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Violada pelo pai e recrutada por Maxwell em Mar‑a‑Lago: a história de Virginia Giuffre

Luana Augusto 07 de junho de 2026 às 08:00

Biografia da primeira vítima de Epstein foi publicada esta quarta-feira. No livro, a jornalista Amy Wallace conta como Virginia foi violada pelo pai aos seis anos e abordada por Ghislaine Maxwell na mansão Mar-a-Lago, de Donald Trump.

Tudo começou quando tinha apenas seis anos. Virginia Roberts Giuffre era ainda uma criança quando foi vítima de abusos sexuais por parte do pai, que pouco tempo depois a entregou a um amigo de família para que a continuasse a explorar. Aos 16 anos a sua vida mudou: foi quando foi abordada por Ghislaine Maxwell - então companheira de Jeffrey Epstein e figura chave no esquema de tráfico sexual do milionário. Foi recrutada pela própria Maxwell na mansão Mar-a-Lago de Donald Trump, na Florida. A partir do primeiro contacto sexual com Epstein, passou a ser apelidada pelo pedófilo como a "número um" .

Virginia Giuffre em frente a um tribunal de Manhattan Foto AP/Bebeto Matthews, Arquivo

Giuffre foi uma das primeira mulheres a denunciar publicamente a rede poderosa de prostituição montada por Epstein. Agora, as suas memórias ganham forma no livro A Rapariga de Ninguém - publicado esta quarta-feira em Espanha

Na obra, Amy Wallace, jornalista e editora que assina a biografia, descreve como Giuffre assistiu a um desfile de figuras poderosas que entraram e saíram da sua vida - cerca de 20 homens - e relata o dia em que a jovem foi supostamente forçada a dormir com o príncipe André, do Reino Unido. A vítima de Epstein ainda chegou a expor o caso, mas não tendo aguentado o fardo emocional acabou por tirar a própria vida em abril de 2025. Morreu aos 41 anos e deixou para trás três filhos na Austrália e um marido que a agredia fisicamente.

"Estava cansada das lembranças na sua cabeça", aponta Amy Wallace, jornalista e editora que dá agora forma à autobiografia de Giuffre. em entrevista ao .    

Violada pelo próprio pai

A infância de Giuffre foi extremamente complicada, desde o início. Cresceu na cidade de Loxahatchee, Florida, numa família marcada por violência doméstica e alcoolismo. "À noite, no escuro, estava sempre em alerta", lembrou Giuffre. "O meu pai nem sempre entrava no meu quarto, mas todas as noites eu temia que entrasse. A porta rangia ao abrir, deixando entrar um fio de luz do corredor. Sempre me lembrei daquele rangido."

Giuffre já havia revelado publicamente que tinha sido abusada por um amigo da família, mas nunca disse que o pai foi o primeiro a fazê-lo. "Ela falou sobre isso com uma enorme coragem e com um custo emocional muito alto para si mesma", explicou a antiga jornalista do Los Angeles Times.

A única lembrança boa que Giuffre teve daquela época foi apenas da sua égua, Alice. "Procurei consolo na Alice. Tentei agarrar-me à sensação de que ela fazia parte da minha família, de que eu tinha alguma ligação, se não com os meus pais ou mesmo comigo, pelo menos com o meu cavalo, com os nossos pinheiros, com a pequena ilha no meio do nosso lago. Mas essa sensação de conexão foi-se dissipando um pouco mais a cada dia."

Mas ao longo dos anos, a menina assustada transformou-se numa adolescente rebelde. "Sempre que podia, andava com rapazes mais velhos, bebia, ia a festas e praticamente não havia droga que não tivesse experimentado", recorda. A mãe Lynn acabou, no entanto, por a colocar numa casa de correção na Florida, de onde fugiu pouco tempo depois. Durante essa fuga, Giuffre foi abordada à beira da estrada por um homem que a violou. "Ele violou-me primeiro pela frente e depois por trás. Pensei que ia morrer, que me ia atirar para algum buraco." Ao invés disso, conseguiu escapar.

Donald Trump e Jeffrey Epstein conversam num evento House Oversight Committee

No verão de 2000, Giuffre teve o seu primeiro contacto com Donald Trump - que foi amigo próximo de Epstein durante quase uma década. Na altura, o pai de Virginia trabalhava na mansão de Mar-a-Lago de Trump e, poucos dias depois de lá ter começado a trabalhar, o pai levou-a ao escritório do republicano para a apresentar. "Esta é a minha filha", disse com a voz a transbordar de orgulho. "Trump foi extremamente gentil comigo e disse-me que era fantástico eu estar por lá", lembrou Giuffre.

Foi nessa altura, apenas com 16 anos, que Giuffre foi abordada pela primeira vez por Ghislaine Maxwell. A então companheira de Epstein encontrou-a na entrada do clube de Mar-a-Lago e assim que a viu ofereceu-lhe um emprego de massagista de um homem rico. "Ele adora ajudar pessoas", disse-lhe Maxwell. E deu-lhe o endereço de Palm Beach. Horas depois, ela estava em casa do pedófilo, mesmo nunca tendo feito uma única massagem na vida.

Enquanto subia as escadas para o segundo andar, Giuffre viu várias fotografias de mulheres nuas nas paredes. Foi aí que Giuffre começou a ficar nervosa e Maxwell decidiu explicar-lhe passo-a-passo o que ia acontecer. A companheira de Epstein pediu que a jovem acariciasse Epstein, passando-lhe as mãos pelas nádegas, e que agisse naturalmente quando ele exibisse descaradamente a sua ereção. "Eu já tinha visto partes íntimas masculinas antes, mas não esperava isto", disse Giuffre.

Ela ainda pediu que parassem, mas não houve cedências. Epstein chegou até a perguntar se ela usava algum método contracetivo e como e quando havia perdido a virgindade. Após o ato, o criminoso sexual emitiu o seu veredito: "Ela é boa, vamos ficar com ela", disse a Maxwell.

Getty Images

Seguiram-se depois, ainda segundo o livro, dois anos de exploração sistemática. "Desde o início, fui manipulada para participar em comportamentos que me consumiram, corroendo a minha capacidade de compreender a realidade e impedindo-me de me defender", lamentou. "Não havia grades nas janelas nem trancas nas portas. Era uma prisioneira numa gaiola invisível."

O livro descreve ainda pela primeira vez como as vítimas ficavam presas nestas teias. "Elas não eram acorrentadas, mas a mistura de manipulação, de as fazerem sentir-se valiosas num dia e abusadas no outro, criou um ambiente tóxico do qual era muito difícil escapar."

Wallace descreveu até o pedófilo como "uma pessoa de inteligência extraordinária e uma capacidade de manipulação difícil de ver". "Ele insinuava que podia ajudar. Atraía pessoas de todas as idades, classes sociais e géneros."

Wallace admite que a parte mais difícil do trabalho não foi relatar os abusos de Epstein e Maxwell - a mulher que cultivou a rede de jovens mulheres para o financeiro e que está a cumprir uma pena de 20 anos - mas sim, reconstruir a vida de Giuffre antes de Epstein ter entrado na sua vida. "Era importante para a Virginia que o abuso do seu pai estivesse no livro, porque ela nunca havia falado sobre isso", diz.

Giuffre já havia revelado publicamente que tinha sido abusada por um amigo da família, mas nunca revelou que o pai foi o primeiro a fazê-lo. Ela falou sobre isso com uma enorme coragem e a um custo emocional muito alto para si mesma", explicou a antiga jornalista do Los Angeles Times.

Wallace aproveitou ainda para criticar a forma como todo o caso está a ser conduzido e deixou até duras críticas a Trump e ao Departamento de Justiça. "É uma vergonha, tanto a relação pessoal dele [Trump] quanto a do Departamento de Justiça. (...) Eles divulgaram metade dos arquivos de Epstein e dizem que terminaram. A forma como divulgaram esses arquivos, ocultando os nomes de um grande número de potenciais perpetradores, homens e mulheres, é ilegal. Esses nomes não deviam ter sido ocultados", defende.

Apesar de Giuffre não ter aguentado toda a pressão emocional e de ter cometido o suicídio, Wallace acredita que o seu esforço não foi em vão e que este livro poderá ajudar muitas vítimas de abuso sexual. "A prioridade de Virginia era ajudar a epidemia de sobreviventes que existem por aí", disse ao jornal espanhol .   

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