, racistas e intolerantes (na verdade, fascistas ou fascizantes) a afirmar que defendem uma Civilização que tem como um dos seus pilares estruturantes fundamentais a herança cristã e os ensinamentos do judeu sefardita Yeshua ben David, o Ungido. 

Não, essa gente - esses e essas dirigentes (os e as da UE e os e as dos governos nacionais) - não é cristã e nunca o foi. 

E muitos deles - e se calhar algumas delas - não se importariam de viver em Estados totalitários (e estou a ser brando na qualificação desses regimes políticos) como o que oprime o povo afegão. Isto é, um Estado em que não são reconhecidos, muito menos protegidos e respeitados, quaisquer direitos sociais e laborais, nem sequer mínimos, e em que os governantes não têm qualquer preocupação com o bem-estar das populações, e nos quais as raparigas e as mulheres estão sujeitas a uma intolerável condição quase de coisas que podem ser usadas e abusadas pelos pais, pelos irmãos e pelos maridos. 

Claro que, na Europa, como já acontece nos EUA, a justificação teológica para tais desmandos seriam não os versículos do Corão, mas uma inqualificável leitura primária e atávica das Escrituras, assente sobretudo, se não inteiramente, no Velho Testamento (e em Israel num judaísmo fanático, xenófobo e supremacista). 

A única razão pela qual na generalidade dos países europeus e daqueles que devem ser os seus primordiais aliados – Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Japão e Coreia do Sul) não vivemos como no Afeganistão é a de que, após vários séculos de sangrentas lutas populares, nesses países foi implantada a forma de organização social a que chamamos Estado de Direito.  

Sim Portugal não é o Bangladesh (ou o Nepal, ou um doutros países da península indostânica), mas há nosso país gente que gostaria que assim fosse. 

Veja-se tudo o que não apenas o Chega, mas também o governo de Luís Montenegro e os partidos que o apoiam (PSD e CDS), contra os direitos laborais e contra os direitos sociais e reprodutivos das mulheres (e dos homens, mas sendo inequívoco que as primeiras são o alvo principal), contra os direitos e liberdades das minorias e contra os imigrantes. 

Em boa verdade, os alvos dessa gente revanchista e saudosa do Estado Novo - daí os ataques à Constituição e o afã que colocam na revisão dessa Lei Maior – são a Democracia e o Estado de Direito. 

E, do alto da sua infinita arrogância, sem qualquer pudor ou vergonha, já nem disfarçam o objectivo da sua acção política. 

E, insisto, também na União Europeia, cujos dirigentes – homens e mulheres – afrontam e violam, sistemática e consistentemente (e de forma consequente e voluntária) os Princípios Éticos e Morais que estão na base da criação dessa entidade política, são a Democracia e o Estado de Direito que estão a ser postos em causa, com risco de destruição. 

O que seria o fim da UE, deixando os Estados nacionais europeus entregues a si próprios e à sua total irrelevância numa Nova Ordem Mundial, que já está a ser construída, assente na força, bélica sobretudo, das grandes potências e no “direito do mais forte à sua liberdade”. 

Liberdade para fazer tudo o que lhe aprouver, com um profundo desprezo pelos direitos e pelas liberdades de todos os outros. 

E o convite feito aos talibãs é apenas mais um passo nesse caminho para a perdição. 

Estou seguro de que alguém como Yeshua ben David teria considerado que tudo isto é intolerável. 

Pois não foi ele quem expulsou os vendilhões do Templo e chamou “sepulcros caiados” aos hipócritas fariseus? 

Que é feito da ideia por ele sustentada de que todos nós fazemos parte de um único povo, que é o “Povo de Deus”, e que todos nós - todos, todos, todos e todas –, sem qualquer distinção, somos irmãos e irmãs e iguais, porque somos filhos e filhas de Deus? 

Até eu que, apesar de educado como católico (e que fui praticante até aos meus 14 anos), sou ateu, reconheço o superior mérito e o elevadíssimo valor ético e moral desses princípios. 

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