Isabel é guia turística no país do Médio Oriente, onde os cães são considerados animais impuros.
É a hora da sesta em Omã, uma monarquia muçulmana absoluta, situada na Península Arábica. E apesar de ter um quintal com jardim, os dez cães que vivem com Isabel estão fechados em casa. “Não podemos incomodar os nossos vizinhos árabes”, explica Isabel Graça, guia turística de português e espanhol, a viver em Omã. “Se os cães forem para o jardim e ladrarem, os vizinhos podem chamar a polícia e os animais podem ser alvejados.”
Isabel com os dez cães resgatados que tem em casa
Isabel resgatou vários que sobreviveram de ninhadas alvo das autoridades locais. Estas ações aumentaram sobretudo depois da pandemia do Covid-19. “Na altura, houve muitos estrangeiros - europeus e indianos - que deixaram o país e abandonaram os animais. O número de cães nas ruas cresceu muito”, conta Isabel à SÁBADO. No país muçulmano o cão é considerado um animal impuro e são sobretudo os estrangeiros que os escolhem para animal de companhia. Mas também há omanitas que os compram. "Chihuahua, Shih Tzu, Pomerânia, Yorkshire, Maltês, Pastor Alemão, Pastor Belga Malinois, Retriver Labrador, Husky, Chow-chow, são as raças mais compradas pelos árabes locais, muitas vezes, sem o conhecimento ou consentimento da restante família", explica a portuguesa. Sem conhecerem bem o comportamento dos animais, acabam por desfazer-se deles quando estes roem sapatos e alcatifas.
Agora com a guerra no Irão, voltou a crescer o número de estrangeiros que está a deixar o país e, com isso, o número de cães abandonados. “Os países que repatriaram os seus cidadão não aceitam transportar os animais. Penso que só a Grécia é que organizou voos para os cães e gatos dos cidadãos repatriados”, esclarece.
Depois de resgatar os cães, Isabel inicia o processo que levará os animais até Portugal para serem adotados. Mas para isso tem de os vacinar e realizar análises serológicas que detetam doenças, exigidas pelas companhias aéreas e pelas autoridades do país que irá receber os animais. “As análises são enviadas para a Alemanha, porque aqui não se realizam”, conta. Depois os cães têm de ficar três meses em quarentena antes de entrarem a bordo do avião. Não é um processo barato: cada vacina custa cerca de 65 euros, os testes serológicos atingem os 315 euros e os voos para Portugal, pelo Catar, podem custar entre 850 e 950 euros. Para fazer face aos custos Isabel Graça criou uma angariação de fundos no GoFund Me.
Ao mesmo tempo, a guia turística tem tentado criar um abrigo em Omã. "O município de Mascate [capital do sultanato] já tem um veterinário que castra os cães recolhidos na rua, mas depois voltam para a rua marcados com um brinco de plástico colorido na orelha sem proteção, sem comida nem água- E se algum omanita se sentir incomodado de ver o cão perto de si, pode chamar a policia e o cão é morto. Vai melhorar, mas ainda demora o seu tempo", acredita.
Enquanto o abrigo não se concretiza, tem trazido os animais para Portugal. Já trouxe 15 cães, sete foram adotados. Os restantes estão instalados em abrigos e hotéis para cães.
Folhetos com perfume
Bruno, um Saluki do deserto - considerado um cão real no Antigo Egito - foi um dos animais que resgatou e conseguiu trazer para Portugal, em Novembro do ano passado. Mas a adoção não correu bem. “Fui três vezes com o Bruno à casa do senhor que o ia adotar para ele socializar e correu bem”, conta. Mas no segundo dia que o Bruno ficou em casa do futuro dono, no dia 26 de novembro, este levou-a um parque na Portela para brincar com outros cães, tirou-lhe o arnês e o cão fugiu. “Eu estava em Santarém e fui logo para Lisboa”, conta Isabel Graça. Durante dez dias não descansou até encontrar o Bruno.
Colocou um pedido de ajuda no Facebook e foi contactada por um grupo de amigos dos animais do Parque das Nações, que prometeram ajudar nas buscas. “Pedi ajuda às esquadras da PSP de Sacavém e de Moscavide - passei lá algumas noite”, conta. Também imprimiu mais de mil folhetos com a fotografia do Bruno, no colete cinzento que levava vestido, com o seu contacto. “Borrifei as folhas com o meu perfume, Amouage Portrayal - um perfume fabricado e Omã e que não existe em Portugal - para ele cheirar e permanecer - é que os Salukis são como os galgos, adoram correr”, explica Isabel Graça. E colou-os no seu carro, em candeeiros, semáforos e paragens de autocarro. Distribuiu folhetos em lojas e cafés do Parque das Nações, Moscavide e Sacavém. “Entreguei folhetos num raio de 5 km: as pessoas já me conheciam e havia carros que paravam ao pé de mim na rua para dizer que estavam à procura do Bruno”, recorda.
Lembrou-se de ir buscar outro cão que também tinha resgatado de Omã e que conhecera o Bruno, o Mel. “Ele estava num hotel para cães à espera de ser adotado e pensei que ele poderia sentir o cheiro do Bruno e chamá-lo”, explica. À noite saia pelas ruas a chamar pelo cão com um grupo de pessoas e a polícia acompanhou-a várias vezes na busca. Recusou-se a partir para Omã até encontrar o Bruno e perdeu dois voos marcados para regressar a Omã. Recebia telefonemas de pessoas que tinham visto o cão, mas quando chegava ao local, já não o encontrava. Também a tentaram burlar. “Ligou-me um senhor que dizia ser veterinário, disse que tinha encontrado o Bruno, mas que este tinha sido atropelado e precisava de uma cirurgia urgente, mas para isso eu tinha de transferir uma quantia para ele realizar a cirurgia”, conta. “Estava na esquadra, passei o telefone ao polícia e ele desligou.”
Dez dias depois de buscas, Isabel Graça voltou a percorrer as ruas à noite com o Mel, quando às 4h00 da madrugada recebeu um telefonema. “Uma senhora que cuidava de uma colónia de gatos no Prior Velho tinha avistado o Bruno”, conta. Ligou à polícia, que a acompanhou até às 5h00, quando foram chamados para outra ocorrência.
Continuou a percorrer as ruas da vila e às 10h00 recebeu outro telefonema. Desta vez, o Bruno estava junto ao supermercado Lidl. Isabel estava perto e deslocou-se para lá a pé com o Mel. Pelo caminho perguntava às pessoas com quem se cruzava se tinham visto um cão. Um rapaz indicou-lhe uma rua murada dos dois lados e com saída para um portão verde de uma quinta. “Entrei, os jardineiros que lá se encontravam não tinham reparado em nenhum cão, mas deixaram-me percorrer a quinta.” Ao fim de uns minutos, o Mel começou a puxar e Isabel largou a trela, porque não o conseguiu segurar. Quando deu a volta à casa da quinta, nas traseiras encontrou os dois animais juntos. “Chamei-o e foi uma alegria”, conta. “Estava bem, mas tinha perdido 6 kg em 10 dias.”
Agora, Bruno aguarda para ser adotado num hotel para cães em Sintra. “Já não devolvi cão ao senhor que o tinha adotado”, diz. “O desespero do desaparecimento é maior do que a morte - não se sabe o que aconteceu, se está a sofrer”, considera. Em Omã tem dois empregados que ajudam a tratar dos dez cães que gostaria de trazer para Portugal. Mas a missão está a tomar proporções que não imaginava. "Quando comecei a salvar os cães pensei que rapidamente conseguiria quem os adotasse na comunidade de estrangeiros", diz. Mas com o conflito no Médio Oriente o número de possíveis famílias adotivas diminuiu e os pedidos de ajuda são constantes. "Ligam-me a avisar de cães que vêem na rua abandonados e eu não tenho forma de ajudar todos."
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