Covid-19 causa "sofrimento atroz" aos obcecados pela limpeza

Covid-19 causa 'sofrimento atroz' aos obcecados pela limpeza
Raquel Lito 19 de junho de 2020

Mais de dois banhos por dia, eczema nas mãos e gengivas em sangue pelo excesso de lavagens. É a higiene levada ao extremo. Psicólogos e psiquiatras dizem que os sintomas podem agravar-se no contexto da pandemia


Tome nota: mais de dois banhos por dia, com duração de uma até seis horas, são sinal de alerta. Mas há outros, como a lavagem de mãos, sistemática com lixívia e álcool, a ponto de deixar eczema; ou dos dentes, ficando a sangrar das gengivas. Estes rituais de limpeza podem disparar pelo imperativo de combate à Covid-19, mas é preciso estar consciente do exagero. E se assim for, questionar-se: sente-se incongruente (mal) com isso? Ou seja, por um lado tem noção do excesso mas não consegue contrariar o padrão psicológico (a obsessão)? Se a resposta é sim, continue a ler. Vários especialistas em saúde mental contactados pela SÁBADO indicam os sintomas e tratamentos.  

As repetições de comportamentos revelam-se um atraso de vida (há quem tome banhos diários de cinco horas, já lá vamos). No dicionário terapêutico, têm um nome: comportamentos ritualizados. O obcecado por limpezas cumpre escrupulosamente um plano de ação – lavar inúmeras vezes determinada zona do corpo, por exemplo – ainda que saiba que o mesmo é irracional. O psicólogo António Américo Salema fala em fuga, como quem diz "defesa para a pessoa não entrar num quadro de depressão." Por isso, "o sofrimento é atroz", alerta o diretor da Clínica da Mente, Pedro Brás. 

Contrariar os medos
São medos involuntários. A sujidade é exacerbada, horrível, ameaçadora, monstruosa. Uma criança de 9 anos descreveu-a em consulta como um monstro de dentes afiados, o que fez com que o terapeuta Pedro Brás recorresse a uma técnica psicoterapêutica (alterar a representação mental ameaçadora) para a paciente afastar tal ideia. "Disse-lhe para imaginá-lo sem os dentes, com lacinhos."

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