A tolerância social aos lares ilegais para idosos revela uma falência moral que não pode ser atribuída apenas ao Estado.
Há idosos a viver hoje em Portugal em condições
que nenhum cidadão aceitaria para si próprio, e que dificilmente aceitaria para
um animal de estimação. Vivem encerrados em lares ilegais, sem cuidados
adequados, sem supervisão clínica, sem garantias mínimas de segurança, higiene
ou respeito, vivem invisíveis, e essa invisibilidade não é um acidente, é uma
escolha coletiva.
Idosos
Enquanto um único idoso permanecer nessas
condições, nenhum de nós deveria dormir tranquilo, não porque sejamos todos
culpados no mesmo grau, mas porque somos co-responsáveis por uma sociedade que
tolera esta realidade sem sobressalto moral duradouro e consequente.
Os lares ilegais para idosos não são um fenómeno
marginal nem recente, são a resposta informal, e eticamente falhada, a um
problema estrutural que resulta do envelhecimento da população, da
insuficiência de respostas públicas e privadas adequadas, da exaustão das
famílias e da transformação da velhice num “problema de gestão”. Mas reconhecer
as causas não equivale a aceitar as consequências, explicar não é justificar.
O mais inquietante não é apenas a existência
destes espaços, mas a sua normalização silenciosa, muitos funcionam “à vista de
todos”, em bairros residenciais, em antigas moradias adaptadas, em zonas rurais
conhecidas pelas comunidades locais. São conhecidos por vizinhos, por
autarquias, por profissionais, por famílias que, perante a ausência de
alternativas, optam pelo “menos mau”. A ilegalidade torna-se tolerável quando é
funcional. A indignidade torna-se suportável quando é invisível.
É aqui que o problema deixa de ser apenas
jurídico ou administrativo e se torna profundamente ético. Um idoso não é um
corpo a guardar, nem um encargo a acomodar, é uma pessoa portadora de uma
história, de relações, de fragilidade, e de direitos morais que não se
extinguem com a dependência. A dignidade humana não é um luxo reservado à
autonomia plena. É precisamente nas situações de maior vulnerabilidade que a
dignidade exige maior proteção.
Quando um lar existe sem condições, sem
profissionais qualificados, sem cuidados clínicos adequados, sem respeito pela
intimidade ou pela segurança, não estamos perante uma falha menor do sistema, estamos
perante uma forma organizada de abandono, um abandono que se mascara de cuidado,
um abandono que se legitima pela escassez, um abandono que a sociedade aprende
a não ver.
A tentação é apontar o dedo exclusivamente ao
Estado, à falta de fiscalização, à lentidão das respostas, à insuficiência da
rede pública. Essa crítica é legítima e necessária, mas é insuficiente, porque
a tolerância social a estes espaços revela algo mais profundo, uma cultura que
aceita que, na velhice, a dignidade seja negociável.
A qualidade duma sociedade pode ser medida pela
forma como trata os seus membros mais frágeis. Quando aceitamos que idosos
vivam em espaços ilegais, degradantes ou perigosos, estamos a dizer, implicitamente,
que há vidas que já não exigem o mesmo nível de cuidado moral. Estamos a
suspender a exigência ética em nome da urgência prática.
Este fenómeno não é apenas um fracasso das
políticas sociais; é um sintoma de uma falência cívica. A velhice passou a ser
tratada como um problema privado, resolvido à margem da comunidade, muitas
vezes atrás de portas fechadas e o sofrimento torna-se doméstico, escondido, e
por isso politicamente irrelevante. O silêncio social transforma-se em
consentimento.
Mas há uma linha que não pode ser ultrapassada
sem que percamos algo essencial enquanto comunidade: aceitar lares ilegais para
idosos é aceitar uma ilegalidade moral. A ideia de que a dignidade humana pode
ser relativizada pela idade, pela dependência ou pela falta de alternativas, é aceitar
que o fim da vida seja um espaço de exceção ética.
Não se trata apenas de fiscalizar mais, embora
isso seja urgente. Trata-se de afirmar, de forma inequívoca, que há condições
que não são aceitáveis, mesmo quando “não há outra solução”, a ausência de
alternativas não legitima a indignidade, pelo contrário, torna-a ainda mais
intolerável.
Enquanto cidadãos, não podemos continuar a
delegar esta responsabilidade apenas nas instituições, a indiferença pode ser confortável,
mas tem um custo moral elevado. Saber, ou suspeitar, que idosos vivem em
condições indignas e escolher não ver, não perguntar, não exigir, é uma forma
de cumplicidade passiva, mas real.
Uma comunidade política não se constrói apenas
por leis e serviços, mas por limites éticos partilhados. Um desses limites
deveria ser claro, nenhum idoso deve viver em condições que neguem a sua
dignidade básica, nenhum, nem por falta de vagas, nem por escassez de recursos,
nem por cansaço social.
Este não é um apelo à indignação momentânea, que
dura o tempo de uma notícia ou de uma reportagem, é um apelo à intolerância
moral permanente, a mesma intolerância que não aceitamos para a tortura, para o
abuso infantil ou para a violência doméstica. A velhice indigna não é menos
grave por ser silenciosa.
Há, ainda, uma dimensão de responsabilidade que
merece ser reconhecida. Médicos, enfermeiros, farmacêuticos e outros
profissionais que se dedicam aos cuidados, estão vinculados a princípios
deontológicos de cuidado, beneficência e respeito pela dignidade humana, pelo
que não podem limitar a sua intervenção ao ato técnico quando este ocorre em
contextos manifestamente frágeis ou irregulares. Sem lhes caber a resolução
isolada de problemas estruturais, permanece o dever ético de atenção crítica,
de sinalização e de não banalização de situações que comprometem a dignidade da
pessoa idosa.
Enquanto houver um idoso a viver num lar ilegal,
privado de cuidados dignos, essa ferida não é apenas do sistema, é da sociedade
inteira, e uma sociedade que se habitua a isso perde, lentamente, a capacidade
de se reconhecer como justa.
Helder Mota Filipe é professor na Faculdade de Farmácia, Universidade de Lisboa e Bastonário da Ordem dos Farmacêuticos;
Abel García
Abejas é professor de Bioética, NEBUBI, FCS-Universidade
da Beira Interior e médico de família
A invocação de «causa de força maior» para suspender contratos de fornecimento de combustíveis ou alumínio era consequência certa e previsível da guerra.
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