Mais de um milhar de pessoas desfilaram em Lisboa em defesa do clima

Lusa 09 de setembro de 2018
As mais lidas

Mais de um milhar de pessoas desfilaram hoje, em Lisboa, no âmbito da Marcha Mundial do Clima, pedindo o fim da exploração de combustíveis fósseis, para inverter o impacto das alterações climáticas.

Mais de um milhar de pessoas desfilaram hoje, em Lisboa, no âmbito da Marcha Mundial do Clima, pedindo o fim da exploração de combustíveis fósseis, para inverter o impacto das alterações climáticas.

Segundo a organização da marcha, no contexto europeu, as alterações climáticas, afectarão sobretudo Portugal.

"Com aquilo que já sentimos, com os recordes de temperatura que houve este Agosto, com a seca que tivemos no ano passado, com as ondas de calor que começam a ser mais frequentes, com a ameaça que temos ao nosso litoral, Portugal é dos países que mais sofrerá com as alterações climáticas no contexto europeu", disse à agência Lusa Francisco Ferreira, da ZERO -- Associação Sistema Terrestre Sustentável.

Centenas de pessoas de várias idades e nacionalidades concentraram-se desde as 17:00 no Cais do Sodré, junto à estação de comboios, onde gritaram palavras de ordem e empunharam cartazes com as frases: "Não ao Furo - Sim ao Futuro", "Deixem os Fósseis em Paz" e "Empregos para o Clima", que foram entoando durante um desfile até ao Rossio.

Sob o lema "Parar o petróleo! Pelo clima, justiça e emprego!", a iniciativa, que reúne 40 organizações portuguesas de ambiente, movimentos cívicos, sindicatos e partidos políticos, mobilizou hoje milhares de pessoas em mais de 900 cidades de 95 países, tendo em Portugal saído à rua manifestantes em Lisboa, Porto e Faro, de acordo com Francisco Ferreira.

"Estamos a tentar apelar a todos os governos e a demonstrar que a sociedade civil quer, efectivamente, proteger o clima. As alterações climáticas estão a revelar-se em todo o mundo, com consequências graves, à custa da queima dos combustíveis fósseis", salientou o presidente da ZERO.

Os manifestantes em Lisboa, Porto e Faro apelaram para que não avancem projectos como o furo junto a Aljezur, no Algarve, onde se pretende fazer exploração de petróleo, e em relação à eventual exploração de gás natural em Aljubarrota, "porque contrariam o objectivo da neutralidade carbónica em 2050, que o Governo assinou".

"Há uma grande contradição em Portugal, entre o objectivo de sermos ambiciosos, e limitarmos o uso de combustíveis fósseis, apostando nas energias renováveis, que temos ainda muito disponíveis, e o iniciar de um novo ciclo de exploração de hidrocarbonetos, que não tem sentido do ponto de vista dos nossos compromissos, nomeadamente através do acordo de Paris", argumentou.

Francisco Ferreira disse que este será o primeiro evento no género à escala mundial: "Para a semana há uma cimeira global em São Francisco [Estados Unidos], a 8 de Outubro vai ser anunciado um relatório mundial do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, onde se vai fazer um ponto da situação sobre a possibilidade de manter a temperatura abaixo de um grau e meio, e, em Dezembro, haverá a Conferência das Nações Unidas na Polónia", elencou.

"Tudo isto faz parte de um alerta, de uma pressão junto dos Governos, de mobilização da sociedade civil, pela salvaguarda do clima, que está seriamente ameaçado. Nós temos o dever e a obrigação de nos mobilizarmos, e de fazer valer um futuro mais limpo, mais renovável, sem o uso intensivo do petróleo, do carvão e do gás natural", defendeu.

Questionado pela Lusa sobre a conferência de 'negacionistas' das alterações climáticas, que decorreu na sexta-feira, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Francisco Ferreira disse: "Em termos científicos não há quaisquer dúvidas de que as alterações climáticas existem, e estão a ser causadas pela actividade humana. É isso que está patente nos relatórios de inúmeras universidades, e que são aceites pelas Nações Unidas".

"O conhecimento científico que existe à escala mundial sobre este tema é inequívoco, e, se queremos salvaguardar as próximas gerações dos impactos que estão previstos, é fundamental agir de imediato", salientou.

Dora Galvão, 45 anos, decidiu também participar na Marcha Mundial do Clima, entre centenas de outros manifestantes, e disse à agência Lusa que "é urgente uma nova consciência a favor do clima".

"Não há um plano B. Temos mesmo de deixar de usar combustíveis fósseis. Os Governos não estão a fazer o suficiente, e a sociedade civil deve manifestar-se", apelou.

Mil pessoas marcharam no Porto contra prospeção de petróleo no Algarve
Cerca de mil pessoas participaram hoje no Porto na Marcha Mundial do Clima com críticas ao primeiro-ministro, António Costa, pela "inconsistência da descarbonização" e ao presidente norte-americano, Donald Trump, por "negar as alterações climáticas".

Numa marcha que tinha como mote "Parar o petróleo pelo clima, justiça e emprego", o milhar de pessoas que se concentrou na Avenida dos Aliados, no Porto, e depois rumou até à marginal do rio Douro, expressou o descontentamento pela possibilidade de prospecção de hidrocarbonetos no Algarve.

O deputado na Assembleia da República do PAN (Pessoas-Animais-Natureza), André Silva, salientou à agência Lusa estar a viver-se "uma era em que a comunidade científica está cada vez mais consensual em dizer que as alterações geomorfológicas da terra e do clima estão, pela primeira vez, a ser colocadas em causa devido à acção humana".

Reivindicando, por isso, "mudanças políticas", André Silva lembrou a "imposição do Governo em que, contra a vontade das populações e dos autarcas, quer fazer prospecção e produzir petróleo [no Algarve]", para lançar críticas ao primeiro-ministro, que "vem dizer que quer cumprir o Acordo de Paris e, ao mesmo tempo, um plano de descarbonização".

"É completamente inconsistente querermos cumprir, por um lado, o plano de descarbonização e, por outro, produzir petróleo", vincou o deputado.

Reconhecendo que à escala nacional "a população não está toda sensibilizada" para o tema, o membro do PAN insistiu na importância das acções como a de hoje, sublinhando que de "cada vez que são feitas junta-se mais gente para esta causa".

"Não queremos travar a prospecção por ser no nosso país. Não! A intenção é fechar cada vez mais poços de petróleo por todo o mundo. O investimento que tem de ser feito é em ciência energética e em políticas alternativas", argumentou.

Com as negociações para o Orçamento de Estado (OE) em cima da mesa, André Silva garantiu que "ficaria satisfeito" se o próximo OE "previsse um combate mais efectivo ao consumo dos plásticos".

Também presente na marcha, a deputada do Bloco de Esquerda (BE) Maria Manuel Rola corroborou as ideias de André Silva, reclamando, em declarações à Lusa, "uma outra resposta às alterações climáticas que tardam bastante em surgir".

"Esta questão levantou-se ainda mais com a eleição de Donald Trump [para a presidência dos Estados Unidos]", expressou a deputada bloquista, afirmando que "dele, e dos EUA, não se espera outra coisa que não seja a de negação das alterações climáticas".

E prosseguiu: "preocupa-nos também que essa seja uma resposta a nível mundial, passando por [o Presidente de França, Emannuel] Macron, mas também pelo Governo português, que mantém os contratos de prospecção e exploração de petróleo ao largo de Aljezur".

"Não é aceitável que um Governo que diz querer uma política de carbono neutra em 2050 continue com esta ideia nada consequente de manter a possibilidade de prospecção e exploração de combustíveis fósseis ao largo de Portugal", concluiu.

A Marcha Mundial do Clima foi convocada pelos movimentos "Salvar o clima, parar o petróleo" e MOB - Espaço Associativo, a que se associaram a ONGA, a SOS - Salvem O Surf, e a Campo Aberto, Associação de Defesa do Ambiente.

Descubra as
Edições do Dia
Publicamos para si, em três periodos distintos do dia, o melhor da atualidade nacional e internacional. Os artigos das Edições do Dia estão ordenados cronologicamente aqui , para que não perca nada do melhor que a SÁBADO prepara para si. Pode também navegar nas edições anteriores, do dia ou da semana
Investigação
Opinião Ver mais