Estes são os mortos das FP-25 de abril

Paulo Barriga 01 de maio

Delfina Pulido perdeu o filho de quatro meses, Susana Souto viu o pai morrer a olhar para ela, com cinco tiros “secos”.

Esta não é a história das FP-25 de Abril. Da sua organização, fins, estrutura, métodos. Nem é a história da falência da justiça portuguesa perante o terrorismo e a conjuntura política da época. Desde as manobras jurídicas, processuais, até à solução final: a amnistia dos crimes de sangue. Não. Esta é uma história com gente dentro. É a história do terror, do medo e da desilusão. É, afinal, a
história das vítimas.

"Quem pode viver com isto?"
Domingo passado, dia 25. No terreiro central da aldeia de São Manços, Évora, que nem por acaso leva o nome de Largo 25 de Abril, a filarmónica de São Miguel de Machede dava a alvorada ao som da Marcha do Movimento das Forças Armadas. Coisa breve. A assistência era escassa e o céu, carregado, deixava adivinhar trovoada. "Já lá vai o tempo", ouvia-se entre o público mais idoso, "já lá vai o tempo". Pois é, já lá vai o tempo em que o 25 de Abril era "um caso sério" em São Manços, para utilizar palavras de Francisco Monteiro, antigo presidente da assembleia de freguesia local: "Isto aqui não foi nada fácil, principalmente na altura da Reforma Agrária." E se em todo o Sul a contenda se travou entre agrários e campesinos, em São Manços prosseguiu no seio dos próprios sem-terra. "Fizeram-se aqui duas cooperativas, uma de comunistas, outra de socialistas. Nem se podiam ver uns aos outros. Até houve filhos que deixaram de falar aos pais", recorda ainda.

Dionísio Luís Ciroula, trabalhador rural, não quis aderir a nenhuma delas. Em vez de alinhar com o movimento coletivista, acabou por "tomar de renda a Herdade do Castelo", revive Arsénio Pulido, que com ele trabalhou. Por conta própria. Saiu-lhe cara, a ousadia. Não tardaram as intimidações, as provocações e até as ameaças de morte grafadas a tinta vermelha nas paredes do monte.

Para continuar a ler
Já tem conta? Faça login
Para activar o código da revista, clique aqui
Investigação
Opinião Ver mais