Numa metamorfose que merece estudo, André Ventura protagoniza uma conversão ideológica. André Ventura merece sobretudo um megafone emprestado pela CGTP e um lugar destacado na próxima greve geral.
Durante anos, Ventura apresentou-se aos jovens como a voz da ruptura. Era o homem contra o sistema, contra os subsídios, contra a irresponsabilidade orçamental, contra a esquerda que prometia tudo a todos e deixava a conta para quem vinha a seguir. O Chega vendia-se como a direita sem complexos: musculada, inimiga da dependência do Estado e amiga da autoridade. Tudo muito vigoroso. Tudo muito patriótico. Tudo muito TikTok. Até que chegou a reforma laboral.
E então o homem que vinha salvar Portugal do socialismo descobriu a sua vocação íntima para delegado sindical. Ventura passou a tratar a proposta de alteração à lei laboral como “escravatura moderna” e a colocar a descida da idade da reforma como condição política. Subitamente, a direita sem complexos apareceu de cravo ao peito (desta vez vermelho, não verde) a defender posições em tudo similares às do PCP.
A reforma laboral do Governo pode e deve ser discutida. Há matérias sérias em cima da mesa: contratos a termo, despedimentos, outsourcing, trabalho por turnos, direitos parentais, horas extraordinárias, equilíbrio entre flexibilidade e proteção. Tudo isto merece debate, escrutínio e, sobretudo, algum respeito pela inteligência dos portugueses. Mas Ventura não quer debate. Ventura quer efeito. Não quer discutir nada a fundo, quer incendiar títulos. Não quer corrigir desequilíbrios, quer baptizar a proposta com o nome mais dramático disponível no armazém da indignação e tratar os portugueses como estúpidos.
“Escravatura moderna” é uma expressão perfeita para quem não quer pensar muito. Tem a vantagem de ocupar espaço, fazer barulho e dispensar explicações. A desvantagem é ser absurda. Num país democrático, com Constituição, tribunais, sindicatos, eleições, Autoridade para as Condições do Trabalho e Parlamento, chamar escravatura a uma reforma laboral é transformar uma discussão séria numa feira de hipérboles. É pegar no Código do Trabalho e metê-lo dentro de uma buzina.
O mais revelador, contudo, não está na palavra “escravatura”. Está na exigência de baixar a idade da reforma. Aparentemente, a grande solução para os jovens portugueses — esses privilegiados que não conseguem “mandar cantar um cego” — é passarem a financiar reformas mais cedo para os seus pais e avós. É uma ideia brilhante, no mesmo sentido em que um buraco no casco também refresca um navio.
Claro que baixar a idade da reforma soa bem. Soa sempre bem. Quem trabalhou uma vida inteira quer descansar. Há profissões duras, carreiras longas, corpos gastos e injustiças reais. Ninguém sério deve tratar esse cansaço com desprezo. O problema é outro: em política, as coisas que soam bem costumam vir acompanhadas de uma pergunta desagradável. Quem paga?
E, quando alguém diz “o Estado paga”, quer dizer “os contribuintes pagam”. Neste caso, os contribuintes são os jovens que vão ver um corte ainda maior nas suas pensões do que aquele que já está previsto (quem tem 35 anos anos levará como pensão 40% do último salário antes de Ventura fazer o que quer seja).
Ventura sabe isto. Ele confia que os jovens não saibam. A CGTP, ao menos, nunca fingiu ser liberal. Nunca disse que vinha emagrecer o Estado, aliviar contribuintes, desburocratizar a economia ou dar primazia à iniciativa privada. A CGTP é o que é: um satélite do PCP. Ventura é diferente. Ventura vendeu a direita, serviu o sindicalismo e chamou-lhe povo. Quer baixar impostos e aumentar despesa. Quer menos Estado, mas mais colectivismo. Quer mercado quando fala com empresários e sindicalismo quando fala com trabalhadores. Quer parecer liberal nas entrevistas económicas, socialista nas pensões, nacionalista na embalagem e revolucionário nas redes sociais. Não é um programa político; é uma aplicação de entregas ideológicas ao domicílio, confiando que ninguém nota a dissonância cognitiva.
O abandono dos jovens é particularmente gritante. Porque esta geração já vive num contrato social avariado. Paga contribuições para um sistema cuja sustentabilidade é um esquema de Ponzi. Paga impostos para serviços públicos que não recebe. Paga rendas que comem salários. Paga casas que não consegue comprar. Agora, segundo Ventura, deve também pagar as suas compras de votos aos mais velhos. Ventura quer rebentar com o contrato intergeracional.
Porque, no país de André Ventura, ser jovem é ter o privilégio de pagar a conta, ouvir que isso é feito em nome do povo e ainda agradecer a coragem de quem a apresentou. O povo, claro, paga depois. E os jovens, como sempre, pagam primeiro.
Ventura: comprar votos dos velhos com o dinheiro dos jovens
Numa metamorfose que merece estudo, André Ventura protagoniza uma conversão ideológica. André Ventura merece sobretudo um megafone emprestado pela CGTP e um lugar destacado na próxima greve geral.
Depois de oito anos como Presidente da Câmara de Lisboa e oito anos como Primeiro-Ministro, Costa descobriu o problema da habitação num discurso em Bruxelas. Dezasseis anos. Dois mandatos autárquicos e dois governamentais. Uma cidade inteira e um país inteiro. E foi preciso uma cadeira no Conselho Europeu para a epifania chegar.
O artigo do Primeiro-Ministro para o Observador pertence claramente à terceira categoria: um exercício de auto-incensação em que o Governo surge como milagreiro de uma Pátria sem rumo.
Há países onde a justiça é cega. Em Portugal, no caso de José Sócrates, é sobretudo paciente. Paciente ao ponto de já roçar o estoicismo. Ou a resignação. Na verdade, é mais o mosoquismo.
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