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Mulher que perdeu marido e filho no Titan recebeu "o que restou dos corpos" 9 meses depois

Gabriela Ângelo
Gabriela Ângelo 29 de abril de 2026 às 13:40
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Em entrevista ao The Guardian Christine Dawood conta tudo sobre a morte do filho e do marido a bordo do submersível que levou um grupo de milionários até aos destroços do Titanic, bem como as informações ocultadas pelo CEO Stockton Rush sobre a viagem, que terminou em tragédia.

A 18 de junho de 2023 Suleman Dawood morreu juntamente com o pai de 48 anos, Shahzada, e outros três homens no submarino Titan, quando tentavam mergulhar para observar os destroços do Titanic. Estavam a 500 metros do navio quando o Titan implodiu. 

Submarino Titan, do OceanGate
Submarino Titan, do OceanGate Facebook/OceanGate

Numa entrevista ao jornal britânico , Christine Dawood conta tudo sobre a morte do marido e do filho, de 19 anos, e como o dono da OceanGate ocultou dados importantes sobre a viagem. 

Tudo começou em 2020, durante o confinamento, quando Dawood contou que tinha encontrado um anúncio de “uma oportunidade única na vida para mergulhar até ao Titanic”. “Estava a fazer scroll no Instagram”, recorda, “quando apareceu uma imagem de um submersível ao lado do Titanic, não consegui acreditar, liguei para a Quintessentially, a nossa agência de viagens pessoal, já nos tinham organizado viagens incríveis, à Antártida e à Groenlândia, por isso quando disseram que isto era possível, ficámos entusiasmados”. A OceanGate, fundada em 2009 por Stockton Rush, estava a prometer mergulhos turísticos até ao local do naufrágio.

Durante dois anos não receberam notícias, até 2022 quando a Quintessentially ligou a perguntar se ainda estavam interessados em visitar o Titanic, explicando que os dois lugares no Titan custariam 500 mil dólares. “Era uma fortuna”, admite Christine Dawood. Mas a família tinha meios para concretizar o sonho, Shahzada vinha de uma das famílias mais ricas do Paquistão. 

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Um ano depois, em 2023, Rush e a mulher Wendy, a diretora de comunicações da OceanGate, encontraram-se com os Dawood onde descreveram como seria a viagem até aos destroços do Titanic. Quando a conversa se encaminhou para questões mais técnicas, como a comunicação entre o submersível e o navio, Stockton afirmou que por vezes se perdia o contacto. “O corpo da Wendy ficou completamente rígido, ‘não gostamos nada quando isso acontece’”, recordou Christine. “Ela não conseguia fazê-lo ouvir, acho que ela via os riscos, percebia que havia algo que não estava bem, ele simplesmente ignorava”, afirmou. 

Mas havia outras questões que Rush tinha ignorado, e que só vieram a saber-se depois da tragédia. Nesse encontro não mencionou o número de mergulhos abortados e as centenas de problemas técnicos que tinham afetado o Titan nas suas duas curtas temporadas no oceano Atlântico. Nem que, em julho de 2022, durante uma subida, os passageiros tinham ouvido um estrondo que fez o submersível tremer, algo que nunca foi investigado. Nem que operava fora dos padrões regulamentares, recusando inspeções ou certificações por parte de qualquer autoridade marítima. O Titan nem estava registado para transportar passageiros.

A viagem

Finalmente o dia chegou. Por volta das 08h00, 13h00 em Portugal Continental, a 18 de junho de 2023, Stockton Rush, Hamish Harding, Paul-Henri Nargeolet, Shahzada Dawood e o filho, Suleman Dawood, embarcaram no Titan, que em três horas estaria no fundo do oceano. Um hora e meia depois o navio perdeu as comunicações com o submarino e, ao final da tarde, o Titan foi declarado desaparecido. 

Poucos dias depois foram encontrados alguns destroços do submarino, concluiu-se que tinha implodido e que os cinco passageiros tinham morrido. “O meu primeiro pensamento foi 'Graças a Deus'”, admitiu Dawood. “Quando falaram em catástrofe, eu sabia que o Shahzada e o Suleman nem sequer tinham conhecimento do que se passava. Num instante estavam lá e, no momento seguinte, já não estavam. Saber que não sofreram foi muito importante. Eles partiram, mas a forma como partiram torna tudo, de alguma forma, mais fácil”, afirmou. 

“Só recebemos os corpos nove meses depois”, partilha ainda Christine. “Bem, quando digo corpos, refiro-me ao que restou, vieram em duas caixas pequenas do tamanho de caixas de sapatos”, descreve. 

Os restos mortais foram recuperados do fundo do mar e submetidos a testes de ADN pela Guarda Costeira norte-americana. “Não havia muito que pudessem encontrar”, recorda, dizendo que, dos restos que foram encontrados, quer humanos, quer do Titan, Christine pediu receber apenas o que pertencia a Suleman e Shahzada. 

O relatório oficial concluiu que a tragédia era evitável e que foi causada por falhas de engenharia e testes inadequados. Se Rush tivesse sobrevivido, teria enfrentado um processo criminal.

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