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"Estava sempre metida em casa e já estava a perder a fala”. Idosos unem-se para combater a solidão

Numa tarde passada com os idosos do programa Sempre Acompanhados, ouvimos histórias de superação da solidão e a possibilidade de fazer amizades na velhice.

Sexta-feira 4, 25 crianças e dezoito idosos juntaram-se no jardim do Campo Grande, em Lisboa, para uma atividade cujo objetivo é combater o isolamento dos mais velhos. Os idosos do programa Sempre Acompanhados, da Fundação La Caixa, em Lisboa passaram a tarde na companhia das crianças do Espaço Boomerang, do Centro Paroquial do Campo Grande, participando em jogos de equipas em que o objetivo “não era ganhar”, o que ficou claro desde o início. Miguel, 11 anos, partilhou com a SÁBADO que esta foi “uma atividade divertida e interessante”. E a opinião do pré-adolescente era claramente partilhada por todos os que ali estiveram.

Peddy Paper realizado no Campo Grande com idosos e crianças.
Peddy Paper realizado no Campo Grande com idosos e crianças. Duarte Roriz/Sábado

Ainda antes do final dos jogos encontramos Manuela no local onde seria realizado um piquenique. Neste dia a idosa de 81 anos decidiu não participar na atividade, porque está “com um problema nos joelhos”, mas mesmo assim esteve presente e ajudou com os preparativos da refeição. Ainda assim refere que adora passeios: “Venho sempre quando são os passeios, quando é para o convívio, para visitar museus. Gosto muito”. 

Manuela partilha com a SÁBADO que faz parte do programa há quatro anos e que, ao contrário da maior parte das pessoas que são sinalizadas, decidiu inscrever-se: “Vivo sozinha e precisava de conviver, de ter alguém a quem pedir ajuda quando preciso, nem que fosse alguém só para conversar”. Mas nos últimos anos encontrou muito mais do que isso, “uma rede de apoio”: “Todos são super simpáticos, super dedicadas, qualquer coisa que precise estão lá, e muitas vezes nem é preciso pedir”. 

Além de ressalvar o carinho das responsáveis pelo projeto, Manuela partilha também que criou “várias amizades”, algumas delas até já conhecida do bairro, “mas não falava”. “Agora até vou a casa delas”, refere.  

Manuela tem 81 e ajudou a montar o Piquenique
Laura inscreveu-se nas aulas de teatro, inglês, informática e desenho
Antes de conhecer o Sempre Acompanhados, Laura passava muito tempo sozinha em casa
Fernanda é voluntária no centro de dia
Senhora idosa com cabelos brancos e óculos olha para a câmara
Idosa envolvida em programa para combater a solidão na velhice
Mulher idosa com óculos de sol e t-shirt com flores azuis num parque
Idosos unem-se para combater a solidão no programa Sempre Acompanhados

Já depois do fim das atividades Laura, 64, Dina, 78, e Fernanda, 70, juntam-se a mesa com a SÁBADO para descreverem o efeito positivo que estarem incluídas no Sempre Acompanhados tem tido na sua vida. Fernanda recorda, aliás, que enquanto voluntária do centro de dia tomou conhecimento deste programa e aconselhou Dina a informar-se sobre se podia participar: “Quando conheci a Dina ela praticamente não conseguia falar. Estava sempre muito metida em casa, muito fechada, e já estava a perder a fala”. 

Além do fator de convívio, Laura aproveita para reforçar também a importância que o programa tem tido para abrir outras portas: “Agora faço hidroginástica pela associação dos moradores e este ano inscrevi-me nas aulas de teatro, inglês, informática e desenho”. Além de todas estas atividades existem ainda “passeios para outras cidades” que são organizados pela junta de freguesia e nas quais que muitos destes idosos também passaram a participar.  

Já sobre a atividade de sexta-feira, Dina considera que foi um bom momento, para lembrar “de como era ser criança. Foi muito giro” .

Já Miguel ressalvou que a tarde foi interessante não só pela convivência com os mais velhos, mas também pela aprendizagem de novas culturas: “Aprendi muitas coisas, até de outras culturas porque no meu grupo havia pessoas que não eram portuguesas. Aprendi sobre a língua deles e a cultura”, relata.  

Miguel, 11 anos Miguel, 11 anos Duarte Roriz/Sábado

Miguel partilhou ainda que muitas das crianças que participaram na atividade “são muito competitivas” e a presença dos idosos ajudou a lidar com isso: “Acho que é uma atividade importante, até porque muita gente aqui é muito competitiva e não sabem perder. Eu também sou muito competitivo, mas hoje o mais importante era ajudar as pessoas mais velhas e diverti-las", assegura. 

O projeto Sempre Acompanhados

Hélder Nogueira, gestor social do Pessoas Maiores da Fundação La Caixa, explica que programa Sempre Acompanhados “tem como objetivo principal o combate à solidão não desejada das pessoas seniores” de forma a “acompanhar, capacitar e empoderar pessoas seniores no seu processo de combate à solidão, construir redes comunitárias de apoio aos seniores como resposta às necessidades destas pessoas e por fim sensibilizar a sociedade para a problemática da solidão dos seniores”.  

Este é um programa que teve origem em Espanha e está em Portugal desde 2022 e marca a diferença por realizar um “trabalho próximo de cada um dos participantes na definição de um trajeto individualizado”, refere o gestor. Hélder Nogueira partilha que “o Sempre Acompanhados em 2025 teve em acompanhamento 633 participantes que foram entrando no programa desde o ano de 2022”. Durante este ano deram entrada no programa mais 150 participantes.  

Hélder Nogueira, gestor social do Pessoas Maiores da Fundação La Caixa
Margarida Guedes de Quinhones, coordenadora do Programa Sempre Acompanhados em Lisboa
Hélder Nogueira, gestor social do Pessoas Maiores da Fundação La Caixa
Margarida Guedes de Quinhones, coordenadora do Programa Sempre Acompanhados em Lisboa

Neste momento o programa tem atuação em Lisboa e no Porto. “No Porto, o Programa é dinamizado pela Cruz Vermelha Portuguesa - Delegação do Porto na União de Freguesias do Centro Histórico e na Freguesia de Paranhos e pela Santa Casa da Misericórdia do Porto na Freguesia do Bonfim e na União de Freguesias de Lordelo do Ouro e Massarelos”. Já em Lisboa “o programa é dinamizado pelo Centro Social e Paroquial do Campo Grande nas Freguesias de Alvalade e dos Olivais”. 

Margarida Guedes de Quinhones é coordenadora do Programa Sempre Acompanhados em Lisboa e reforça a importância de seguirem uma “lógica personalizada baseadas em respostas na comunidade que têm em conta ao interesse destas pessoas”. Neste momento o programa acompanha, em Lisboa, cerca de 200 pessoas, maioritariamente “identificadas por assistentes sociais ou médicos de família por se encontrarem isoladas”: “Sendo estas pessoas autónomas, perderam um pouco o seu propósito de vida”. 

Apesar de o Centro Paroquial do Campo Grande conseguir proporcionar algumas das respostas do programa Sempre Acompanhados, Margarida Guedes de Quinhones reforça a importância de este ser um trabalho “em rede” baseado no “encaminhamento para parceiros” sobretudo nas freguesias de “Alvalade, Olivais e Avenidas Novas”.  

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