Sábado – Pense por si

Margarida Reis
Margarida Reis Secretária-geral da Associação Sindical dos Juízes Portugueses
29 de agosto de 2025 às 12:23

Arte redentora

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Edição de 26 de agosto a 1 de setembro

Estudos recentes demonstram que atividades artísticas – como desenho, pintura, escultura ou colagem – não só promovem a expressão emocional e a catarse, como induzem estados de relaxamento que reduzem os níveis de cortisol.

Vivemos numa sociedade em que a pressão constante, a velocidade do quotidiano e a instabilidade social e económica contribuem para um aumento generalizado do stress. O excesso de cortisol — hormona associada à resposta ao stress — deixou de ser apenas um sinal de alerta pontual e tornou-se um estado crónico para muitas pessoas, com impacto direto na saúde física e mental. A ciência já reconhece o stress como fator de risco para doenças cardiovasculares, distúrbios metabólicos, depressão, ansiedade e até enfraquecimento do sistema imunitário, tornando-se assim um dos maiores desafios silenciosos da vida moderna. 

Apesar da intensidade e complexidade das pressões a que estamos sujeitos, ensina a neurociência que é possível recorrer a estratégias eficazes de proteção e regulação do stress, sendo a prática da arte uma das mais relevantes e comprovadas. 

A arte tem vindo a afirmar-se como uma estratégia eficaz e cientificamente sustentada para a redução e prevenção do stress, sendo hoje reconhecida também no domínio da neurociência. Estudos recentes demonstram que atividades artísticas – como desenho, pintura, escultura ou colagem – não só promovem a expressão emocional e a catarse, como induzem estados de relaxamento que reduzem os níveis de cortisol e aumentam neurotransmissores associados ao bem-estar, como a dopamina. A investigação mostra ainda que o envolvimento criativo favorece a atenção plena (mindfulness), melhora a concentração e estimula circuitos cerebrais relacionados com a regulação emocional e a resiliência. Além disso, muitas destas práticas desencadeiam o chamado estado de flow, em que a imersão total na atividade criativa suspende temporariamente as preocupações e favorece a autorregulação emocional, reforçando os efeitos de alívio do stress. Para além do alívio imediato, a prática regular da criação artística contribui para a construção de recursos psicológicos duradouros, ajudando a prevenir o impacto negativo do stress crónico. Assim, a arte não deve ser vista apenas como passatempo, mas como uma ferramenta validada pela ciência para a promoção da saúde mental e do equilíbrio neurofisiológico. 

Também o teatro tem sido amplamente reconhecido como um espaço privilegiado de aprendizagem experiencial e transformação pessoal, capaz de conjugar dimensões cognitivas, emocionais e corporais na formação do indivíduo. Enquanto prática artística e pedagógica, oferece oportunidades de gestão do stress, ao permitir a externalização simbólica de tensões internas e a vivência de estados de flow, que induzem relaxamento e bem-estar fisiológico. Simultaneamente, constitui um exercício de autoconhecimento, na medida em que a assunção de papéis, a improvisação e o confronto com narrativas pessoais e coletivas obrigam o sujeito a refletir sobre a sua identidade, valores e emoções. Tal como Friedrich Schiller escreveu, “o homem só é plenamente homem quando joga”, e o jogo dramático oferece precisamente esse espaço seguro de experimentação, em que a liberdade criativa se alia ao rigor estético e relacional para fomentar resiliência, autoestima e robustecimento pessoal. Nesta perspetiva, o teatro revela-se não apenas como forma de expressão cultural, mas também como instrumento de regulação emocional e de fortalecimento psicológico, com aplicações relevantes na educação, na terapia e na vida comunitária. 

Em síntese, a arte pode assumir um carácter redentor, ao oferecer um espaço de libertação, reorganização interna e reconciliação consigo próprio. Num tempo em que o stress é uma das condições mais prevalentes e incapacitantes, a prática artística demonstra que não estamos condenados à passividade diante da pressão externa: podemos agir, criar e transformar a nossa experiência. Assim, ao recorrer à arte, o indivíduo encontra não apenas alívio momentâneo, mas também um caminho sustentável de resiliência, reafirmando que há sempre algo que pode ser feito no combate ao stress e na construção de um equilíbrio mais pleno. 

(Este texto representa apenas a opinião da autora, não comprometendo a Associação Sindical dos Juízes Portugueses) 

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