Curiosidades dos Mundiais de futebol (6): A birra da França e um sheik no campo
Em 1978, o Brasil não ganhou mas proclamou-se "campeão moral". A França teve de jogar com camisolas verdes às riscas e houve um golo anulado com a bola "no ar". O Espanha 82 teve um campeão de empates, o recorde de 10-1, a estreia dos penáltis e um sheik a contestar o árbitro.
O Mundial 2026 começa no próximo dia 11 de junho, com o México-África do Sul como jogo de abertura – vai acontecer no estádio Azteca, da Cidade do México, que vai ser o primeiro a receber partidas de três Mundiais (o México organizou o torneio em 1970 e 1986). Este é também o primeiro Mundial de futebol a realizar-se em três países (Estados Unidos, México e Canadá), algo que vai voltar a acontecer em 2030, pois a competição desse ano decorrerá em Espanha, Portugal e Marrocos. Enquanto não começa a febre dos jogos (e este ano serão, no total, 104, pois este vai ser o Mundial com mais seleções de sempre, 48), veja aqui algumas curiosidades ao longo de quase 100 anos da história da prova. Até ao início, vamos publicar todos os dias curiosidades à volta de dois Mundiais, num total de 11 textos. Este aborda os Mundiais de 1978 e 1982.
Mundial 1978
País organizador: Argentina
Vencedor: Argentina
1. Houve vários contratempos na organização do Mundial, e alguns estádios só ficaram concluídos muito perto do início da prova, o que levou a que os relvados, ainda mal consolidados, se soltassem com tufos de relva sob os pés dos jogadores.
2. Já eliminadas (devido a duas derrotas nos dois primeiros jogos), França e Hungria enfrentaram-se em Mar del Plata. A FIFA tinha determinado que os húngaros jogavam de branco e os franceses de azul. Mas os responsáveis da Federação Francesa, irritados por considerarem que a equipa fora prejudicada pelas arbitragens, mandaram a França comparecer de branco, gerando-se ali um imbróglio. O árbitro, o brasileiro Arnaldo Cezar Coelho, exigiu que os franceses trocassem de equipamento, e tudo se resolveu com a ajuda do Kimberley, um clube amador de Mar del Plata, que cedeu as camisolas verdes e brancas de riscas verticais.
3. A Tunísia fez história ao tornar-se a primeira seleção africana a ganhar um jogo num Mundial – venceu 3-1 o México. E também empatou 0-0 com a Alemanha Ocidental, só perdendo com a Polónia – a Alemanha acabou por passar em 2º lugar e a Tunísia ficou em 3º.
4. O México fez um investimento brutal na preparação da equipa, gastando 200 milhões de dólares – o objetivo era conseguir o melhor resultado de sempre num Mundial. Mas o balanço foi amplamente negativo: três jogos, três derrotas, dois golos marcados e 12 sofridos.
5. O Brasil não ganhou a prova, mas não perdeu um único jogo, e proclamou-se “campeão moral”. Foi afastado da final devido à diferença de golos com a Argentina. Acabou no seu grupo com os mesmos pontos dos anfitriões, mas com menos dois golos marcados, sendo a goleada da Argentina ao Peru (6-0) decisiva – um jogo que levantou muitas dúvidas, surgindo rumores de que os peruanos facilitaram. Em 1986, o Brasil voltou a sair da competição sem perder (afastado nos penáltis pela França), num Mundial que voltaria a ter a Argentina como vencedor.
6. O Brasil-Suécia, da primeira fase, terminou em polémica. Com 1-1 no marcador, já nos descontos há um canto para os brasileiros, e na sequência do lance Zico, de cabeça, fez o golo que daria o 2-1. No entanto, o árbitro, o galês Clive Thomas, disse que o golo não contava porque ele apitou para o fim do jogo quando a bola ainda estava no ar. O Brasil protestou, mas de nada valeu. Ainda assim, o árbitro nunca mais apitou jogos num Mundial.
7. Para disputar os seus sete jogos, o Brasil percorreu 4.659 km, enquanto a anfitriã Argentina fez apenas 618. Talvez pelo desgaste, a seleção brasileira usou 17 dos 22 jogadores convocados. E apenas quatro fizeram as sete partidas completas: Leão, Oscar, Amaral e Batista.
8. Na final, entre Argentina e Holanda, um adepto argentino, de 49 anos, sentiu-se mal (teve um problema cardíaco) no momento em que o o atacante holandês Rob Rensenbrink acertou com a bola na trave da baliza do guarda-redes Ubaldo Fillol. Foi socorrido e recuperou, podendo festejar o triunfo da Argentina.
Mundial 1982
País organizador: Espanha
Vencedor: Itália
1. Foi o primeiro Mundial a contar com 24 seleções na fase final. No total, houve 105 países que estiveram nas eliminatórias.
2. A Hungria venceu El Salvador por 10-1 e tornou-se a seleção, até hoje, que marcou mais golos num só jogo de um Mundial – embora tenha havido duas seleções a ganhar também por nove golos de diferença (a própria Hungria, que em 1954 goleou a Coreia do Sul por 9-0, e a Jugoslávia, que bateu o Zaire por 9-0 em 1974).
3. A Itália seria campeã mundial, mas na primeira fase não ganhou um único jogo: empatou 0-0 com a Polónia e 1-1 com Peru e Camarões. Apenas seguiu em frente porque tinha marcado mais um golo do que os Camarões, pois a equipa africana também teve três empates, mas frente a Polónia e Peru ficou-se por dois 0-0.
4. O RFA-Áustria ficou conhecido como o “Jogo da Vergonha”. Isto porque na última partida do grupo, os austríacos apenas precisavam de um empate para passar e uma derrota por apenas um golo também serviria. Assim, quando a Alemanha Ocidental fez o 1-0, logo aos 10 minutos (resultado que também permitia aos germânicos seguir em frente), as duas equipas passaram o resto do tempo apenas a trocar a bola, sem tentarem criar oportunidades de golo, ignorando as assobiadelas e apupos do público. Por causa desse episódio, a FIFA decidiu instituir uma regra em que os últimos jogos da fase de grupos de um Mundial (e também em Europeus ou em provas das competições europeias) têm de decorrer todos à mesma hora.
5. A França venceu o Kuwait por 4-1, num jogo que ficou marcado pela invasão de campo por parte do sheik Fahad al-Sabab, presidente da Federação do Kuwait, que protestou um golo da França, considerando que tinha sido obtido de forma ilegal – seria o 4-1, mas o árbitro invalidou-o. O resultado iria mesmo ficar em 4-1, pois Bossis ainda marcou aos 90 minutos.
6. Nas meias-finais, o França-RFA foi o primeiro jogo de um Mundial decidido nos penáltis, com os alemães a vencerem por 5-4, depois de uma recuperação incrível no prolongamento (estiveram a perder 3-1 e empataram em apenas sete minutos).
7. O jogo ficou marcado por uma polémica com o guarda-redes alemão Harald Schumacher, que agrediu Patrick Battiston, que caiu no chão inanimado. Apesar disso, o guardião não recebeu qualquer admoestação por parte do árbitro, o holandês Charles Corver.