Subornos do saco azul do BES passaram por “dezenas, milhares de pessoas”, diz procurador

Subornos do saco azul do BES passaram por “dezenas, milhares de pessoas”, diz procurador
Carlos Rodrigues Lima 08 de fevereiro

Além de complementos de ordenados a alguns quadros do antigo BES e a suspeitas de corrupção nos casos Operação Marquês e EDP, o procurador José Ranito diz que a utilização da ES Enterprises foi muito mais longe

A ES Enterprises, entidade conhecidas nos últimos anos como o "saco azul" do antigo Banco Espírito Santo (BES), terá sido utilizada para movimentar dinheiro relativo a subornos de "dezenas, milhares de pessoas". A afirmação é do procurador José Ranito, responsável pela investigação do caso BES, e foi proferida durante um interrogatório, em setembro de 2015, a Francisco Machado da Cruz, o contabilista que supervisionou as contas da Espírito Santo International.

A diligência do Ministério Público decorreu entre os dias 24 e 25 de setembro de 2015, já o banco tinha falido e as investigações às suspeitas de fraude estavam em curso. Sentado num gabinete do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), na companhia do seu advogado, Miguel Cordovil de Matos, o contabilista (comissaire aux comptes) foi interrogado - já depois de ter sido ouvido como testemunha em novembro de 2014 - pelos procuradores José Ranito e Olga Barata, acompanhados por elementos do Banco de Portugal, Comissão de Mercados e Valores Mobiliários (CMVM) e Polícia Judiciária.

A certa altura do interrogatório, e perante a insistência do procurador sobre o dinheiro que passou pela ES Enterprises e o buraco descoberto em 2014, Francisco Machado da Cruz ter sabido que, ao longo de muitos anos, passaram três mil milhões de euros pelo saco azul do BES.  "Eu não tinha ideia nenhuma", disse o contabilista, que foi, de imediato, interpelado pelo José Ranito: "Eu gostava de saber, como é que, havendo uma contabilidade das empresas do grupo, os senhores fazem mapas consolidados, não interessa se depois os revertem para documentos oficiais, mas os senhores têm mapas consolidados que, vos atestam as entradas de dinheiro para todo o lado, as saídas de dinheiro para todo o lado, e não sabe que há um buraco de 2.9 mil milhões, numa coisa que se chama, ES Enterprises?". "Não sabia", insistiu Machado da Cruz.

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