O direito a não ter medo, por Joana Emídio Marques

A jornalista detalha, num texto para a SÁBADO, o episódio do assédio sexual que terá sido protagonizado pelo ex-diretor editorial da Porto Editora, Manuel Alberto Valente.

Quando se é jornalista não se tem horários e não se pode ter medo. Em onze anos a trabalhar como jornalista de Cultura, primeiro no Diário de Notícias e depois no Observador, almocei, tomei cafés, fui a jantares, a bares de hotel, a salas de teatro, entrevistar escritores, actores, encenadores, coreógrafos, editores, gestores, criativos. Muitas vezes as conversas  estenderam-se pela madrugada. É isso que faz um jornalista: vai atrás da informação, das histórias, dos segredos. Isto implica não ter horário das 9 às 5, trabalhar à noite, levantar-se de madrugada. Quando um jornalista vai cobrir uma guerra sabe que pode morrer, mas vai na mesma. Quando um jornalista precisa de uma fonte que lhe dê uma cacha (um furo jornalístico) vai na mesma porque é para isso que lhe pagam. É esse o seu dever para com os leitores Mas seja em que situação for um jornalista ou uma jornalista não espera ser assediado, agarrado, humilhado quando vai fazer um trabalho.

O mesmo acontece com qualquer homem e mulher, famoso ou anónimo que sai de casa para trabalhar. Andar na rua sem medo não deveria ser algo discutível. Mas é. Se nasces mulher aprendes que mal a noite cai deves fechar-te em casa, se andas sozinha corres o real risco de ser agarrada, violada, morta. Se nasces mulher e insistes em ignorar esse perigo, em nome da liberdade que mereces ter como cidadã, como gente, então "estás a pôr-te a jeito", "estás a pedi-las". Isto não é uma questão de vítimas e vilões como nas telenovelas, isto é uma questão de justiça social, moral e ética.

Jornalista acusa ex-diretor editorial da Porto Editora de assédio sexual


Quando num sábado à noite, no fim de novembro de 2012 eu saí da redação do DN, na rua Rodrigues Sampaio, em Lisboa, e fui jantar com o ex-editor e homem forte da Porto Editora, Manuel Alberto Valente. Através de uma troca de mensagens no Facebook, ele deu a entender que me confirmaria o rumor da iminente compra da chancela Assírio & Alvim pelo conglomerado Porto Editora eu fui atrás da notícia. Para quem está fora do meio literário isto pode não querer dizer nada. Porém, a Assírio e Alvim foi a mais importante editora portuguesa de poesia, pos-25 de Abril, tendo no seu catálogo autores como Herberto Helder, Al Berto ou escritores como Miguel Esteves Cardoso. A sua falência era o fim de uma era na edição de livros em Portugal. Eu queria ser a primeira a contar a história, a ter a cacha por isso fui jantar com Manuel Alberto Valente. Não fui ter um encontro romântico, entenda-se, e só mais tarde percebi que ele tinha marcado o jantar para uma noite em que a sua mulher (Maria do Rosário Pedreira) estava no México, no festival literário de Guadalajara.


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