Conheça em primeira mão os destaques da revista que irá sair em banca.
(Enviada semanalmente)
A fórmula política (PS ou PSD, é tudo igual, aqui) é esta: aumenta-se o salário mínimo, mantêm-se os restantes salários quase iguais e proclama-se a valorização do trabalho.
Em “No Country for Old Men”, os irmãos Cohen tinham um país que se tinha tornado demasiado violento e confuso para o velho xerife representado por Tommy Lee Jones. Ele percebe que as suas competências de outrora são insuficientes para lidar com o assassino encarnado por Javier Bardem. Se aqueles Estados Unidos não eram para velhos, Portugal é a antítese. Portugal não é para jovens. Só é bom quando eles estão longe: no Luxemburgo, em Londres, em Paris ou na Suíça. Gosta deles qualificados, fluentes, bem formados e produtivos — desde que estejam a pagar impostos noutro país.
Dizem-lhes para estudar, tirar uma licenciatura, acrescentar um mestrado, aprender línguas, aceitar um estágio, ganhar experiência, ser flexível e ter resiliência. Resiliência, em Portugal, é o termo predilecto para designar a obrigação de suportar uma vida permanentemente adiada.
Porque um jovem português passa grande parte da vida à espera. Espera por um emprego, por um contrato, por uma progressão, por uma casa para ter família, por uma creche e por um salário que lhe permita jantar fora sem transformar a refeição numa decisão digna de necessitar de aprovação do Orçamento do Estado. Esperar tornou-se uma competência essencial do mercado de trabalho português.
Entretanto, o país felicita-se. O salário mínimo sobe, o Governo anuncia-o com ar grave, os comentadores explicam que estamos perante uma “grande vitória social". Há aplausos, solenidade e uma espécie de orgulho patriótico por mais um aumento administrativo da “prosperidade” nacional.
Depois surge um pequeno pormenor desagradável: esta semana soubemos pelo Governador do Banco de Portugal que o salário mínimo já representa 91% do salário mediano. Ou seja, Portugal não está propriamente a enriquecer. Está a aproximar quase todos do mesmo patamar salarial e a chamar progresso à compressão da mediocridade. Se o prémio pela formação adicional é cada vez menor em relação àqueles que não estudam, então qual o incentivo para continuar a estudar?
A fórmula política (PS ou PSD, é tudo igual, aqui) é esta: aumenta-se o salário mínimo, mantêm-se os restantes salários quase iguais e proclama-se a valorização do trabalho. É uma espécie de socialismo contabilístico: não melhora estruturalmente a vida do país, mas oferece uma excelente sensação moral a quem nunca teve de contratar um trabalhador, abrir uma empresa ou olhar com atenção para um recibo de vencimento. E não, empregar os boys não conta.
Entretanto, um jovem licenciado percebe rapidamente a mensagem. Estudou cinco anos para ganhar pouco mais do que o salário mínimo. Se progredir, o Estado agradece-lhe cobrando mais impostos; se quiser comprar casa, descobre que os preços pertencem à Suécia e o salário pertence a Marrocos, sendo que aqui também pagará milhares de euros em impostos; se quiser ter filhos, percebe que a capacidade de constituir família passou a ser um luxo geracional.
E então faz aquilo que qualquer pessoa racional faz: sai. O país chama-lhe a prova de que “os portugueses são bons em qualquer lado”, porque “sistema de incentivos que leva ao êxodo da classe mais bem formada de sempre” seria uma formulação excessivamente desagradável para usar num seminário financiado por fundos europeus.
Depois organizam-se conferências sobre a emigração jovem. Há especialistas, mesas-redondas, relatórios, estratégias nacionais, secretários de Estado e ministros disponíveis para explicar que é preciso “criar condições” para os jovens regressarem. António Costa criou um “Programa Regressar” que durante 5 anos corta em 50% os impostos sobre os rendimentos para quem tiver emigrado. O atual Governo fez o IRS Jovem até aos 35. A mera existência destes programas são uma assunção da decrepitude do sistema fiscal português. Se ele fosse bom, eles não seriam necessários. Passados 5 anos num e aos 36 do outro, que incentivos é que haverá para ficar em Portugal? “Criar condições” é uma das expressões mais úteis da política portuguesa: permite parecer determinado sem obrigar a fazer absolutamente nada.
Reformar o Código do Trabalho? “Retira direitos aos trabalhadores”. Mas 50% dos trabalhadores recebem um salário que está pouco acima do salário mínimo. “Iria ser pior.” E baixar seriamente os impostos sobre quem trabalha? “Não há margem.” Simplificar licenciamentos? “Está em curso.” Reduzir a burocracia? “Foi criada uma comissão.” Atrair investimento? “Naturalmente, desde que não incomode ninguém, não altere nada e respeite integralmente todos os bloqueios que afastaram o investimento anterior.”
Portugal é um país extraordinário: quer salários europeus sem produtividade europeia, crescimento económico sem mudanças, empresas competitivas sem capital, jovens qualificados sem lhes pagar salários dignos e descidas de impostos enquanto aumenta a despesa do Estado. Cada Governo promete um alívio fiscal histórico e acaba a oferecer um ou dois euros por mês. Talvez dê para um almoço, desde que seja em casa dos pais.
A verdade é mais simples e menos confortável. Portugal transformou-se num país organizado para proteger quem já está instalado: quem já tem casa, emprego, contrato, rendas congeladas, carreira pública ou património consegue sobreviver razoavelmente bem. Quem começa agora recebe um tutorial intensivo sobre precariedade e miserabilismo.
A geração mais jovem não tem falta de mérito. Tem falta de país. Tem um país que lhe pede qualificações, mas remunera antiguidade; que lhe pede empreendedorismo, mas pune o risco; que lhe pede filhos, mas não lhe dá tempo, casa ou estabilidade; que lhe pede confiança no futuro, mas passa décadas a adiar todas as alterações que poderiam melhorar esse futuro.
Portugal não é um país pobre por azar. É um país pobre por escolha. Escolheu a prudência até à estagnação, o consenso até à paralisia, a proteção dos instalados contra a mobilidade de quem quer entrar, os pequenos remendos em vez das reformas e os discursos sociais em vez do crescimento económico.
Portugal escolheu aumentar o salário mínimo, porque reformar o país dá trabalho. Os jovens também fizeram uma escolha: compraram bilhete de avião. Só regressam para o verão.
A fórmula política (PS ou PSD, é tudo igual, aqui) é esta: aumenta-se o salário mínimo, mantêm-se os restantes salários quase iguais e proclama-se a valorização do trabalho.
A diferença nunca esteve nos princípios. Esteve apenas no clube. Pedro Sánchez foi tratado durante anos como o zénite moral da esquerda que ignorou a forma como ele vendeu os mais basilares princípios do unionismo espanhol para se manter no poder.
Numa metamorfose que merece estudo, André Ventura protagoniza uma conversão ideológica. André Ventura merece sobretudo um megafone emprestado pela CGTP e um lugar destacado na próxima greve geral.
Depois de oito anos como Presidente da Câmara de Lisboa e oito anos como Primeiro-Ministro, Costa descobriu o problema da habitação num discurso em Bruxelas. Dezasseis anos. Dois mandatos autárquicos e dois governamentais. Uma cidade inteira e um país inteiro. E foi preciso uma cadeira no Conselho Europeu para a epifania chegar.
Para poder adicionar esta notícia aos seus favoritos deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.
Para poder votar newste inquérito deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.