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Curiosidades dos Mundiais de futebol (11): Suspeitas de corrupção, o VAR e os autogolos

Carlos Torres 10 de junho de 2026 às 08:00

Os Mundiais da Rússia e do Qatar foram "comprados"? Estes torneios assistiram à implantação definitiva da tecnologia, comprovaram a crise do futebol italiano e a previsão de que poderiam ser os palcos da despedida de Messi e Ronaldo - mas eles teimam em continuar.

O Mundial 2026 começa no próximo dia 11 de junho, com o México-África do Sul como jogo de abertura – vai acontecer no estádio Azteca, da Cidade do México, que vai ser o primeiro a receber partidas de três Mundiais (o México organizou o torneio em 1970 e 1986). Este é também o primeiro Mundial de futebol a realizar-se em três países (Estados Unidos, México e Canadá), algo que vai voltar a acontecer em 2030, pois a competição desse ano decorrerá em Espanha, Portugal e Marrocos. Enquanto não começa a febre dos jogos (e este ano serão, no total, 104, pois este vai ser o Mundial com mais seleções de sempre, 48), veja aqui algumas curiosidades ao longo de quase 100 anos da história da prova. Até ao início, vamos publicar todos os dias curiosidades à volta de dois Mundiais, num total de 11 textos. Este aborda os Mundiais de 2018 e 2022. 

Mundial 2018

País organizador: Rússia

Vencedor: França

1. O Mundial da Rússia tornou-se a edição mais cara de sempre, estimando-se que o custo total foi de 12,5 mil milhões de euros (seria depois ultrapassada pelo Catar 2022, que custou 118,6 mil milhões). Foi também a primeira em que se usou o VAR. E, graças à tecnologia, o Mundial 2018 bateu o recorde de penáltis assinalados, com 29, mais 12 do que o anterior máximo, em 1998.

2. A primeira seleção a beneficiar do VAR foi a França, ao ganhar um penálti frente à Austrália, logo no primeiro jogo, depois de o árbitro uruguaio Andres Cunha ter consultado o vídeo-árbitro – Griezmann fez o 1-0 aos 58 minutos. Na final, contra a Croácia, há novo lance de penálti validado pelo VAR para a França, com Griezmann a fazer, na altura (38 minutos) o 2-1 – iria terminar 4-2 para os gauleses.

3. A Rússia deu conta do seu interesse em organizar o Mundial 2018 ainda em 2009, com Vladimir Putin a avisar que o país poderia gastar mais de 10 mil milhões de euros, apresentando uma candidatura com 14 cidades, sendo 13 na parte europeia do país (a exceção seria Ecaterimburgo), para facilitar as viagens das seleções participantes – a versão final ficaria com 11 cidades (e 12 estádios), todas na zona europeia.

4. A candidatura russa seria a vencedora (batendo a de Inglaterra e as de Portugal/Espanha e Bélgica/Holanda), mas a escolha iria revelar-se polémica, existindo suspeitas de corrupção. Em 2014, o jornal Sunday Times publicou uma reportagem revelando uma troca de emails com pagamentos a dirigentes federativos para que votassem na candidatura da Rússia.

5. A anexação da Crimeia (pertencente à Ucrânia), em 2014, levou também a que surgissem vozes discordantes da candidatura e a exigirem que a fase final fosse transferida para outro país. No entanto, Joseph Blatter, presidente da FIFA, veio afirmar que a Rússia ganhou na votação o direito a organizar o Mundial e por isso iria “prosseguir com o seu trabalho”.

6. A Alemanha, campeã em 2014, foi eliminada na fase de grupos, algo que aconteceu em quatro das cinco edições anteriores da prova, o que levou a que se começasse a falar da “Maldição dos Campeões”. Esta foi também a primeira vez que a Alemanha não passou da primeira fase de um Mundial.

7. Portugal ficou no grupo B, com Espanha, Marrocos e Irão. Estreou-se com um empate (3-3) frente aos espanhóis (com um hat-trick de Cristiano Ronaldo), seguindo-se uma vitória tangencial (1-0) sobre Marrocos. Na última jornada, a seleção nacional empatou surpreendentemente com o Irão de Carlos Queiroz (Ronaldo falhou um penálti), sofrendo o 1-1 aos 90+3, tendo acabado em 2º lugar – e não aproveitando o empate de Espanha diante de Marrocos (2-2). Nos oitavos, Portugal perdeu 2-1 com o Uruguai, sendo eliminado.

8. A dois dias do jogo com Portugal, a Espanha ficou sem selecionador. Ao saber-se que Julen Lopetegui (que tinha sido treinador do FC Porto) iria ser o técnico do Real Madrid a seguir ao Mundial, o presidente da Federação, Luis Rubiales, decidiu despedi-lo. Para o seu lugar foi o diretor desportivo da Federação, Fernando Hierro, antiga figura do Real Madrid, onde jogou entre 1989 e 2003.

9. A França foi campeã mundial, mas o primeiro jogo, contra a Austrália, deixou a desejar (o 2-1 da vitória só iria surgir aos 81 minutos, num autogolo). O selecionador, Didier Deschamps, deu uma grande descasca aos jogadores, como revelou mais tarde um documentário do canal TF1, em que se vê o técnico, com dados estatísticos e vídeos, a apontar o dedo a vários jogadores.

10. Apesar do abanão, a França continuou de serviços mínimos, vencendo o Peru por 1-0 (o primeiro golo de Mbappé num Mundial) e empatando (0-0) com a Dinamarca. Mbappé deu nas vistas nos oitavos, ao bisar na vitória (4-3) sobre a Argentina, marcando também na final, no triunfo (4-2) sobre a Croácia, acabando eleito o melhor jovem da prova.

11. O Rússia 2018 permitiu ao egípcio Essam El-Hadary fazer história, ao tornar-se o mais velho de sempre a disputar um Mundial, sendo titular na partida com a Arábia Saudita. Com 45 anos, e apesar da derrota (2-1), ainda se destacou ao defender um penálti. Este Mundial foi ainda aquele com mais golos na própria baliza – foram 12 –, sendo que a Rússia assinou dois.

12. O Mundial da Rússia teve duas bolas oficiais: na fase de grupos usou-se a Telstar 18, um tributo à Telstar original, do Mundial de 1970, no México; e nos jogos a eliminar foi a vez da Telstar Mechta (com “mechta” a significar sonho ou ambição em russo). A Adidas garantia que esta era a melhor bola alguma vez usada num Mundial, mas houve muitas críticas, sobretudo pelas súbitas mudanças de direção e pela falta de texturas (os painéis da bola são colados entre si), o que dificultava que os guarda-redes a conseguissem agarrar.

Mundial 2022

País organizador: Qatar

Vencedor: Argentina

1. O Qatar tornou-se o país mais pequeno a sediar um Mundial (antes era a Suíça, em 1954), com os jogos a desenrolarem-se em apenas cinco cidades e oito estádios (é preciso recuar até ao Argentina 1978 para se encontrar um Mundial que usou tão poucas infra-estruturas – foram cinco cidades e seis estádios). No Qatar, a maior distância entre estádios era de 70 km, a segunda menor de sempre (em 1930, no Uruguai, os jogos realizaram-se todos na mesma cidade, Montevideu, em três estádios). Depois de 1930, esta foi a única vez que os jogadores não precisaram de andar de avião para se deslocarem para os jogos.

2. Foi a primeira vez que um Mundial não se disputou a meio do ano (verão no hemisfério ocidental), realizando-se entre 20 de novembro e 18 de dezembro. Tudo para evitar as altas temperaturas do país do Médio Oriente em junho e julho, em que o normal é estarem acima dos 40 graus e raramente baixam dos 30 graus. Para combater o calor, os estádios do Qatar tinham sistemas de refrigeração, capazes de reduzir os termómetros até 20 graus.

3. O Mundial 2022, à semelhança do que aconteceu na Rússia, em 2018, ficou marcado pelas suspeitas de corrupção (e ainda de lavagem de dinheiro), surgindo notícias de que a escolha do Qatar foi “comprada” pelos petrodólares dos sheikhs. Em 2015, a FIFA realizou uma investigação para apurar essas possíveis irregularidades, concluindo que não foi cometido qualquer crime.

4. Além da corrupção, no Qatar houve a polémica das condições desumanas dadas aos operários que construíram os estádios. Em 2016, a Amnistia Internacional já dava conta da existência de centenas ou até milhares de imigrantes que tinham morrido vítimas de trabalhos forçados ou condições precárias.

5. Uma reportagem do jornal The Guardian revelava como os operários eram verdadeiros escravos, trabalhando longas horas, sem água ou comida e sem salários, completamente reféns dos empregadores. Em 2021, o The Guardian fez um levantamento junto das autoridades de cinco países de onde são originários a maioria dos imigrantes e deu conta de que morreram no Qatar, entre 2011 e 2021, mais de 6500 trabalhadores imigrantes vindos de Índia, Paquistão, Nepal, Bangladesh e Sri Lanka, suspeitando-se de que a maioria das mortes foram de operários ligados à construção das infra-estruturas do Mundial 2022. Já as autoridades do Qatar consideraram esses números “um exagero” e admitiram que morreram “apenas” 37 trabalhadores na construção dos estádios.

6. A Itália foi a grande ausente do Qatar 2022, não estando num Mundial pela segunda vez consecutiva (vai falhar também a edição de 2026, comprovando que o futebol italiano está em crise). Em 2018, a Itália foi eliminada pela Suécia num playoff a duas mãos, mas em 2022 o escândalo foi maior, pois a seleção transalpina (três vezes campeã mundial) foi afastada logo pela Macedónia do Norte, o primeiro adversário do playoff, numa eliminatória a uma só mão, perdendo em casa (Palermo) por 1-0. Não seguiu assim para a ronda final, onde defrontaria Portugal, que derrotou os macedónios e apurou-se para o Qatar 2022.

7. Portugal acabou o seu grupo do Mundial em 1º lugar, vencendo os dois primeiros jogos (Gana e Uruguai), e perdendo (já estando apurado) o terceiro, frente à Coreia do Sul (que assim também seguiu em frente). Nos oitavos, Portugal foi afastado (derrota por 1-0) por Marrocos. A seleção do Norte de África foi uma das grandes surpresas do Mundial, tornando-se a primeira do continente africano a alcançar as meias-finais da prova, eliminando, depois de Portugal, a Espanha (nos penáltis) – os marroquinos seriam afastados pela França nas meias-finais, perdendo a seguir frente à Croácia no jogo do 3º e 4º lugares.

8. A Argentina, que seria campeã mundial, começou o torneio com uma derrota surpreendente, diante da Arábia Saudita (2-1, com a seleção celeste a partir na frente, com um golo de penálti de Messi logo aos 9 minutos). Os sul-americanos não perdiam há 36 jogos (mais de três anos sem conhecer o sabor da derrota), e ficaram a uma partida de igualar o recorde de invencibilidade da Espanha (37 jogos). Perante este feito inesperado, o governo saudita decidiu decretar o dia seguinte à histórica vitória feriado nacional, para que as pessoas pudessem celebrar convenientemente.

9. Messi conduziu a Argentina ao título mundial e marcou pontos na velha questão sobre o melhor jogador de sempre (o debate foca-se muitas vezes sobre ele ou Cristiano Ronaldo), embora haja a questão (nada despicienda) de Pelé ter sido campeão do mundo por três vezes. Messi já tinha estado na final (perdida) de 2014, em que a Alemanha saiu vencedora, mas desta feita triunfou – foi o segundo melhor marcador da prova, com 7 golos (Mbappé obteve 8), sendo dois deles na final, e fez ainda três assistências.

10. Cristiano Ronaldo foi o primeiro jogador a marcar em cinco fases finais de Mundiais, e é também um dos poucos a ter participado em cinco Mundiais (os outros são o argentino Messi, o alemão Lothar Matthaus e os mexicanos Antonio Carbajal, Rafael Marquéz e Andrés Guardado). No Mundial 2026, Ronaldo e Messi podem tornar-se nos únicos a participar (e jogar) num Mundial pela sexta vez. Isto porque o guarda-redes mexicano Ochoa também esteve em cinco Mundiais, mas em dois deles não jogou nem um minuto.

11. A francesa Stéphanie Frappart, de 38 anos e filha de uma portuguesa, tornou-se a primeira mulher a arbitrar um jogo num Mundial, o Alemanha-Costa Rica (4-2), do grupo E, a 1 de dezembro de 2022. A sua equipa de arbitragem incluía ainda as assistentes Neuza Back (Brasil) e Karen Díaz Medina (México).

12. Com 172 golos em 64 jogos, o Mundial do Qatar passou a ter o recorde de mais golos em fases finais de Mundiais, ultrapassando os 171 do França 1998 e do Brasil 2014. Um número que muito provavelmente vai ser ultrapassado em 2026, pois o próximo Mundial (que começa já a 11 de junho) inclui 48 seleções, realizando-se um total de 104 jogos. 

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