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No meio da catástrofe na Venezuela “cada um ajuda como pode": "Ninguém fica de braços cruzados”

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Aleixo Vieira vai de Caracas às localidades mais afetadas pelos sismos procurar por quem precisa de ajuda. Fala de uma onda de solidariedade entre todos e assume que o país está a passar por "um desespero muito grande".

Há quem no, meio da catástrofe, arregace as mangas e vá ajudar quem precisa. É o caso de Aleixo Vieira, um emigrante português de 62 anos, que atendeu o telefone à SÁBADO quando ainda eram sete horas da manhã em Caracas, onde mora há 45 anos. Estava a preparar-se para sair de casa e fazer de carrinha os 27 quilómetros por montanhas que ligam a capital venezuelana à cidade de La Guaira, na região mais afetada pelos sismos que atingiram o país sul-americano no dia 24 deste mês. Planeia fazer este caminho, uma viagem que demora “40 minutos a uma hora”, todos os dias até que a situação esteja sob controlo. 

Equipas de resgate fazem buscas nos destroços para procurar vítimas
Equipas de resgate fazem buscas nos destroços para procurar vítimas Fernando Vergara/AP

Vai até ao meio dos destroços procurar feridos, mortos e ajudar em tudo aquilo que fizer falta. É conselheiro da comunidade madeirense na Venezuela e, por isso, faz a ponte entre quem está no país e as famílias que ficaram para trás na Madeira, “via WhatsApp”: “Se aparecer alguém que precise de ajuda, de localizar algum familiar e me der o nome da rua, eu vou lá e tento dar uma ajuda primária”, diz.

Descreve um cenário “obviamente devastador e terrível”, num português misturado com o espanhol de quem já vive há muitos anos na terra: Dos prédios que ficaram em pé “não há um que não tenha nenhuma fissura”. E continua: “É desesperante estar ali com os familiares aos gritos para ver se alguém [que está desaparecido] responde. De vez em quando ouve-se algum barulho, qualquer sinal, mas há um silêncio ensurdecedor ali no meio daquilo tudo”.

Mas no meio da catástrofe garante que “há muita solidariedade entre as pessoas”, e acrescenta dizendo que “cada um ajuda como pode, ninguém fica de braços cruzados”. Conta que a maior preocupação nos primeiros tempos era “tirar pessoas dos destroços”.  Encontrou num local “quatro portugueses a gritar soterrados debaixo de traves, colunas e paredes”. Não sabe se sobreviveram ou não e desabafa: “Toda esta situação é terrível. É muito triste. Ninguém estava preparado para isto”. 

“Um desespero muito grande”

Não fala sobre mortos. O número total de vítimas, diz, é “incalculável” e custa-lhe pensar em todas as pessoas que possam ter perdido a vida na catástrofe. A ajuda chega paulatinamente, mas garante que as autoridades portuguesas na Venezuela disponibilizaram-se desde a primeira hora. “Estamos a trabalhar em conjunto com as autoridades, a passar sempre informação ao consulado e a tentar documentar todas as pessoas que estão desaparecidas, que não conseguiram sair dos seus apartamentos”, explica.

Há muita gente que perdeu a casa e agora dorme nas ruas, “um desespero muito grande”, descreve, mas diz que o governo tem ajudado para atenuar a situação. Os campos de futebol e de golfe, afirma, estão a ser utilizados como “zona logística”, um espaço com tendas para que quem perdeu a habitação ou esteja impedido de voltar a casa possa dormir. Mas na tragédia ainda tenta brincar, como quem quer aliviar a dor: “Pelo menos o clima desta zona é quente e isso ajuda a aliviar [a situação]”.

E ainda deixa espaço para críticas. “O mundo tem de olhar para a Venezuela como um país amigo, especialmente Portugal. As pessoas só ligam ao lado político e esquecem-se de que do outro lado existem pessoas que sofrem”. Diz isto para exigir o fim das sanções económicas à Venezuela, que prejudicam o país em momentos de crise como estes: “Estamos a viver uma tragédia. Cada um tem de pôr a mão na consciência e deixar para trás essa atitude colonialista de quem acha que pode decidir o futuro dos outros países”, acrescenta Aleixo, num assumido desabafo.

Terminou a chamada a dizer que vai “voltar ao terreno dentro de duas horas”, pelas nove da manhã, com a carrinha carregada de pés-de-cabra, águas, kits de primeiros socorros e continuar a procurar por quem precise de ajuda. E conclui: “Neste momento não podemos fazer mais nada”.

Com Diogo Barreto

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