Curiosidades dos Mundiais de futebol (10): Os 7-0 do ketchup, o golo pré-VAR e a humilhação do Brasil
Na África do Sul, Portugal registou a sua maior goleada em Mundiais; e um lance polémico no Alemanha-Inglaterra abriu a porta à tecnologia no futebol. Já o Mundial 2014 trouxe um pesadelo para os brasileiros - e mais uma mordidela de Suárez.
O Mundial 2026 começa no próximo dia 11 de junho, com o México-África do Sul como jogo de abertura – vai acontecer no estádio Azteca, da Cidade do México, que vai ser o primeiro a receber partidas de três Mundiais (o México organizou o torneio em 1970 e 1986). Este é também o primeiro Mundial de futebol a realizar-se em três países (Estados Unidos, México e Canadá), algo que vai voltar a acontecer em 2030, pois a competição desse ano decorrerá em Espanha, Portugal e Marrocos. Enquanto não começa a febre dos jogos (e este ano serão, no total, 104, pois este vai ser o Mundial com mais seleções de sempre, 48), veja aqui algumas curiosidades ao longo de quase 100 anos da história da prova. Até ao início, vamos publicar todos os dias curiosidades à volta de dois Mundiais, num total de 11 textos. Este aborda os Mundiais de 2010 e 2014.
Mundial 2010
País organizador: África do Sul
Vencedor: Espanha
1. Foi a primeira vez que o Mundial se disputou no continente africano. E a África do Sul tornou-se a primeira seleção anfitriã a sair da competição sem chegar à segunda fase, apesar de ter como treinador o brasileiro Carlos Alberto Parreira, campeão do mundo com o Brasil em 1994. Ainda assim, acabou a classificação com os mesmos pontos do México, 2º classificado, mas com pior saldo de golos (a goleada de 3-0 sofrida com o Uruguai foi determinante).
2. A seleção portuguesa fez quatro jogos no Mundial e marcou sete golos, mas todos na mesma partida, frente à Coreia do Norte. Na fase de grupos, empatou a zero com Costa do Marfim e Brasil, e depois perdeu nos oitavos de final com a Espanha (1-0), com um golo de David Villa em fora de jogo – e que hoje seria anulado pelo VAR.
3. Os 7-0 à Coreia do Norte são ainda hoje a maior goleada de Portugal num Mundial. Na altura, o facto de a seleção não marcar golos era um tema recorrente, e o mesmo se passava com Cristiano Ronaldo, que teve uma famosa tirada, ao dizer que os golos eram como o ketchup, bate-se no frasco e começam a sair em catadupa. Isso aconteceu frente aos coreanos, embora ele só tenha marcado por uma vez. Nesse jogo, houve seis marcadores diferentes: o único que fez mais do que um golo foi o médio Tiago, que bisou (marcou aos 60 e aos 89 minutos).
4. Este foi mais um Mundial com polémica, com o selecionador, Carlos Queiroz, a reagir de forma intempestiva, e com insultos, à brigada anti-doping que foi testar os jogadores, irritado pela hora "madrugadora" a que os agentes da ADOP se deslocaram ao estágio da seleção, na Covilhã. Já depois do Mundial, em agosto, Carlos Queiroz foi suspenso seis meses, com esse episódio a contribuir para o seu afastamento, tal como uma polémica entrevista que deu ao jornal Expresso, em que acusou o vice-presidente Amândio de Carvalho de “decidir pôr a sua cara na cabeça do polvo” que o queria fora da Federação.
5. Houve ainda mais uma polémica, relacionada com uma lesão de Nani, que terá feito uma fissura na clavícula esquerda ao tentar marcar um golo de forma acrobática. Os médicos deram-no como inapto para o Mundial, mas Carlos Queiroz decidiu incluí-lo na comitiva para a África do Sul, com a expectativa de que recuperasse rapidamente, ajudado por um homeopata. Mais tarde, e após exames mais minuciosos, acabou por ser dispensado (e substituído por Ruben Amorim). A questão é que ao chegar a Lisboa, Nani disse que estaria pronto numa semana, o que gerou nova controvérsia, com o jogador a declarar depois que não se explicou bem. “Lamento o embaraço que criei. Com o aglomerado de jornalistas e com o cansaço inerente à viagem que tinha acabado de fazer, dei sempre respostas curtas e devia ter-me explicado melhor. O que queria dizer é que estaria bom numa semana, mas para fazer a minha vida normal do dia a dia, não para competir”.
6. O ambiente no estágio da seleção, na África do Sul, não era o melhor, com os jogadores desagradados com as opções e substituições de Carlos Queiroz, como aconteceu logo na estreia, frente à Costa do Marfim, com Deco irritado por ter sido substituído e por o treinador lhe ter pedido para ser “quase um extremo”. No jogo com a Espanha, numa altura em que Portugal já perdia por 1-0, quando o selecionador tirou o ponta de lança Hugo Almeida para lançar Danny, Ronaldo esbracejou e gritou para Queiroz: “Assim não ganhamos”. No final, ao ser questionado pelos jornalistas sobre as suas declarações e a sua frustração, Ronaldo disse apenas: “Perguntem ao Carlos”. O selecionador desdramatizou o caso na altura, mas o mal-estar prolongou-se e, no Mundial 2018, Carlos Queiroz criticou Ronaldo por ele não o ter cumprimentado aquando do Portugal-Irão (Queiroz era o selecionador da equipa asiática).
7. Ainda em relação a Portugal, o guarda-redes Eduardo passou a ter a maior série de jogos sem perder. No total, fez as primeiras 18 internacionalizações sem registar qualquer derrota. Apenas perdeu ao 19º confronto, nos oitavos, frente à Espanha.
8. O ambiente na seleção francesa também não foi o melhor, com os gauleses, campeões em 1998 e finalistas em 2006, a não passarem da fase de grupos. Houve atos de indisciplina e guerras entre jogadores e o selecionador. O clima de tensão adensou-se na derrota frente ao México (no segundo jogo), com Anelka a insultar o treinador, Raymond Domenech, ao intervalo, não voltando para a segunda parte, e sendo depois dispensado. Uma medida que não caiu bem entre os restantes atletas, que chegaram a recusar treinar - o capitão, Patrice Evra, até discutiu com o preparador físico. Este "Saltillo à francesa" acabou com a demissão do presidente da Federação e com vários jogadores castigados.
9. Foi a primeira vez que a Coreia do Norte e a Coreia do Sul participaram, em simultâneo, num Mundial. Na outra vez em que a Coreia do Norte tinha estado no torneio (1966, em que também defrontou Portugal), a Coreia do Sul não se apurou. Foi também a primeira vez que estiveram presentes duas seleções da Oceania (Austrália e Nova Zelândia) e foi ainda a edição com mais equipas africanas (seis).
10. O Gana esteve muito perto de se tornar a primeira seleção africana a chegar às meias-finais (Marrocos iria consegui-lo, em 2022), pois nos instantes finais do prolongamento, frente ao Uruguai (nos quartos de final), teve um penálti que lhe daria o triunfo. Tudo aconteceu quando Luis Suárez defendeu com a mão uma bola em cima da linha de baliza, com o avançado a ser expulso. Na cobrança do castigo, Asamoah Gyan atirou à trave. Seguir-se-ia a decisão dos penáltis, na qual os uruguaios foram mais certeiros, vencendo por 4-2 – e no pontapé decisivo, Sebastian “El Loco” Abreu marcou à Panenka.
11. O Alemanha-Inglaterra (vitória dos germânicos, por 4-1) ficou marcado por um golo-fantasma. Com o resultado em 2-1, Lampard rematou, a bola foi à trave e bateu no chão, já dentro da baliza, mas o árbitro não considerou que tivesse sido golo. “A bola não estava 2 centímetros para lá da linha, estava claramente dentro”, disse Jerome Valcke, secretário-geral da FIFA. Esse golo-fantasma (e um outro lance polémico no golo decisivo do França-Irlanda, da qualificação, com Henry a jogar a bola com a mão) iriam ser decisivos para que a FIFA avançasse com a introdução da tecnologia no futebol, primeiro com o chip na bola e a tecnologia de linha de baliza, e depois com o VAR.
12. A Espanha tornou-se a oitava seleção a conquistar o Mundial, batendo a Holanda na final, com um golo de Iniesta aos 116 minutos do prolongamento. Aliás, os espanhóis (que perderam na estreia, contra a Suíça) venceram todos os jogos a eliminar por 1-0, somando no total da prova oito golos – ainda hoje a seleção campeã mundial com menos golos marcados. Foi também a primeira vez que uma seleção europeia festejou fora do continente europeu – em 2014, a Alemanha iria repetir o feito, ao vencer no Brasil.
Mundial 2014
País organizador: Brasil
Vencedor: Alemanha
1. Pela primeira vez num Mundial, foi usada a tecnologia de linha de golo (em que o árbitro recebe a indicação se a bola entrou totalmente na baliza ou não através de um aparelho semelhante a um relógio que ele usa no pulso). A primeira vez em que um golo foi validado através desse sistema aconteceu a 15 de junho de 2014, no França-Honduras.
2. De acordo com a FIFA, este foi o Mundial mais poluente de sempre – com todo o movimento à volta dos jogos, de equipas e adeptos, produziram-se 2,72 milhões de toneladas métricas de dióxido de carbono. Foi, ao mesmo tempo, o Mundial mais sustentável, pois os estádios construídos ou requalificados adotaram tecnologias que aproveitaram a água da chuva ou a radiação UV, usando ainda fontes renováveis de energia e iluminação de baixo consumo energético.
3. No seu discurso antes do sorteio que definiu os grupos do Mundial, a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, cometeu uma gafe, ao afirmar que esta seria a primeira vez em que todos os campeões do mundo participavam no torneio. Isso não é verdade, pois em 2010, na África do Sul, estavam presentes todos os sete anteriores campeões, e o mesmo aconteceu (embora na altura fossem só seis) em 1986 e 1990. O Mundial do Brasil, em 2014, seria, no entanto, aquele em que participaram mais campeões do mundo (as oito seleções que já venceram a prova: Brasil, Argentina, Alemanha, Itália, Uruguai, França, Inglaterra e Espanha).
4. Para Portugal, este foi mais um Mundial para esquecer, a começar pela goleada (4-0) sofrida diante da Alemanha, no primeiro jogo, com Pepe a ser expulso ainda na primeira parte. Frente aos EUA, Silvestre Varela marcou perto do fim (2-2) e deixou tudo em aberto para a última jornada, embora a seleção tivesse de fazer contas (precisava de golear o Gana e esperar que a Alemanha batesse os EUA, de preferência com muitos golos). Mas nada disso aconteceu (Portugal venceu por 2-1 e a Alemanha ganhou 1-0), pelo que a seleção ficou a três golos de se apurar.
5. Apesar do sucesso da Alemanha, que foi campeã ao derrotar a Argentina (a final que mais vezes já aconteceu num Mundial, foram quatro, registando-se ainda em 1986, 1990 e 2002), as seleções americanas estiveram em destaque: cinco das seis que estiveram no Mundial marcaram presença nos oitavos de final (só o Equador ficou pelo caminho). A Costa Rica e a Colômbia chegaram aos quartos e conseguiram a sua melhor classificação de sempre.
6. Na final, o alemão Mario Götze, aos 113 minutos do prolongamento, fez o golo do triunfo, tornando-se, com 22 anos e 40 dias, o mais novo a marcar numa final desde o compatriota Wolfgang Weber, que em 1966 tinha 22 anos e 33 dias. Antes de entrar, aos 90 minutos, Götze ouviu o selecionador, Joachim Löw, dizer-lhe: “Vai e mostra ao mundo que és melhor que o Messi”.
7. O Brasil 2014 permitiu a outro alemão, Miroslav Klose, tornar-se o melhor marcador em Mundiais. Com os dois golos que fez, frente a Gana e Brasil, chegou aos 16, ainda hoje um recorde. Com 15 surge, em 2º lugar, o brasileiro Ronaldo, seguindo-se o alemão Gerd Müller e o francês Just Fontaine (ambos com 14). Messi vem logo a seguir, com 13, e depois Mbappé, com 12, e os dois podem subir na lista, se marcarem no Mundial 2026. Já Cristiano Ronaldo, que tem 8 golos em Mundiais, poderá ultrapassar os 9 de Eusébio (todos em 1966) e passar a ser o português mais goleador na competição.
8. O Brasil era um dos favoritos, até por jogar em casa, mas nas meias-finais a seleção canarinha viveu um dos piores pesadelos da sua história, ao perder por 7-1 com a Alemanha (que marcou cinco golos em 18 minutos). Este jogo ficou conhecido como Mineirazo (aconteceu no estádio do Mineirão, em Belo Horizonte), um termo de comparação com o Maracanazo (quando o Brasil perdeu o Mundial 1950 ao ser derrotado no Maracanã pelo Uruguai). Esta foi a pior derrota de sempre da seleção brasileira, ao nível do 6-0 frente ao Uruguai no campeonato sul-americano de 1920. Foi também a pior derrota de sempre de um anfitrião em Mundiais, superando o 5-2 sofrido pela Suécia contra o Brasil, em 1958.
9. O jogo Uruguai-Itália teve um episódio insólito, protagonizado por Luis Suárez. O avançado uruguaio estava na área dos italianos, antes da marcação de um livre, quando se envolveu com Chiellini, mordendo-lhe um ombro. O defesa italiano mostrou as marcas ao árbitro, Marco Rodríguez, mas o mexicano não assinalou falta nem expulsou Suárez. O cruzamento para a área terminou com um canto para o Uruguai, que na sequência do lance iria marcar o golo da vitória, da autoria do defesa central Godín.
10. A FIFA anunciou ainda nesse dia que iria instaurar um processo disciplinar a Suárez, que já tinha antecedentes, pois foi considerado culpado de morder jogadores adversários em duas outras ocasiões (em 2010 e 2013), sendo castigado em ambas. Dois dias após o incidente, Suárez foi condenado com nove jogos de suspensão (não participou mais nesse Mundial), naquela que foi a sanção mais dura num Mundial, superando os oito jogos do italiano Tassoti no Mundial 1994, quando partiu o nariz ao espanhol Luis Enrique (esse mesmo, o atual treinador do bicampeão europeu PSG).
11. No jogo Holanda-Costa Rica, sucedeu uma substituição incomum: o selecionador Van Gaal decidiu trocar de guarda-redes a um minuto do fim do prolongamento, tirando Cillessen e colocando em campo Tim Krull, por supostamente ele ser melhor a defender penáltis. O jogo foi mesmo decidido nos penáltis e Krull virou herói ao defender dois, ajudando a Holanda a vencer por 4-2. A seguir, a meia-final, entre Holanda e Argentina, viria a ser novamente resolvida nos penáltis, mas aí Van Gaal já tinha esgotado as substituições e não pôde fazer a troca. A verdade é que Cillessen não parou nenhum dos remates e a Argentina venceu por 4-2.
12. Após o Mundial, um estudo do Ministério do Turismo brasileiro revelou que a prova atraiu ao Brasil mais de 1 milhão de turistas estrangeiros, de 203 nacionalidades diferentes – e mais de 90% dos inquiridos disseram que viajaram para o país de propósito por causa dos jogos. De referir ainda que o tempo médio de permanência dos turistas no Brasil foi de 13 dias. Por outro lado, estima-se que mais de 3 milhões de brasileiros circularam no país durante o mês da competição.