O que começou com uma brincadeira entre amigos de infância, culmina agora numa digressão com mais de 50 espetáculos agendados por todo o mundo. Face ao sucesso do quarto álbum de estúdio que lançaram,
Gettin ’Killed (2025), a banda norte-americana Geese, formada por músicos com entre 20 e 23 anos, encontra-se numa trajetória ascendente para se tornar a “primeira grande banda de rock da Geração Z”, como já a descreveu a estação britânica BBC. A geração Z inclui jovens nascidos entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2010 - ou seja, rapazes e raparigas que hoje são ou adolescentes ou adultos com menos de 30 anos.
“São os Nirvana da nossa geração”, afirmou um jovem fã à revista digital
Dazed, que fez a cobertura do último espetáculo da fase norte-americana da digressão que promove o novo álbum.
Gettin’ Killed, produzido pela banda e pelo produtor Kenny “Beats” Blum em apenas dez dias, foi lançado em setembro de 2025 e despertou a atenção da crítica internacional, colhendo elogios de publicações como o site musical Pitchfork, a revista Rolling Stone e a estação britânica BBC.
Na
SÁBADO,
Gettin' Killed foi incluído na lista de álbuns do ano, tendo sido assim descrito: "Há muito que o mundo da música não parava por uma banda de rock desta forma. Black Midi ou Black Country, New Road chegaram perto, mas os Geese alcançaram a proeza de misturar um leque de influências - de Strokes a Radiohead ou Slint - num todo apelativo e digerível, e ainda assim intrigante e muito identitário. Com mais discos a caminho, prometem manter-se em rotação nos próximos tempos."
Atualmente a banda prepara-se para a segunda fase da digressão mundial de promoção de
Gettin’ Killed, a maior da carreira dos Geese até à data, com aproximadamente 57 espetáculos distribuídos entre os Estados Unidos, Europa e Canadá. Não existem, para já, atuações anunciadas em Portugal.
A originalidade como trunfo
Há quem lhes aponte influências como The Strokes, The Velvet Underground e Radiohead, mas a opinião, relativamente unânime, é que a banda está a traçar o próprio caminho com uma sonoridade original, audaz e letras desinibidas. “Crescemos com a internet, onde se pode ouvir tudo e mais qualquer coisa”, chegou a dizer Emily Green, baixista do grupo, numa entrevista para a revista NME.
Os integrantes dos Geese são naturais do bairro de Brooklyn, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, e frequentaram escolas
que incluem no currículo formação em artes performativas e visuais, um potencial fator no desenvolvimento de sensibilidade artística dos músicos.
“São jovens e acessíveis, ao contrário de muitas outras bandas de rock [que apareceram] nos últimos 10 anos, que parecem pouco originais. Nesse aspeto, [os Geese] são muito especiais”, apontou outro fã de 22 anos à revista
Dazed.
A banda foi formada em 2016 e é composta por Cameron Winter (vocais), Emily Green (guitarra), Dominic DiGesu (baixo) e Max Bassin (bateria). O nome do grupo é uma referência a uma alcunha de Emily Green, dada pelos amigos de liceu.
“O nosso primeiro concerto foi no princípio de 2017 e na altura tínhamos um nome diferente e muito constrangedor”, contou Cameron Winter numa entrevista para a BBC. “Depois do concerto, fomos jantar com as nossas famílias e começámos discutir vários nomes aleatórios. O nome é inspirado pela alcunha da Emily (
goose) então, optamos pelo plural da palavra para nos incluir a todos e foi o nome que acabou por ficar melhor.”
Entre 2018 e 2019, Geese lançaram dois mini-álbuns e um álbum de estreia,
A Beautiful Memory (2018), com distribuição exclusiva por
streaming e através
download digital e com produção totalmente independente.
“É muito fixe pensar nestes projetos em retrospectiva, por mais que não sejam uma boa representação de quem somos como banda”, refletiu o baixista, Dominic DiGesu. Atualmente, esses trabalhos já não estão disponíveis na internet.
Uma banda que esteve para acabar
Os lançamentos de Geese enquanto ainda eram alunos de secundário captaram a atenção do produtor musical Dan Carrey, conhecido por produzir discos de bandas como Tame Impala e Franz Ferdinand.
Produzido por Dan Carrey e gravado na cave do baterista Max Bassin,
Projector, o segundo álbum dos Geese, foi lançado em 2021. O disco foi gravado entre 2019 e 2020 e era suposto ser o último projeto de Geese, já que alguns dos membros se preparavam para se concentrar nos estudos em universidades como a Berklee College of Music em Boston, nos Estados Unidos.
“Pensávamos que o
Projector seria o nosso último projeto até que começámos a ganhar atenção. Depois aconteceu a pandemia e ficámos com bastante tempo nas mãos para decidir o que íamos fazer”, recorda Max Bassin. A banda acabou por decidir suspender os estudos e assinar um contrato com a editora discográfica
Partisan Records.
No princípio de 2023, os Geese lançam o álbum
3D Country, produzido por James Ford, conhecido por trabalhar com as bandas Arctic Monkeys, Depeche Mode e Pulp. O álbum acompanha a jornada pelo deserto de um cowboy sob efeito de drogas psicadélicas e as reflexões da personagem durante a experiência. Neste disco, os Geese expõem uma sonoridade country-rock com influências de teatro musical e jazz. Já em outubro de 2023, o grupo lançou um EP, ou mini-álbum, intitulado
4D Country, com material que ficou excluído do álbum lançado no início do ano.
3D Country teve reações favoráveis da crítica, tendo sido descrito pela revista Rolling Stone como “um dos melhores álbuns de rock nova-iorquino dos últimos anos”. No final do ano, a Rolling Stone voltou a mencionar
3D Country, colocando-o entre os 40 melhores lançamentos de indie-rock de 2023. No ano seguinte, o vocalista Cameron Winter lançou o álbum a solo
Heavy Metal, cujo sucesso entre críticos impulsionou ainda mais a popularidade da banda.
Nada faria prever, no entanto, o impacto do que se seguiria: com
Getting Killed, a banda alargou o seu público, encontrou novos fãs, conquistou o coração da crítica internacional e entrou no leque de grupos a quem, de tempos a tempos, "o futuro do rock" é atribuído. Que os Geese sejam a banda que voltará a trazer o rock para as tendências mainstream no presente e no futuro, não parece, por ora, provável. Que já ganharam um lugar no coração dos melómanos e dos fãs desse género musical, disso não restam dúvidas.