Portugal não precisa de menos pessoas. Precisa de menos aldrabice económica. Precisa de um Estado que saiba contar, planear e executar. Precisa de uma economia que deixe de tratar mão-de-obra barata como política industrial.
Portugal descobriu finalmente o denominador. Foi uma descoberta tardia, como quase tudo o que envolve o Estado português, mas comovente. Durante anos, fizemos contas à riqueza por habitante sem saber, com rigor, quantos habitantes havia. É como gerir um restaurante sem saber quantas mesas tem, mas garantindo aos clientes que a casa está cheia por mérito da cozinha. A cozinha, já agora, era a convergência.
Durante anos, venderam-nos a ideia de que Portugal estava a aproximar-se da Europa. Era tudo balelas. Uma daquelas ladainhas de António Costa que desembocava no comentário televisivo dos comentadores afectos ao PS e nos tweets dos medíocres domesticados. Supostamente, o país crescia, o défice sorria, o turismo enchia os restaurantes, os hotéis agradeciam, os patrões suspiravam de alívio e o Governo explicava que tudo isto era prova de uma economia dinâmica, moderna, vibrante, resiliente e outras palavras que costumam aparecer quando os salários continuam miseráveis. Depois chegaram os novos números. Uma chatice quando a narrativa bate na parede da realidade.
Afinal, Portugal não estava tão perto da média europeia como nos garantiam. Estava mais longe. Em 1999, o PIB per capita português era 85% da média da União Europeia. Em 2025, com os dados provisoriamente corrigidos, anda perto dos 76-77%. Isto não é convergência. É uma marcha-atrás feito com banda filarmónica, bandeirinhas europeias e comentadores a bater palmas no passeio.
O truque era simples: olhava-se para o PIB total e dividia-se o valor sempre pelo mesmo número de população residente e fingia-se que o país estava melhor. Só que este PIB per capita não existia, porque havia mais “capita”, ou seja, cabeças que ninguém contou: os imigrantes.
Quando alguém perguntava quantas pessoas moravam no prédio, respondia-se com indignação moral. Fazer contas era feio. Perguntar pelo impacto nos salários era populismo. Querer saber se havia casas suficientes para todos (spoiler alert: não há) era xenofobia. Exigir capacidade administrativa era falta de humanidade. O importante era manter a pose: Portugal aberto, tolerante, progressista, cosmopolita. Um país tão avançado que havia filas na AIMA às 3 da manhã para um atendimento às 9 da manhã.
O resultado está à vista: mais residentes, menos PIB per capita. Quase 1,6 milhões de imigrantes depois, correspondentes a 14% da população residente. O valor mais alto de sempre. Ou seja, mais pessoas a dividir um bolo que não cresceu o suficiente. A aritmética é uma coisa desagradável, porque não respeita spin. A aritmética entra na sala, apaga o PowerPoint do governo e pergunta: “por habitante, quanto é que há?” Como se vê, pouco.
Durante anos, António Costa e o socialismo governamental venderam convergência como vendedores de banha da cobra. Salários baixos? Crescimento, porque aumentámos o salário mínimo. Casas caras? Portugal atrai pessoas. Jovens a sair? Mobilidade europeia. Serviços públicos rebentados? Pressão conjuntural. Imigração descontrolada? Abertura ao mundo. A prova? O PIB per capita! Eis a convergência! Afinal, era tudo mentira.
E os comentadores? Essa classe sacerdotal que durante anos regurgitou a propaganda da convergência com a solenidade de quem anunciava uma descoberta científica. Alguns repetiram a narrativa do Governo com tal entusiasmo que quase mereciam avença retroativa. Muitos fizeram-no de borla, o que torna a coisa ainda mais escabrosa: se é para papaguear propaganda e passar vergonhas, ao menos que sejam pagos para isso.
Portugal não precisa de menos pessoas. Precisa de menos aldrabice económica. Precisa de um Estado que saiba contar, planear e executar. Precisa de uma economia que deixe de tratar mão-de-obra barata como política industrial. Precisa de uma elite que pare de confundir restaurantes cheios nas zonas chiques de Lisboa com prosperidade, hotéis ocupados com produtividade e crescimento agregado com melhoria de vida.
Durante anos disseram-nos que Portugal estava a apanhar a Europa. Afinal, quem nos apanhou foi a Polónia, a Hungria (sim, até a miserável Hungria de Orbán – sem fundos europeus! – nos ultrapassou) e a Roménia. Se no ano 2000 nos dissessem isto, rir-nos-íamos. Infelizmente para nós, não tem piada nenhuma.
Três partidos diferentes, unidos por uma característica cada vez mais evidente: nenhum parece ter uma ideia particularmente séria sobre o país que quer construir
Não é quem exige fronteiras funcionais que promove a extrema-direita. Promovem-na aqueles que transformam números em propaganda, fronteiras em preconceito e qualquer discordância num diagnóstico moral.
Portugal é um país sofisticado na arte da indignação seletiva. Temos uma balança para a incompetência dos adversários e outra, mais tolerante e almofadada, para as coincidências dos amigos.
A língua do poder local é um prodígio de canalização semântica. A água não falta: “o abastecimento encontra-se condicionado”. A rede não rebenta: “registou-se uma anomalia”. A gestão não falha: “foi activado um plano”.
Portugal não precisa de menos pessoas. Precisa de menos aldrabice económica. Precisa de um Estado que saiba contar, planear e executar. Precisa de uma economia que deixe de tratar mão-de-obra barata como política industrial.
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