Entrevista

Carlos Tê: “Não me apetece fazer coisas para os 'spotifies' desta vida ganharem dinheiro”

Filipa Teixeira 01 de maio

É fanático por futebol, tem um novo romance pronto e já lhe pedem pouco para escrever canções. Sobre o fim da parceria com Rui Veloso, conta que não há relações felizes para sempre e que não se deve insistir em algo em que não se acredita.

Carlos Tê é de um tempo em que se praticava o culto dos cafés no Porto. Rui Veloso pertencia a "outra tribo". Conheceram-se através de amigos em comum e formaram uma das duplas mais transformadoras do rock português. A alcunha de Tê, ganha nesses mesmos cafés de juventude, veio de lhe chamarem "tarado musical". Hoje não se revê na voracidade dos algoritmos do Spotify, mas o bichinho da canção, como nos contou em entrevista na Afurada, continua nele.


Por que razão escolheu a Afurada para esta entrevista?
Esta é uma zona que me é grata. Conheci-a quando era baldia. Eu e os meus amigos atravessávamos o rio em Massarelos e andávamos por aqui. Não por acaso, a segunda ou a terceira letra que escrevi em português chama-se Afurada.

Sempre escreveu muito sobre o Porto e as suas personagens…
Quando as coisas têm implementação no tecido sociológico, as personagens passam a ser reais. Durante muito tempo, as pessoas acharam que o Chico Fininho existia e que o conheciam.

Quando começou a trabalhar na indústria automóvel, aos 14 anos, já escrevia? 
Nessa altura não escrevia, mas observava as coisas como se viesse a escrever um dia. 

Como descreveria a sua infância?
Muito boa. Foi uma infância pobre, mas rica em liberdade. Passei dezenas de tardes a jogar futebol e isso ajudou-me no meu desenvolvimento psicomotor e deu-me uma sensação de espaço e de liberdade física que era própria de uma criança que não tinha consciência do País.

Havia livros em sua casa?
Não tinha livros, quase nem tinha jornais. Isso é uma coisa que aparece muito mais tarde. É uma procura muito própria. Fazia perguntas e percebia que não havia grandes respostas à minha volta. Se não há à volta, pelo menos deve haver respostas nos livros, pensava. Com o dinheiro que sobrava do que eu ganhava, comprava um disco por mês ou um livro. Tudo isso fez parte do meu processo de crescimento.

Os seus pais não viam isso como uma excentricidade?
Em relação aos livros, confesso que quase os escondia. Os discos, como eram LP, eram impossíveis de esconder. Isso era visto como uma excentricidade, como um gasto em coisas que não valiam nada. Mal eles sabiam que estava ali o meu futuro.

Depois passou a ouvir música com os seus pais?
Nada, zero. A minha relação com os meus pais a esse nível era de alguma distância, porque eles não ouviam música. A música não era o mundo deles e eu cresci conformado com isso. Eram questões geracionais. Confesso que uma das mágoas que acarretei comigo foi nunca poder discutir um livro com o meu pai e com a minha mãe, coisa que eu já não tive com os meus filhos. Mas eles eram ótimos, fizeram tudo o que podiam por mim num momento muito difícil.

Inclusivamente pouparam-no à ferrugem, ou seja, ao trabalho como mecânico, quando foi trabalhar para os escritórios da oficina?
Isso foram sobretudo as mulheres da minha família. Há três mulheres a quem eu devo quase tudo: à minha avó, que era analfabeta e que praticamente me criou, à minha mãe e à minha tia que me pagou o curso de inglês. Essas três mulheres é que disseram: "Para a ferrugem não." Elas olhavam para mim como uma espécie de pequeno príncipe.

E a sua avó aprovava as suas paixões pelos discos e pelos livros?
Ela, como era analfabeta, de facto valorizava muito a questão dos livros. Olhava para os livros com algum respeito e via com bons olhos eu os namorar. Eu tenho uma letra que lhe dediquei quando ela morreu, A Gente Não Lê. Foi das poucas coisas que eu percebi que vinha diretamente de mim.

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