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Gonçalo Capitão
Gonçalo Capitão Deputado do PSD
05 de maio de 2026 às 21:14

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José Pedro Aguiar Branco tocou num tema central: sem outras condições para o exercício dos cargos políticos será ainda mais difícil do que já é atrair pessoas de créditos firmados para a actividade política.

Por ocasião da Sessão Solene Comemorativa do 25 de Abril, o discurso do Presidente da Assembleia da República – relembro, a segunda figura do Estado – teve o mérito de levantar uma questão a que os partidos se têm furtado, excepto os que a instrumentalizam demagogicamente (talvez o singular fosse a opção verbal mais actual, mas nunca é bom esquecer a prosápia demagógica de marxistas e trotskistas).

E, antes de entrarmos no “prato principal”, uma “entrada” que se prende directamente com a menção “segunda figura do Estado”. O Deputado Pedro Delgado Alves tinha todo o direito de discordar do que acabara de ouvir e de usar qualquer um dos seus espaços de comunicação para, com a inteligência que não se lhe nega, dizer o que tinha a dizer. Em lado algum do hemisfério da boa educação, sem embargo, virar as costas a uma alta figura da República Portuguesa cai no estilo de perfil público que o parlamentar em causa parece querer cultivar. Salvo melhor opinião, tratou-se de um acto grosseiro e absolutamente dietético no que ao mérito intelectual concerne.

Com que “moral” censurará Delgado Alves qualquer “beijoqueiro” de outro partido?! Ou como sublinhará os contornos de arruaça dos protestos colectivos de outra bancada parlamentar?! Se ainda tivesse tido a humildade de Ana Abrunhosa (que havia retirado a confiança a um jornalista da agência Lusa) e pedido desculpa… No entanto e ao contrário da autarca da capital do seu distrito eleitoral, Delgado preferiu porfiar na falta de elegância e enredar-se em justificações patéticas…

Mas voltando ao que realmente importa, José Pedro Aguiar Branco tocou num tema central: sem outras condições para o exercício dos cargos políticos será ainda mais difícil do que já é atrair pessoas de créditos firmados para a actividade política.

Costumo dar este exemplo: numa empresa de dimensão relevante, uma chefia intermédia (dita de segunda linha) já ganhará mais ou menos o que ganha um deputado ou um secretário de Estado (ou, pelo menos, não ficará muito aquém), com várias vantagens. Desde logo, a pessoa em causa não terá o escrutínio esmagador que tem hoje qualquer figura pública, a quem quase se exige uma conduta sobre-humana, sem erros, sem falhas e sem o menor excesso, sob pena de esquartejamento mediático.

Depois, os ganhos de auto-estima são incontáveis. Se antigamente os oponentes ainda esboçavam um argumento contrário, hoje, o ecrã do telemóvel permite a muitos sublimarem frustrações e atacarem os titulares de cargos por características físicas ou recorrendo ao mais repugnante insulto.

Vêm depois os benefícios colaterais, desde viaturas de uso livre, generosas atribuições de combustível ou carregamentos e até prémios de desempenho que, na posição hierárquica em apreço, apenas se contarão em singelo se o trabalhador tiver um nível de empenho quase nulo.

Sublinhando que nem sequer falo de altos quadros, o que levará uma pessoa destas a querer envolver-se na política? Correndo o risco de parecer cínico, só alvitro três motivos: um enorme apego à causa pública (motivo de estilo lírico, mas não totalmente inaudito), a ideia da política com qualificação para outras oportunidades fora dela ou, falando de seres humanos, alguma vaidade (que cedo se desvanecerá ante a mensagem anti-políticos de, entre outros, sessenta políticos…).

A verdade é que, desde finais da década de 90, umas vezes com razões fundadas, outras para obter popularidade fácil, os políticos seguiram pela estrada do apoucamento próprio e dos seus nomeados (assessores e não só). Havendo, além desse erro passado, um partido extremista que usa argumentos demagógicos (sem mencionar que as reduzidas qualificações ou inexistentes currículos prévios tornam para alguns estes lugares num oásis, mesmo com a “sombra” actual), cada passo atrás na capacidade de atrair talento tornou-se praticamente irreversível, desde logo, pela impopularidade do tema.

Não entrarei nos pontos concretos sobre os quais seria urgente meditar e até concedo dois argumentos contra facto próprio: por um lado, o nível salarial médio ainda permite olhar de soslaio para estas ideias a todos os que não quiserem meditar na vantagem de serem servidos pelos melhores. Em segundo lugar, reside aqui um problema de tomo; ninguém consegue garantir que a melhoria de condições não permitirá a continuação dos que agora são censurados, com a diferença de serem mais bem pagos…

Seja como for, o tema é urgente e louvo a coragem política da sua enunciação pela segunda figura do Estado, sendo que, a meu ver, só a primeira o pode resolver, emprestando o seu resguardo institucional aos partidos para o necessário debate.

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