NEWSLETTER EXCLUSIVA PARA ASSINANTES Novidades com vantagens exclusivas: descontos e ofertas em produtos e serviços; divulgação de conteúdos exclusivos e comunicação de novas funcionalidades. (Enviada mensalmente)
NEWSLETTER EXCLUSIVA PARA ASSINANTES Novidades com vantagens exclusivas: descontos e ofertas em produtos e serviços; divulgação de conteúdos exclusivos e comunicação de novas funcionalidades. (Enviada mensalmente)
Há comparações que envelhecem mal. E há comparações que já nascem mortas.
Ana Sá Lopes descobriu o Churchill do século XXI. Não é um ucraniano a defender a sua pátria contra tanques russos. Não é um dissidente iraniano a pagar com a vida as suas convicções. É Pedro Sánchez. O homem que governa Espanha à custa de acordos com separatistas bascos como o Bildu, cuja origem está na terrorista ETA e separatistas catalães em troca de amnistias, e cuja família transformou a Moncloa num escritório de negócios paralelo.
Mas não sejamos precipitados. Leiamos o argumento com a seriedade que merece — pouca.
A tese da autora é simples: Sánchez é corajoso porque está sozinho na Europa a criticar Israel e a guerra dos Estados Unidos contra o Irão. Os outros líderes europeus "cambalearam", "hesitaram", não disseram o que era preciso dizer. Só Sánchez teve a espinha dorsal necessária. Paremos aqui um momento.
A "coragem" de Sánchez consiste em fazer declarações inflamatórias a partir de Madrid, num país que não tem tropas no terreno, sem nenhum risco pessoal, nenhuma consequência diplomática real, ou seja, sem pagar nada por isso.
Churchill enfrentou Hitler quando meia Europa já tinha dobrado os joelhos e sucumbido. Arriscou a destruição do seu país numa aposta que a maioria considerava suicida. Pagou com anos de ostracismo político antes de regressar ao poder. Morreram muitos dos seus compatriotas em nome da sua Pátria e dos ideais democráticos europeus. Sánchez faz conferências de imprensa. A comparação é, literalmente, isto.
Churchill arriscou tudo numa guerra que podia perder e salvou a Europa. Sánchez arrisca tudo para não perder o poder e salvou a sua carreira. Não é a mesma coisa.
Mas o verdadeiro problema do artigo não é a hipérbole, que é uma ferramenta legítima. O problema é o que está por baixo dela: a ideia de que a "coragem moral" de um líder pode ser avaliada em abstrato, separada de quem ele é, de como governa, e do que se passa dentro das suas próprias fronteiras.
Porque se vamos falar de moral (a autora fala muito de moral) talvez seja altura de avaliar pelo menos a ética do seu Churchill ibérico.
Caso Begoña Gómez. A mulher do Primeiro-Ministro está a ser investigada por tráfico de influências e corrupção. As acusações envolvem o uso do nome e da posição do marido para beneficiar empresas em contratos públicos.
Caso David Sánchez. O irmão do Primeiro-Ministro foi nomeado para um cargo na área da cultura em Badajoz pelo PSOE lá da zona. Com um salário de alto diretor cultural para exercer funções que, após meses de investigação jornalística, continuam sem descrição convincente. Quando presente em tribunal para explicar no que consistia o Departamento de Artes Cénicas, ele responde que é o departamento que se encarrega… das Artes Cénicas. La
Palice ficaria orgulhoso. Não sabe onde é que este departamento se localiza. É o director, mas não tem subordinados. Pois, não. Tem um tacho.
Caso Ábalos ou Caso Koldo. Uma rede de corrupção com ligações ao PSOE que envolve comissões milionárias em contratos públicos de material sanitário durante a pandemia. O ex-ministro José Ábalos — braço direito de Sánchez durante anos, o homem que o ajudou a chegar ao poder — e o seu assessor Koldo García Izaguirre estão no centro do escândalo. Quando Ábalos caiu em desgraça, Sánchez afugentou-o como se fosse a peste, com a elegância de quem esconde roupa suja debaixo da cama antes de receber visitas. Há evidências de que contrataram prostitutas com dinheiro público.
Caso Santos Cerdán. O secretário de organização do PSOE investigado por subornos em contratos de obras públicas.
Delcygate. Em Janeiro de 2020, Delcy Rodríguez, vice-presidente da Venezuela de Maduro, aterrou em Barajas. O problema: estava proibida de entrar em território da UE devido às sanções. Ábalos — o mesmo do caso Koldo, os escândalos têm uma consistência de elenco notável — foi pessoalmente recebê-la. A reunião aconteceu. Sánchez negou saber, mas, pelos vistos, sabia. O Churchill que vai salvar a Europa da cumplicidade com ditaduras violou as sanções europeias para receber a número dois (actualmente número um) de uma ditadura sanguinária a meio da noite, às escondidas, num aeroporto.
Este é o homem. Esta é a "única referência moral da Europa" para além do Papa Leão XIV, segundo Ana Sá Lopes. Como católico que sou, perdoa-lhes, Senhor, que não sabem o que dizem.
Sánchez não defende Gaza e o Irão por princípio. Defende-os porque lhe é eleitoralmente conveniente, porque tem uma coligação que inclui partidos para quem a questão palestiniana é combustível de mobilização, e porque criticar Israel e os Estados Unidos é, no espaço político onde governa, uma forma barata de capital moral. É o tipo de "coragem" que não custa nada e rende muito. Os santos que não têm tentações são sempre os mais fáceis de canonizar. Churchill não tinha base eleitoral a contentar. Tinha uma guerra a ganhar.
No final, o artigo de Ana Sá Lopes é um produto reconhecível: a intelectualização e racionalização de uma simpatia política não assumida. O raciocínio tem a elegância de uma linha reta e a profundidade de uma piscina para crianças. Eu não faço de conta que tenho qualquer tipo de simpatia pelas ideias políticas de Pedro Sánchez, mas respeitaria a sua postura política se ele não tivesse o currículo (cadastro?) que tem.
Churchill não precisava de decretar o seu próprio heroísmo. A História tratou disso. Sánchez precisa de colunistas.
O artigo do Primeiro-Ministro para o Observador pertence claramente à terceira categoria: um exercício de auto-incensação em que o Governo surge como milagreiro de uma Pátria sem rumo.
Há países onde a justiça é cega. Em Portugal, no caso de José Sócrates, é sobretudo paciente. Paciente ao ponto de já roçar o estoicismo. Ou a resignação. Na verdade, é mais o mosoquismo.
Neste universo mental, a política internacional não é um confronto entre regimes com valores incompatíveis. É uma sequência de pareceres jurídicos, notas de rodapé e interpretações doutrinárias que fazem jurisprudência gerando precedente em que a moral é relativa.
O caso de Bruno Mascarenhas na Câmara Municipal de Lisboa tornou-se um manual prático de hipocrisia secular. O partido que denunciava nomeações por afinidade política e familiar descobriu que a afinidade, afinal, é uma competência altamente valorizada.
Para poder adicionar esta notícia aos seus favoritos deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.
Para poder votar newste inquérito deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.