Sábado – Pense por si

Gonçalo Levy Cordeiro
Gonçalo Levy Cordeiro Dirigente da IL
29 de maio de 2026 às 07:04

Churchill, perdão, Sánchez e os novos Acácios

A diferença nunca esteve nos princípios. Esteve apenas no clube. Pedro Sánchez foi tratado durante anos como o zénite moral da esquerda que ignorou a forma como ele vendeu os mais basilares princípios do unionismo espanhol para se manter no poder.

No “Primo Basílio”, Eça de Queiroz criou o Conselheiro Acácio: pomposo, moralista, convencido da sua superioridade refinada e sempre disponível para explicar ao povo ignorante o lado certo da História com as frases vácuas, óbvias, mas pejadas de solenidade. Um pseudo-intelectual de excelência. A personagem ressoou tanto na sociedade portuguesa que dela nasceu um adjectivo novo: acaciano.

Eça publicou o “Primo Basílio” em 1878. Em 2026, temos uma variante do Acácio: igual no tom, mas em vez de dizerem obviedades, dizem alarvidades. Eis os Conselheiros Lopes.

Nos últimos tempos, Ana Sá Lopes e Pedro Marques Lopes – os Acácios invertidos – explicaram-nos que Pedro Sánchez era um grande estadista europeu, um bastião democrático, um homem perseguido pelas forças obscuras da direita ibérica. Só viam virtudes. Qualquer crítica era populismo. Qualquer suspeita, imagino que seria “lawfare”. Qualquer escândalo, uma provável conspiração reaccionária contra um homem justo.

Havia apenas um problema: a realidade que tem o mau gosto de aparecer.

A mulher, Begoña Gómez. O irmão, David Sánchez. O ex-Ministro e seu confidente, Ábalos. O assessor deste, Koldo. O ex-Secretário da Organização do PSOE, Santos Cerdán. A prostituta favorita de Ábalos com empregos em empresas públicas, Jessica Rodriguez. O Delcygate. A Venezuela e Zapatero. Buscas à sede do PSOE. Áudios. Investigações. Subornos. Agentes da UCO (a PJ espanhola) pagos para sabotar as investigações a Sánchez, ao Governo e ao PSOE. A “fontanera” socialista Leire Díez. Eu podia passar o resto desta coluna a fazer name-dropping hispano-socialista.

Este último caso, o da “fontanera” já era conhecido, mas explodiu em dimensão com as buscas de 26 de Maio de 2026 à sede do PSOE. Além de “canalizadora”, “fontanera” significa uma pessoa que resolve tudo… Legalmente ou não. Em português, o melhor que temos é um “faz-tudo”. Em inglês seria um “fixer” como a personagem “The Wolf” de Pulp Fiction de Tarantino. Este caso não é tão sangrento, mas assassina o carácter: no fundo, o juiz Pedraz, acusa Díez de ter sido paga pelo PSOE (com faturas falsas) para arranjar podres sobre todas as pessoas que investigassem a família Sánchez, o Governo ou o partido, com o objectivo de condicioná-las.

O mesmo juiz refere-se a Pedro Sánchez como “el One”, expressão usada para designar o número um da estrutura, o vértice político da cadeia de comando. El One. Parece “Narcos” depois dos argumentistas terem aviado cinco garrafas de Rioja. Não é exatamente a alcunha que se espera do suposto guardião da integridade democrática europeia. Ou de um novo Churchill.

É por isto que os Conselheiros Lopes não são Acácios. Acácio dizia o evidente. Os Lopes negam o evidente. E tudo isto era evidente há já muito tempo. A mero título de exemplo: já faz dois anos que a mulher de Sánchez é suspeita de tráfico de influências e corrupção. Foi essa investigação sobre Begoña Gómez que levou à contratação da “fontanera” acima descrita. A confirmarem-se as suspeitas, Sánchez não era o líder de um Governo. Ele era o líder de uma máfia.

Mas o mais fascinante continua a ser o duplo critério. Imaginem por um instante que metade disto acontecia num governo do PP. Acham que os mesmos Conselheiros estariam a elogiar o personagem? Ou estariam — e bem — a exigir demissões, eleições antecipadas e um cordão sanitário moral?

A diferença nunca esteve nos princípios. Esteve apenas no clube. Pedro Sánchez foi tratado durante anos como o zénite moral da esquerda que ignorou a forma como ele vendeu os mais basilares princípios do unionismo espanhol para se manter no poder. A forma como se vendeu aos separatistas devia ser suficiente para descartá-lo para o caixote do lixo da moralidade, mas nada disso. Respaldaram-no. Hoje, Sánchez é um Presidente de um Governo cercado por suspeitas, investigações e escândalos em série, enquanto os seus admiradores mediáticos tentam desesperadamente fingir que nada disto é relevante.

Os Conselheiros Lopes continuam a olhar para Sánchez como os personagens de Eça olhavam para Paris: com devoção provinciana e reverência automática. Tudo isto como reflexo pavloviano de ele ser – no papel – anti-Trump na Guerra do Irão, o que não passa de um acicatar das hostes esquerdistas para disfarçar os embaraços pessoais e políticos. Não sei se em Espanha funcionou, mas em Portugal conseguiu. Os idiotas úteis comem o que se lhes põe no prato e agradecem no final.

Já vamos em onze casos judiciais a envolver o PSOE. A certa altura, até os mais devotos precisam de explicar um detalhe incómodo: quantos escândalos são necessários até deixar de ser uma cabala de “ultraderecha” e passar a ser apenas… o PSOE? Só os Conselheiros Lopes saberão.

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