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'Meu bebé, amo-te muito.' O discurso de Nuno Lobo Antunes para o irmão António

Marco Alves 30 de setembro de 2019 às 09:00

Homenagem pública, que reproduzimos na íntegra, comoveu o clã Lobo Antunes, reunido publicamente no sábado na Gulbenkian para os 40 anos de vida literária de António.

(Texto publicado em setembro de 2019)

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Foto: DR
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Foto: FC Gulbenkian
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(Texto lido por Nuno Lobo Antunes, médico neuropediatra e escritor, a propósito da homenagem ao irmão António Lobo Antunes no sábado, 28 de setembro, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa - após a sua leitura, os dois irmãos abraçaram-se, comovidos. Após solicitação da SÁBADO, Nuno Lobo Antunes cedeu gentilmente o seu discurso.)



"Minhas Senhoras e Meus Senhores.

Este é, para mim, um momento particularmente difícil, porque a minha presença nesta homenagem apenas se justifica porque outros, maiores do que eu, não podem estar presentes.

O meu irmão João, a quem por inteiro direito cabia a honra deste momento, o Pedro, cuja eloquência era feita de silêncios e que não mais terá voz para além da que se ouve através das nossas memórias. O meu irmão Miguel cuja modéstia o escusou desta tarefa. Resto eu na cadeia hierárquica de uma família, para quem a lei do morgadio sempre esteve implícita.

Este é um exercício de humildade da minha parte e, da vossa, um esforço de paciência e generosidade para o mais pequeno de uma geração feita de vozes que no seu apogeu chamaram de Ínclita, e que agora se encaminha para o fim.

Pediram-me que expressasse o sentir de uma família quando o António se revelou como escritor. Foi um pedido que não pude recusar, mas ao qual, ao mesmo tempo, não posso responder.

A minha família, talvez como todas, não é um conjunto uniforme de pessoas, antes uma soma de solidões unidas por um vínculo, feito de memórias partilhadas e de frases que de tão repetidas, ao longo de anos se tornaram as correntes que nos prendem. Não sei se nos une mais o sangue, se excertos de "Os Maias", tantas vezes citado à mesa de jantar.

Tudo o mais nos distingue. Personalidades, histórias de vida, talvez não os valores, mas de certeza muitas escolhas. O impacto do António escritor foi diferente em cada um de nós, e não tenho procuração para exprimir o que a mim não pertence. Assim sendo, não represento a perspectiva de uma família, mas apenas a minha, uma de entre seis, uma fracção menor.

A tudo isto acresce o facto de o António ser o primeiro, e eu o 5º da alcateia. A diferença de idades não me permitiu ser testemunha do esboço do escritor. No entanto, verifiquei na sua caderneta de estudante do Liceu Camões que teve um 9 a Português, o que decerto muito o honra, porque há negativas que valem um 20. Por essa altura andava eu agarrado a um Pluto de borracha e tinha um defeito na fala.

O primeiro contacto com a escrita do António veio pelo correio, no papel amarelo dos aerogramas enviados de Angola. Nunca esqueci um que me encheu de orgulho por me ter como destinatário. Estava escrito em português arcaico como o das crónicas dos reis. Achei muito divertido, ainda o guardo, e fiquei orgulhoso porque era como se o rei António me tivesse armado cavaleiro.

Da nossa relação lembro-me que era particularmente profícua em transações comerciais: era eu miúdo e o António pediu-me que fosse ao Careca (assim era conhecido o merceeiro do bairro), comprar-lhe cigarros. Acedi na condição de ser padrinho do seu primeiro filho. Duas décadas mais tarde cumpriu a promessa, para desgraça da Zézinha, que tem um padrinho que a adora, mas nunca sabe a data dos seus anos.

Sim, lembro-me de o ver escrever, mas mais do que a escrita, impressionava-me que enquanto o fazia, usasse o crânio de uma caveira como cinzeiro. De resto, há antecedentes na história da literatura de outros príncipes conversando com caveiras.

Para compreender o meu sentir é preciso saber que durante a minha infância fui uma peça estranha, uma espécie de filho adoptivo feito de genes menores, cuja presença era tolerada, mas à qual, de alguma forma, verdadeiramente não pertencia, por não possuir a inteligência luminosa, a memória fotográfica, o humor cortante dos meus irmãos mais velhos.

A mãe, de mim, não esperava senão 10, a nota que permite aos medíocres sobreviver, e o meu pai imaginava-me mais quadrúpede do que bípede.

Ao revés, a minha admiração pelos irmãos mais velhos não tinha limites, embora em boa verdade, também não fosse por eles sempre bem tratado. Aos 15 anos, pela primeira vez ousei à mesa emitir uma opinião, embora não me lembre sobre o quê. Logo o António, citando o Eça, me silenciou para os dez anos seguintes: "Você vê as coisas de alto, Gouvarinho". Emudeci.

O dom da palavra sempre lhe pertenceu. Não foi decerto por acaso que o sacristão da igreja de Benfica decretou com enorme segurança que, de todos nós, era ele o que melhor pronúncia tinha a Latim, e eu maravilhava com a elegância com que dava ordens à empregada: "Corra célere, voe! Qual diligente mercúrio com asas nos joanetes, a fazer-me um ovo mexido!". Imaginei que Homero e Virgílio encomendassem da mesma forma os seus ovos.

À mesa distribuíam-se os vários prémios Nobel que lhes caberia no futuro. Ao António o da Literatura, o da Medicina ao João, que caso não fosse nomeado, se manteria muito sossegado até ser-lhe atribuído o da Paz. A mim restava-me na pequenez do jardim, galopar por entre desfiladeiros e ser o Cochise, chefe dos Apaches e meu herói favorito.

No entanto, ao António devo alguns dos momentos mais gratos da minha infância. Uma ou outra vez fechava-me no quarto e dizia Álvaro de Campos: "Come chocolates, pequena, come chocolates!" Enquanto os meus olhos se enchiam de lágrimas pela emoção que colocava naqueles versos. Creio que ele saboreava o impacto daquela plateia de um.

Ninguém diz poesia como o António.

Para ele a poesia tinha diversas funções. Quando entre nós havia uma disputa mais acesa, logo vinha a sátira do Augusto Gil: "A mãe teve um sorriso de contente, a filha um sorrisinho de quezília; que coisa comovente é o amor da família!". A ironia, lá em casa, feria, mas era erudita.

Também me lia contos da Selma Lagerloff e emprestou-me as viagens de Niels Holgerson através da Suécia, o livro mais fascinante que alguma vez li.

Permitia que o acompanhasse e aos amigos (enquanto ordenava: dois passos atrás e à esquerda), aos jogos do Benfica no Estádio da Luz. Em retrospectiva era muito generoso, porque 12 anos é uma grande diferença.

Eram tardes emocionantes e fiquei para sempre com a certeza de que não há, na vida, prazer tão genuíno e intenso como um golo do Benfica, nem visão tão fascinante como uma bola afagada pela rede da baliza adversária.

As coisas importantes que eu devo ao António sem que ele o saiba.

Há tempos, em conversa com o Miguel, constatei como eram diferentes as nossas memórias. A discussão era acalorada e repleta de certezas de parte a parte. Assegurava-me que trocava factos e datas. O passado que a minha memória construía era uma ficção. Talvez, mas é a minha e todas as memórias são obras de arquitetura.

Da estreia da Memória de Elefante lembro-me do espanto de ver, na Praia Grande, toalha sim, toalha não, uma senhora de óculos escuros com o livro na mão. Percebi que era um sucesso que competia com o negócio das batatas fritas da Tia Maria. Quando surgiu os "Cus de Judas" achei que era um título difícil para as senhoras pronunciarem, e achava esquisito aquele erro de concordância que atribuía vários Cus a um só Judas.

Agora: querem saber como se sente o 5º de seis irmãos quando o mais velho se torna escritor? Qual o sentimento dominante? Indignação por ter sido roubado!

O António é um ladrão.

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