Covid-19: Especialistas alemães temem radicalização de protestos contra confinamento

Lusa 12 de maio de 2020
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Desde o início da crise do coronavírus, registou-se um aumento da "normalização" do racismo e do antissemitismo na Alemanha.

Especialistas alemães em violência e extrema direita alertaram hoje para a possibilidade de os protestos que se têm repetido nas últimas semanas em todo o país contra as medidas de confinamento e distanciamento social poderem tornar-se radicais.

"O efeito da mobilização vai muito além da extrema direita, mas a direita radical, incluindo a AfD (partido de extrema direita, Alternativa para a Alemanha), é um ator importante e, em parte, um dos motores desse movimento", alertou o especialista em antissemitismo Gideon Botsch.

"A dinâmica foi muito rápida e, em apenas três semanas, passaram de ameaças e comportamentos agressivos aos primeiros atos violentos. Isso possibilita e faz recear novos surtos de radicalização da extrema direita", acrescentou Botsch, que dirige o Centro de Investigação Julius Gumbel.

Numa conferência de imprensa em Berlim para apresentar estatísticas sobre a violência de extrema direita em 2019, o especialista defendeu que não se pode colocar "no mesmo saco" todos os protestos contra as medidas de proteção no âmbito da pandemia de covid-19 decretadas pelo governo alemão.

No entanto, identificou um elemento determinante entre as mobilizações de extrema direita a partir de 2015 contra a política de aceitação de refugiados e os protestos atuais: as teorias da conspiração que pedem resistência contra um suposto plano das autoridades para controlar a população.

Além disso, Botsch alertou que nos protestos mais recentes estão a ser explicitamente demonstrados "estereótipos antissemitas que estavam latentes", citando como exemplo uma manifestação em Brandemburgo na qual os protestos responsabilizavam a família Rothschild e uma elite secreta "que mentiu e controlou a população durante séculos" pela pandemia.

A diretora da Associação de Centros de Aconselhamento para Vítimas de Violência da Direita (VBRG), Judith Porath, defendeu a mesma ideia, denunciando um aumento da "normalização" do racismo e do antissemitismo desde o início da crise do coronavírus.

Desde o início da pandemia, a imprensa alemã relatou vários casos em que cidadãos de origem asiática foram ameaçados e atacados por indivíduos que os responsabilizavam pela disseminação do vírus.

Segundo a diretora da associação, nos últimos meses, o sentimento de vulnerabilidade e falta de proteção expresso pelas vítimas de agressões da extrema direita que chegam aos centros VBRG tem aumentado, facto que atribuiu à normalização dos discursos racistas na esfera política.

De acordo com dados recolhidos pela organização, que abrange metade dos 16 estados federais da Alemanha, foram registados 1.347 atos violentos da extrema direita em 2019, com um total de 1.982 afetados diretamente, o que representa uma média de cinco agressões por dia.

Embora a taxa tenha diminuído 10% em relação a 2018, Porath alertou que, segundo dados da polícia, em alguns estados federais que não estão incluídos nas estatísticas, o número de ataques violentos duplicou em relação ao ano passado.

Porath também destacou a maior agressividade dos atos registados em 2019, incluindo dois ataques: o que acabou com a vida do presidente de câmara Walter Lübcke e o da sinagoga na cidade de Halle, que provocou duas mortes entre os transeuntes.

A estes, deve-se acrescentar o ataque ocorrido em 19 de fevereiro na cidade de Hanau (Alemanha central), na qual um elemento da extrema direita assassinou nove pessoas imigrantes.

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